Resenha | Escape Room (2019): e a síndrome da história vazia

Chegando atrasado com uma promessa de ter um texto habilidoso, “Escape Room” é mais uma das similaridades entre as produções de Hollywood. É como se soubesse que não há nada de novo, mas insiste em fisgar o público com uma roupagem diferente de coisas repetidas que vemos com frequência. No final, tantos enigmas mostraram que histórias sem propósito não chegam a lugar algum.

Escape Room

Título: Escape Room

Direção: Adam Robitel

Ano: 2019

Pipocas: 4/10

O roteiro, assinado por duas cabeças: (e olha que dizem que duas pensam melhor do que uma) Bragi F. Schut e Maria Melnik, trouxe, na trama, seis pessoas desconhecidas que são convidadas a participar de um experimento valendo o prêmio de 1 milhão de dólares para quem vencer. O problema foi perceber que não poderão sair facilmente e vivos de uma sala trancada repleta de surpresas perigosas. Escapem, ou morram por esse jogo.

Atentando para a descrição, é de se esperar, pelo menos, um conteúdo tenso se desdobrando em tela, mas adianto dizendo que o dito terror psicológico nem assanha. Nada de características bem elaboradas para explorar a tensão ou, minuciosamente, categorizar os fundamentos que compõem tal jogo e tornar o seu universo atraente. A coisa é tão agitada e altamente arquitetada que fica difícil considerar as situações relevantes.

Escape Room

Dando início com um flashforward (trecho de um acontecimento futuro da obra), o esquenta serviu para dar um gostinho do quão arriscado seria o desafio da Minos Escape Room, mas, antes mesmo de decolar, a trama se sabota. Do jeito mais superficial possível, rapidamente vamos conhecendo os personagens que irão adentrar para a sala complexa, com dramas pífios, o que os motivam além do dinheiro é a vontade de saírem da zona “problemática” em que se encontram individualmente.

Não podendo contar com um desenvolvimento perspicaz dos sortudos, o que temos, em resumo, são: a protagonista que carrega um ar de especial por si só; o idiota que fala coisas idiotas; o especializado em jogos que acha tudo na Minos incrível; o cara muito correto que não baixa a guarda; o atrapalhado que se arrisca e a moça que precisa aproveitar o momento para superar os traumas. Porém, pior do que esses perfis, é que nem mesm os conflitos internos, tais como a impotência para seguir em frente, o fracasso para vencer os traumas, sentimentos reprimidos, remorso e outras “camadas”, foram devidamente explorados, sem passar a sensação de superficialidade que Robitel alcançou. E mesclar flashbacks enquanto eram lapidados pelas situações das salas não se mostrou vantajoso e com a carga necessária para a ponto de aceitarmos a ideia.

O que deveria ser o ponto alto do filme, os esperados desafios enigmáticos para gerar inquietação, confusão e desestruturar os desconhecidos podem ser ressaltados como fatores positivos, conquanto abordagens como empatia e trabalho em equipe são temáticas que passam sem nenhum apelo relevante diante da narrativa presunçosa. Por falar em narrativa, é um agente que só carrega pontos fracos.

Escape Room

Quando se trata de vermos os personagens imersos a toda exposição e armadilhas, o próprio filme se testifica de dar respostas para as lógicas e dificuldades impostas, o que por si só quebra toda a essência da coisa que poderia transitar em trabalhar os limites de confiança, por exemplo. Seria uma temática já vista, mas que funcionaria dentro de uma produção engenhosa e contida, o que não é o caso.

Daí tivemos a tensão substituída pela presunção, o clímax substituído por conveniências, além de conexões mal estruturadas, como se não bastasse, o filme cai na própria isca de não saber a hora de parar e querer ser mais um pouco a base de reviravoltas. A consequência foi se esbarrar em uma conclusão desastrosa que forçava a barra cada vez mais tentando parecer espetacular, mas que só se aproximava da ideia de que deveria ter acabado a 10 minutos atrás.

Querendo ser um entretenimento para um público de poucas exigências e a fim de um passa tempo, “Escape Room” peca por ser tão vago em cativar. No entanto, a trama vazia funcionou por ser chamativa a ponto de render bons lucros e garantir uma sequência para o ano que vem. O melhor escape aqui é desviar dessa caixa de terror que depois de aberta, não cumpre o seu papel.


Gostou do texto? Gosta de escrever também? Seja um colaborador do PontoJão! Entre em contato conosco pelo Twitter, pelo grupo do Telegram ou mande um e-mail para contato@pontojao.com.br

The following two tabs change content below.

Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.