Escrever Para Não Enlouquecer – Bukowski através das Cartas

“Escrever é apenas o resultado daquilo em que nos transformamos dia após dia ao longo dos anos. É uma maldita impressão digital do eu e é isso aí.”

Bukowski nunca fora de escrever cartas rebuscadas ou bonitas o bastante para ilustrarem uma grande história de amor. Assim como seus poemas, suas cartas sempre foram escritas com crueza, sinceridade, sentimentos em sua forma mais pura e algumas garrafas da bebida que os trocados pudessem pagar.

“Escrever Para Não Enlouquecer” é um compilado de cartas, selecionadas e editadas cronologicamente por Abel Debritto, que contam a trajetória do escritor Charles Bukowski desde seus primeiros anos tentando tornar-se um escritor relevante, até seu penúltimo ano de vida. Dentre os inúmeros destinatários, podemos encontrar cartas para revistas de literatura, editores, amigos, familiares do velho Buk e até mesmo para alguns de seus autores favoritos, como Henry Miller.

As primeiras cartas, escritas à mão, traziam ilustrações cujo intuito era chamar a atenção do leitor, como uma forma de ser notado pelos editores das revistas em que buscava publicar seus poemas. Em “Escrever Para Não Enlouquecer”, aos poucos, podemos ver o amadurecimento de Bukowski como autor e sua crítica com relação à literatura feita por dinheiro, sem profundidade, acadêmica em demasia e monótona. Parte da postura prepotente do autor com relação à literatura de sua época, especialmente à poesia, vai se dissipando em críticas repletas de conformismo e uma aceitação tristonha do modo como até seus ídolos se renderam ao modelo vendável da escrita.

 “Quando você não consegue chegar à linha seguinte isso não significa que você está velho, significa que você está morto.”

Ao mesmo tempo, Bukowski se abre em suas cartas e conta sobre o processo criativo, dando ênfase em seu dia a dia e na forma como cada um dos fatos, sejam estes relacionados com suas mulheres, bebidas ou resultados das corridas de cavalos, o impulsionaram à escrita. Escrever não era um trabalho para o velho, mas sim sua forma de sobreviver em meio à marginalidade que o cercava e à condição na qual estava vivendo.

Não por acaso as cartas de Bukowski, assim como seus poemas, eram escritas de forma impulsiva, como um processo catártico sem revisão, apenas exprimindo palavras de uma forma intensa, por vezes em caixa alta e com diversos pontos e exclamações.

Escrever Para Não Enlouquecer

Entre as tantas cartas de “Escrever Para Não Enlouquecer”, é possível descobrir um pouco mais sobre a vida do autor, como suas relações familiares com a filha e os diversos empregos que aceitara antes de ter na escrita sua verdadeira fonte de renda. Entre uma carta e outra é possível perceber o amor de Bukowski pela escrita, como se o ato de escrever fizesse realmente parte de sua existência.

Não importava o que era produzido, o quanto era produzido, a forma como cada poema era escrito ou quantas cervejas foram precisas para chegar no poema ideal. Para Bukowski a escrita bastava, sendo a força-motriz para que o autor não caísse nas garras da morte ou da loucura.

“Fito o teto e escuto a chuva ou o som de nada e aguardo a minha morte. Estes poemas saem disso. Algo assim. Não estarei de todo sozinho se uma pessoa os entender neste mundo. As páginas são suas.”

 


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