Resenha: Doutor Estranho (2016) – Sem Spoilers

Você é um homem olhando o mundo através de um buraco de fechadura. Você passou toda a sua vida tentando ampliar a sua visão. E se eu te dissesse que sua realidade é somente uma de muitas?

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Título: Doutor Estranho (“Doctor Strange”)

Diretor: Scott Derrickson

Ano: 2016

Pipocas: 8,5/10

O desafio de qualquer projeto de longo prazo é continuar inovando enquanto se mantém coeso. A Marvel e seu universo cinematográfico já somam 13 filmes e muitas séries, todas em níveis variados (embora sempre positivos) de sucesso. Chegamos num ponto onde a marca Marvel Studios já simboliza qualidade, mas também ressoa a algo já visto. Como apresentar novidades sem frustrar seu público?

Esta parece ter sido a pergunta motriz por trás de “Doutor Estranho”. Com efeitos fantásticos e atores muito desenvoltos em bons personagens, a Marvel entrega mais um filme acima da média, sem desrespeitar sua própria fórmula.

“Doutor Estranho” conta a história de Stephen Strange (Benedict Cumberbatch, de todos os seus sonhos libidinosos e também de “Sherlock”), um neurocirurgião vaidoso e prepotente que, após um acidente, se vê privado do uso de suas mãos, e de toda a garantia de sucesso que provinha de sua profissão. Após gastar todo o seu dinheiro com tecnologias e tratamentos de ponta, sem sucesso, Strange se volta para o Nepal em busca da medicina do oriente, mas acaba encontrando a Anciã (Tilda Swinton, de “Precisamos Falar Sobre Kevin“) e seu fiel assistente Mordo (Chiwetel Ejiofor, de “12 Anos de Escravidão”). Embora buscasse somente sua cura, Strange acaba por descobrir que a realidade é muito além do que ele imagina, e que muitos universos novos, poderosos e ameaçadores espreitam e se abrem em sua frente. Assim, o Doutor Estranho inicia sua jornada para se tornar um mago.

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A primeira cena já dá o tom do filme e entrega seu maior destaque: a psicodelia. Enquanto os magos distorcem a realidade, prédios subitamente se tornam horizontais, paredes ondulam e pessoas mergulham em janelas como se fossem poças. Na nossa tela (e, especialmente, na tela do IMAX, altamente recomendável), uma explosão caleidoscópica de luzes, ilusões de ótica e, sinceramente, muitos momentos de “que diabos é isso?!”, no melhor dos sentidos.

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Em meio aos fantásticos efeitos visuais, temos Benedict Cumberbatch e Tilda Swinton sendo excelentes atores, como de costume. Cumberbatch entrega todo o seu peso característico para Strange, obtendo sucesso em ser diferente de Tony Stark mesmo que compartilhe alguns de seus traços egocêntricos. Swinton mais uma vez assume um papel andrógino – embora sempre se refiram a Anciã como “ela” – que calca sua personalidade fora dos padrões para gerar estranheza, enquanto se mantém carismática. Ambos roubam a cena, e mesmo outros bons atores – como a ótima Rachel McAdams e Ejiofor – acabam na penumbra daqueles citados anteriormente.

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Com essa base o filme progride, e o bagulho psicodélico tem um crescendo; enquanto tudo se distorce, cores são lançadas, formatos de cristais se desabrocham e explodem, e a história consegue tragar a audiência em um mundo tão estranho para nós quanto é para Stephen. O tom de humor que já é assinatura da Marvel, com seus alívios cômicos pontuais, mas contantes, também estão presentes, e não parecem deslocados em nenhum momento.

Entretanto, a fórmula Marvel também tem falhas recorrentes, as quais também não se ausentam de “Doutor Estranho”. Mads Mikkelsen, o “Hannibal” da saudosa e magnânima série homônima, fica enquadrado em mais um vilão sem muito conteúdo; seu caráter religioso de visão distorcida nos remete a Ronan, o Acusador (de “Guardiões da Galáxia“), enquanto seu senso de humor deslocado nos faz lembrar de Ultron, do último filme oficial dos Vingadores. Isso se torna especialmente frustrante devido à capacidade sabida do ator.

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Já um ponto que é próprio do filme é o seu clímax interrompido. Depois de uma construção e crescimento fantásticos, quando o conflito principal entra em voga, a solução criada, embora muito interessante e divertida, acaba não retribuindo a expectativa gerada, deixando a sensação de que algo faltou ali. No entanto, dentro do universo que foi apresentado, isto acaba por somente impedir o filme de ser ainda melhor do que já é.

E “Doutor Estranho” é muito bom. Enquanto muitos achavam que o filme acrescentaria a magia ao Universo Marvel, acabamos por ser surpreendidos de forma positiva ao perceber que é muito além disso: ele nos faz vislumbrar o fato não só de que a Marvel continua criativa, mas de que ainda há muito mais a explorar; estaríamos ainda na ponta do iceberg. Após 13 filmes, isso é muito louvável, além de improvável. Imagino inclusive que alguns achariam isso… Estranho?

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.