Resenha | Brinquedo Assassino (2019): um entretenimento limitado

Uma das sensações que deve brincar um pouco com o nosso orgulho é aquela de quando sabemos que não estávamos certos sobre algo. Reconhecer é fácil, assumir é a parte complicada. É o velho “queimando a língua”. Ao assistir o remake de “Brinquedo Assassino” a lembrança do julgamento prematuro deve bater a porta, pois ao menos o filme diverte e é inteligente, mesmo que com um alcance limitado.

Título: Brinquedo Assassino (“Child’s Play”)
Ano: 2019
Direção: Lars Klevberg
Pipocas: 6,5/10

Quem não quer um amigo com que possa contar a qualquer momento? O Buddi pode ser isso e muito mais: rico numa programação com tecnologia de ponta, o boneco de auto aprendizagem serve como uma ponte de auxílio para os consumidores da grande Kaslan – quer um táxi? Pede ao Buddi. Suporte com atividades domésticas? Ele também oferece! O imprevisível foi um dos produtos ser repassado com o seu código padrão totalmente modificado, o que desencadeia uma série de acontecimentos desastrosos e sangrentos.

Muito do pessimismo em volta do longa foi devido ao visual do brinquedo – que não é nada bacana mesmo -, porém, contrariando as baixas expectativas, a refilmagem consegue envolver o espectador antes que ele perceba.

É necessário ter em mente que “Brinquedo Assassino” se aproveita de ideias já trabalhadas em diferentes produções para dar um up em sua trama, mas isso não impede que um conceito seja construído validando o que quer passar. O que ajuda nessa empreitada é sem dúvidas a escolha do elenco – principalmente Aubrey Plaza (“Legion”) no papel da mãe Karen e Gabriel Bateman (“Quando as Luzes se Apagam”) como Andy.

Gabriel Bateman como Andie.

Karen trabalha numa loja de eletrônicos e se esforça para que o filho estabeleça relações com outras pessoas – por isso é fácil o garoto ser mais flexível com o detetive Mike (Brian Tyree Henry, “Viúvas”) vizinho do andar de cima do seu apartamento e que também tem dificuldades para se relacionar -, talvez por isso, o sofisticado Buddi tenha chegado num momento oportuno de difíceis relacionamentos.

Na tarefa que parecia mais difícil –  justificar as tendências psicopatas do inofensivo brinquedo – o roteiro de Tyler Burton Smith (roteirista de jogos) foi executado com agilidade por Lars Klevberg, ao espelhar como nossas inclinações e escolhas, mesmo que impulsivas, geram consequências para com as pessoas ao nosso redor.

Imagine uma criança. É comum fazerem exatamente o que falamos ser errado e perigoso – tire esse dedo da tomada! – pela simples curiosidade em explorar um local ou objeto do seu jeito. E, com essa mesma teimosia, repetem os palavrões que advertimos serem feios de se proferir. O que remete a velha lógica de “se não quer motivo para reclamar, dê o bom exemplo”. Logo, se torna injusto cobrarmos dos pequeninos coisas as quais não conversamos com eles.

Aubrey Plaza como Karen.

Voltando para o Buddi, chega a ser irônico como o filme retrata as mudanças de comportamento de um brinquedo com codificação de aprendizado, ou seja, que replica exatamente o que vê e ouve assimilando as situações da rotina como se fosse uma criança curiosa. A diferença é que Buddi tem uma devoção maior para suas ações: ser o melhor amigo de Andy.

E a abordagem de Lars ainda consegue conversar sobre como vivemos com os efeitos do que causamos em nossas atitudes – sendo positivas ou não – , seguindo com tais consequências para serem observadas na personalidade de um boneco – que alega que a violência expressada não vem dele mesmo, mas das pessoas que partilham disso –  com isso, o remake ganha ponto por superar o arco do espírito de um assassino residindo em um brinquedo, e abrindo reflexões acerca da psicologia.

Dito isto, a película diverte com o humor sutil de Aubrey e pela noção de que sabemos o que o brinquedo irá se tornar. Assim, o suspense apela propriamente com as expectativas do espectador para depois entregar justamente o que esperavam: o Buddi executando a violência em nome da amizade com Andy.

“Oi, eu sou o Buddi, o seu melhor amigo”

A furada de todo esse capricho não está nem nas conveniências e previsibilidades inseridas para “ligar as ideias” – e até reviravoltas – mas sim na narrativa apressada para encaixar todos os pontos dentro de uma fórmula. A coisa está engenhosa, com cadência e poder de envolver o público, mas trabalha com um imediatismo, passando uma impressão de que todas as ideias pro terror desembolar precisavam se suceder no tempo de noventa minutos de duração, ainda que sem aprofundá-las.

Desse jeito, vemos o desenvolvimento de cenas que seriam memoráveis dentro do longa serem ofuscadas por uma elaboração calculada e precoce. Ou seja, limitar o potencial dentro de uma fórmula acabou deixando o resultado raso. Em suma, o que temos é uma história com começo, meio e fim, mas que na loucura de um desfecho brilhante, nem ao menos pôde prolongar o seu ápice.

O jogo é interessante até a última rodada, fazendo de “Brinquedo Assassino” uma atração inocente, divertida e perigosa. 


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.