Resenha: Casas — Rubel (2018): evolução e experimentações

Quando, em 2015, descobri o disco Pearl, do Rubel, fiquei maravilhado. Era o tipo de música que eu estava procurando; não soava como nada que eu já conhecesse e tinha influências que, num primeiro momento, pareciam não conversar — quem diria, afinal, que o violão de cordas de aço do folk, com o banjo do country com as cordas de náilon do samba e bossa nova tipicamente cariocas daria certo?

Rubel Casas

 

Ainda assim, vale ressaltar, três anos se passaram de lá pra cá e, assim como muita coisa aconteceu no mundo, suponho que muita coisa tenha acontecido com Rubel e o artista chega nesse disco, Casas, ressoando aquele primeiro registo, mas bem de longe. Muitos elementos foram adicionados, muitas experimentações foram feitas e temos um disco que é, de fato, como uma casa: às vezes nostálgico, às vezes romântico, às vezes feliz, às vezes um bocadinho melancólico mas sempre um bom lugar para se estar.

Vamos para uma análise faixa a faixa de Casas do Rubel?

Rubel Casas


Intro: Casas, apesar de uma evidente evolução em relação a Pearl, não é um disco ingrato, e começa justamente com uma instrumentação do lick final de Quadro Verde, última música do disco de 2015. A introdução é curta e agradável, começa ambientando o disco muito bem, colocando o ouvinte na sintonia em que ele precisa estar.

Colégio: ainda carrega um pouco do clima do disco anterior, mas com recursos novos, a já citada atmosfera. Além disso, entre essa música e a próxima, não existe pausa. A transição é direta e, assim, se percebe que esse disco é feito pra se ouvir na íntegra!

Cachorro: é a canção que introduz dois elementos que são essenciais para o álbum inteiro — baterias sampleadas e instrumentos de sopro com muito destaque, belas instrumentações e solos memoráveis.

Pinguim: aqui, temos uma letra bem casual (a mente forte de um jedi/a cuca fresca de um pinguim/os olhos virgens de criança/e a flor de uma mulher). Novamente, há bastante destaque para os instrumentos de sopro com teclado de bossa e a já mencionada bateria eletrônica. Destaco também o mantrazinho à brasileira no final com um jogo de palavras muito simples e bonito (eu vou passar/’cê vai passar também/vamos passar porque passando vai também).

Casquinha: é um belo samba que fala sobre o ato de cantar e sobre ser cantor de uma maneira extremamente lírica e casual. Uma das coisas que mais chamam atenção em Rubel é que, em diversos momentos, existe uma simplicidade nos seus versos que transmitem muita verdade. Não se trata de alguém tentando ser muito sensível ou muito simples. Ninguém que “tente” fazer isso realmente consegue. As letras de Rubel simplesmente são o que são. Provavelmente, essa é uma das melhores letras do disco, aliás.

Batuque: como o nome diz, a faixa é um instrumental que liga Casquinha à Mantra. Fica claro que Casquinha mais Batuque encerram uma parte do álbum e abrem uma nova faceta em Mantra.

Mantra: abrindo a segunda parte do álbum, traz claras influências de rap e black music brasileira (Tim Maia e Jorge Ben, por exemplo) agregando aos itens que já estavam apresentados na primeira parte do disco. Aqui, existe ainda Rubel preparando o terreno para que no final Emicida protagonize uma excelente rima. Vale ressaltar também o sampler com frase de Tim Maia (“Pergunte a um gorila em que ano nos estamos/Nós estamos aí, cara!). Por fim, destaco a lindíssima linha de baixo ao longo de toda a música.

Passagem: outra transição, mas, dessa vez, com três depoimentos inusitados sobre os sonhos para o futuro. As falas acontecem com o instrumental de Colégio, primeira música de Casas, ao fundo.

Explodir:  assim como na dobradinha “Casquinha/Batuque”, esta faixa traz um foco grande no voz/violão e se combina com Passagem para abrir a parte final do disco. A faixa funciona como uma boa pausa e tem uma bonita melodia de violão com um solo de violinos e outros instrumentos clássicos de cordas (provavelmente, um quarteto) ao final.

Sapato: mais uma canção em que se destacam as batidas eletrônicas e os instrumentos de sopro.

Chiste: trazendo o rap novamente, dessa vez com participação de Rincón Sapiência, a faixa, como o nome sugere é muitíssimo bem humorada, numa pequena fábula sobre um diálogo entre a tristeza e a alegria. Essa parte fica por conta de Rubel,  enquanto Rincón segue fazendo suas rimas em evidente protagonismo.

Fogueira: mais uma transição instrumental, dessa vez com violinos, que faz par com a faixa seguinte.

Partilhar: “good vibes“, “esperançosa”, “otimista”, são adjetivos para esse momento do disco. Destaque instrumental para um piano em estilo bossa, com batidas eletrônicas e uma levada que, sinceramente, deve fazer qualquer ser humano ouvir a canção até o final.

Santana: a última e mais experimental do disco. Tem uma letra um pouco mais viajada e guarda para o seu final frases de guitarra memoráveis com um belíssimo solo de sopro.

Em conclusão, podemos dizer que esse é um disco muito fluido e excelente para quem está procurando por novas experiências musicais. Entretanto, talvez os momentos de transição pudessem ter sido melhor planejados e o disco tido menos músicas (duas ou três, talvez) teríamos um trabalho ainda mais conciso. Contundo, nada disso diminui o brilho de Casas, que certamente deixou quem ouviu Pearl muito feliz e fez com que nós ficássemos esperançosos para um trabalho futuro.

 


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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.