Resenha | Eleanor & Park – frustrando expectativas com classe

O ano é 1986 e uma menina nova entra no ônibus da escola sem ter onde sentar. Com certa dificuldade, ela se acomoda ao lado de um rapaz que cede uma das vagas que ocupa. Apesar de educado, o ato não é gentil. Evidentemente, esse é o início de uma história de amor, mas Raibow Rowell fez questão de fazer com que Eleanor & Park trilhasse caminhos bem menos batidos. É verdade que existem alguns clichês na história, mas nada demais. Talvez, o maior chavão do livro seja narrar o romance proibido entre dois adolescentes esquisitos — uma trope totalmente perdoável se pensarmos na existência de Romeu e Julieta.

Eleanor & Park

Em muitas de suas entrevistas, Rainbow (que é o nome de verdade da autora) afirma que todos os seus personagens têm um pouco dela mesma. No caso de Eleanor, é possível pensar no gosto musical, buscando sempre o que havia de underground como The Smiths e Joy Divission. Já Park possui o gosto por quadrinhos. Além disso, o cenário para a trama de Eleanor & Park é Omaha; uma pacata cidade de Nebraska, nos Estados Unidos. Com a soma desses fatores, vamos lendo ora na perspectiva de Eleanor, ora na de Park e deslizando pelas indas e vindas da estória.

Confesso, que talvez não tenha sido o motivo mais nobre que me fez ler Eleanor & Park — havia acabo de terminar Angústia (Graciliano Ramos) e haveria de começar Caetés (do mesmo autor) em breve; leituras pesadas por vários motivos. Por isso, queria ler algo fácil e achei que o romance juvenil seria uma boa ideia. Afinal de contas, já há algum tempo eu preciso confessar que sou aficionado por histórias com adolescentes (preferencialmente problemáticos): As Vantagens de Ser Invisível, Clube dos 5 e Lady Bird, por exemplo.

Eleanor & Park
Rainbow Rowell

A leitura foi, de fato, muito fluida, graças ao vocabulário descomplicado e à literatura totalmente focada em contar uma história (sem alegorias filosóficas e análises metalinguísticas mirabolantes acontecendo). Entretanto, a cada virar de página, expectativas negativas foram sendo desconstruídas e o livro foi se mostrando cada vez mais interessante em diversos aspectos.

A princípio, o próprio fato de se passar nos 80 sugeriria algo fora do meu agrado. Uma desculpa para entulhar referências que supostamente criam identificação, mas, na verdade, apenas aumentam períodos desnecessariamente. A surpresa positiva aqui foi o fato de as referências serem muito bem usadas, sempre pontuando diálogos naturais (dignos de quem manja de ler/escrever quadrinhos) ou enriquecendo os personagens.

Vou ter que confessar também que não tive como achar ruim as referências a Watchmen e ao fato de Park reconhecer o reinado absoluto de Alan Moore.

Eleanor & Park
Fan art (créditos na imagem)

Outra expectativa felizmente frustrada em Eleanor & Park era a impressão de que Eleanor se tornaria a manic pixie dream girl para movimentar a vida de Park, o que, de certa forma, ela faz, mas isso nada tem a ver com o fato de Eleanor gostar das mesmas bizarrices que Park e, por isso, estar destinada ser possuída por ele. O casal, inclusive, cultiva discordâncias saudáveis e bem pensadas. Enfim, como discutido no PontoCast sobre MPDG, esse tipo de personagem, normalmente, não tem plano de fundo, ou a sua origem é completamente irrelevante. Eleanor, em contrapartida, é talvez a personagem com o plano de fundo mais complexo de todos quando se trata de questões familiares abusivas bastante complicadas e também relacionadas à sua autoimagem e autoestima.

Por fim, se você estiver enjoado de imaginar personagens com a mesma aparência de sempre, Raibow Rowell nos presenteia com o romance entre uma garota ruiva e gorda (palavras da própria autora) e um rapaz meio americano (de descendência irlandesa) e meio coreano. Naturalmente, como estamos falando de adolescentes, essas questões influenciam diretamente nas suas inseguranças e rendem ótimos momentos durante a leitura. Os personagens, juntos, passam a entender melhor as suas identidades e maneira como se relacionam com o mundo.

Eleanor & Park

 

Talvez o único ponto negativo é que Rainbow Rowell tenta soar realista na forma como dois adolescentes apaixonados se relacionam e é aí que, às vezes, as coisas ficam excessivamente melosas e até bobas, mas, passando essas partes com paciência e tolerância, o retorno é uma leitura que, apesar de leve, versa sobre temas complicados como conflitos familiares e auto-aceitação — basicamente, uma terça-feira na vida de qualquer ser humano entre 15 e 17 anos de idade.

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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.