Resenha | Doutor Sono (2019): a fusão entre terror e tributo às adaptações de King

Quem precisa de sequência quando se tem um filme tão esplêndido quanto “O Iluminado” (1980)? Empenhado em dar continuidade à história de Danny Torrance, o autor Stephen King lançou em 2013 o livro de “Doutor Sono”. Ainda que o clássico cinematográfico seja odiado pelo próprio autor, o que Mike Flanagan fez nesta adaptação foi um coro em homenagem a obra de Stanley Kubrick ao mesmo tempo que fez um retrato fiel da história em que se inspirou.

Título: Doutor Sono (“Doctor Sleep”)
Direção: Mike Flanagan
Ano: 2019
Pipocas: 7,5/10

Anos após o trágico desfecho no Hotel Overlook, Danny Torrance (Roger Dale Floyd) aprendeu com seu amigo Dick Hallorann (Carl Lumbly) uma técnica para aprisionar os demônios que o assombravam. Agora adulto (Ewan McGregor), ele vive à sombra do que odiava em seu pai: enraivecido e alcóolatra. Mesmo alcançando estabilidade ao se mudar para uma nova cidade, Danny tem seus dias de paz contados ao estabelecer contato com a jovem Abra (Kyliegh Curran), uma garota que possui as mesmas habilidades que as suas, e nisso, se envolve numa trama perigosa que tanto quis evitar.

Um dos pilares que torna o filme relevante e reflexivo é quando se percebe a sua autoria. Neste caso, é completamente notável a marca de Mike Flanagan (“A Maldição da Residência Hill”) expressa em “Doutor Sono”. Um exemplo de que o diretor firmava seu estilo ao mesmo tempo que mantinha a essência de “O Iluminado”, foi não utilizar imagens do longa de Kubrick, mas recriar alguns momentos emblemáticos da película e reproduzir o que os personagens passaram.

Abra em cena do filme.

A narrativa aqui focou em três arcos que convergem: na recente fase de Danny, no desenvolvimento de Abra e, o terceiro, no sombrio grupo de caçadores de “iluminados”, o chamado Verdadeiro Nó. Mesmo que com uma duração extensa, “Doctor Sleep” embarca num desdobramento interessante de sua história. Num ritmo empolgante, a edição investiu numa familiaridade técnica como vista em “O Iluminado”, o que fez a montagem e transições das cenas se destacarem, porém, em algum ponto o uso de transições ficam em excesso, mesmo com a finalidade de passar o efeito do clássico de 1980.

Ainda que se trate de uma sequela, “Doutor Sono” está longe de ser tão aterrorizante quanto “O Iluminado” foi. Nada da mesma atmosfera desconfortável e com atuações tão intensas que arrebatavam, mas aqui se abre um desenrolar curioso sobre os personagens, onde novamente Flanagan conseguiu criar um domínio favorável ao dar profundidade às peculiaridades em que o tripé principal está conectado.

Verdadeiro Nó em cena do filme.

Mesmo acertando ao explorar as lutas pessoais dos personagens, “Doutor Sono” perde força quando começa a trazer à luz os traços de “O Iluminado”, indo muito além inspirações técnicas que sobressaíram. As intenções são compreensíveis, mas o resultado que Flanagan transpareceu foi de algo superficial, com elementos usados apenas em prol de referências. O que se determina como um desserviço uma vez que o Hotel Overlook foi também um personagem; palco de tudo que se sucedeu a família Torrance: a loucura, o desamor, a desconfiança, insegurança, inquietação, isolamento, fúria e morte, para agora ser retratado como figura a favor do susto fácil.

Se outrora o hotel foi se revelando aos poucos, desta vez o véu entre o real e irreal já se encontra caído, restando apenas recorrer ao óbvio para alcançar o ápice da trama.

“Doutor Sono” é uma daquelas sequências que sua inexistência não faria diferença. Contudo, entre os tropeços e um jogo interessante na direção de Mike Flanagan, a adaptação não é descartável, podendo ser lembrada como um desfecho satisfatório e envolvente sobre uma história poderosa.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.