Resenha: E Tem Outra Coisa… (2009)

Já comentamos em diversos momentos aqui no PontoJão sobre como a cultura ocidental tem dificuldades em dar fim às suas histórias, e como a falta de um ponto final comumente desgasta e faz narrativas perderem o seu valor. Mas como funciona esta dinâmica quando analisamos um trabalho que, por definição, nunca teve um final?

Em 2008, o “Guia do Mochileiro das Galáxias” ganhou um sexto livro em sua série, escrito por Eoin Colfer (autor da saga “Artemis Fowl”), e continuou os relatos das jornadas de Arthur Dent e companhia, mas com sucesso limitado. Pegue sua toalha e não entre em pânico, porque “Tem Outra Coisa” ainda por acontecer.

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“O Guia do Mochileiro das Galáxias” é um marco na cultura pop neste canto mais brega do lado ocidental da galáxia. A famosa “Trilogia de Cinco” escrita por Douglas Adams – um dos autores mais criativos e procrastinadores do século passado – iniciou em 1979 com “O Guia do Mochileiro das Galáxias” e terminou em 1992 com “Praticamente Inofensiva”, ensinando a George RR Martin como demorar 20 anos para completar cinco livros. Talvez por saber a predileção de Adams por se atrasar para compromissos, quis o destino que ele falecesse de forma súbita, em um ataque cardíaco, em 2001, deixando para trás esposa, uma filha (que literalmente recebeu “Rocket” [foguete] como sobrenome), uma legião de fãs e uma estranha ausência de sua toalha favorita no armário.

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Douglas Adams.

Em 2008, Eoin Colfer – renomado e querido escritor, autor da saga “Artemis Fowl” – foi escolhido para carregar esse pesado legado. Antes mesmo de entrarmos na história, inclusive, devemos ressaltar a coragem de Colfer ao aceitar esta honra/fardo: quase 20 anos haviam se passado desde o último livro, e os leitores, tão ávidos quanto as Bestas Vorazes de Traal, ansiavam por um sexto livro, que Adams planejara mas não conseguira escrever antes de partir. Soma-se a este peso o fato de que o Guia é uma obra de comédia sci-fi com toques de drama e contemplação filosófica – não exatamente uma lista do Buzzfeed no quesito facilidade. Eoin Colfer aceitou o desafio e entregou um projeto bem feito, o que já destaca mérito por si.

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Eoin Colfer.

A história, por sua vez, infelizmente, soa repetida e com menos carisma. Enquanto os demais livros da série foram grandiloquentes, com tramas estranhas crescendo e viajando universo afora, “E Tem Outra Coisa”… Não tem muita coisa. Vou poupar-lhe dos spoilers[1], mas basta dizer que a história é linear; caso você conheça o Guia, sabe que se há um adjetivo para designar a história, ele pode ser qualquer um – de “fascinante” e “apoplético” a “supercalifragilisticexpialidocious” – exceto “linear”.

Além disso, ao se analisar a trama, vemos que o próprio número de acontecimentos é muito pequeno. Muitos diálogos vazios e – pior – sem graça tomam várias páginas, jogando seus personagens em clichês diversos. Em casos mais graves, vemos figuras como a terrestre Trillian e o ofendedor imortal Wowbagger serem descaracterizados e reduzidos a ferramentas narrativas.

Os protagonistas, que dão carisma à trama, perdem espaço para trechos que deveriam ser divertidos ou interessantes, mas não são[2]. Personagens mitológicos secundários, que na saga original são coadjuvantes, ganham um protagonismo chato, de forma que passar da metade do livro pode ser uma tarefa mais difícil do que ouvir um vogon declamar o seu primeiro poema escrito ainda na infância.

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Prostetnic Jeltz, um vogon cheio de krumpst.

Mas nem tudo são terríveis fossos de desespero. Colfer é um escritor nato e, por mais limitada que seja a história que quer contar, ele o faz com destreza, desdobrando seus pontos com cautela, sem deixar pontas soltas. Embora não demonstre ter total conhecimento da personalidade dos seres que povoam suas páginas, o autor chega ao ponto que quer obedecendo todas as diretrizes que Adams estabeleceu nos livros anteriores, e ainda fazendo diversas referências – umas sutis e outras de forma alguma – à obra como um todo.

Colfer também evita cair em armadilhas que revivals de histórias tendem a sucumbir: ele não ressuscita personagens definitivamente mortos (por mais queridos que eles sejam), não repete fórmulas de piadas que não são estritamente necessárias para a narrativa e consegue ser imprevisível na medida do possível, não repetindo finais anteriores.

No geral, “E Tem Outra Coisa” apresenta mais um valor nostálgico e rigor técnico do que realmente se coloca como um livro divertido e interessante – o que, na verdade, são os elementos indispensáveis de uma obra de ficção científica de humor. Entristece notar que não é um caso em que podemos dizer que caso os livros anteriores não existissem, este seria melhor, pelo contrário: caso as histórias de Adams não fossem tão populares, dificilmente este livro veria o público – ou alcançaria um sucesso digno de nota.

Quando voltamos à Terra e guardamos a nossa toalha, temos um meio sorriso no rosto – mais pela vontade de revisitar nossos amigos da Coração de Ouro em dias melhores do que por reencontrá-los agora. De qualquer forma, um desafio cumprido, embora não com sucesso.

*

[1] Nota do Guia: coisa que os Tenebrosos Adoradores do Caos, do planeta multiétnico Estragalives, não faz. Na verdade, a seita formada por seres terríveis de diversas origens se dedica simplesmente a viajar pela galáxia contando finais das histórias queridas e de suas vidas, dizimando populações inteiras ao arrancar-lhes suas esperanças e desejo de viver. A Secretaria para Assuntos Obscuros do gabinete da Presidência da Galáxia declarou que os Tenebrosos Adoradores do Caos são um grupo terrorista. O porta-voz da seita somente riu e respondeu “pelo menos eu não vou morrer afogado numa poça de cuspe em DeltaBelior”. O secretário renunciou em seguida sem dar maiores explicações.

[2] Nota do Guia: mal que acomete os humanoides do sexo masculino do planeta de Crisidimeidade, no canto centro-sul da galáxia. Sua predileção por gastar somas exorbitantes de créditos galácticos em itens inúteis (e normalmente vermelhos) e sua incapacidade de evitar trocadilhos envolvendo o nome de certos doces tradicionais fez com que o povo de Crisidimeidade passasse a exilar todos seus homens para um poço escuro nos pântanos do planeta. De lá, só se ouve choro, gritos de socorro e risadas esporádicas quando por acaso alguém faz um pavê em um feriado.

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