Resenha | Bird Box (2018) – você não viu esse filme chegando

Gramaticalmente, sinestesia é a combinação de palavras que remetem a sensações de sentidos diferentes. A voz macia, um doce perfume, cores quentes. Existe um pequena parcela da população que possui sinestesia, que é a habilidade de sentir o mundo de um jeito que extrapola o convencional, como sentir o cheiro das cores ou o gosto dos sons. Mas e se, ao invés de poder combinar os sentidos, você fosse obrigado e reprimir aquele que você mais utiliza? Se maior parte das pessoas entende o mundo principalmente através dos olhos, o que aconteceria se ver esse mundo fosse perigoso? “Bird Box” se coloca como um filme daqueles que não se guiam pelo que veem, nem se convencem pelo que ouvem.

Título: Bird Box

Diretora: Susanne Bier

Ano: 2018

Pipocas: 8/10

O filme da Netflix conta a história de Malorie (Sandra Bullock), uma artista que está grávida e, de repente, assim como o resto do mundo, se vê ameaçada por uma uma entidade ou tecnologia que ninguém deve ver. Não que ela seja invisível realmente, embora essa seja a alternativa estética do filme, a questão é que quem a enxerga sente um desejo irrefreável de se matar.

É inevitável falar de “Bird Box” sem lembrar de “Um Lugar Silencioso“. A diferença é que o filme de John Krasinski consegue explorar melhor na tela as dificuldades do mundo que apresenta – uma vez que lida com a falta de som -, enquanto “Bird Box” precisa de auxílios visuais para demonstrar a falta de visão. Embora esse tenha sido um desafio óbvio para a diretora Susanne Bier, as alternativas visuais para aquilo que os personagens não podem ver são bem convincentes.

bird box

Talvez, o grande problema desse filme seja ser adaptação de um livro que explora muito bem as possibilidades de uma história contada em palavras escritas. Assim como em George R. R. Martin consegue manter por muito tempo o mistério da identidade do personagem Fedor em As Crônicas de Gelo e Fogo porque não existe imagem para denunciar “quem é aquele ator”(e isso não acontece em Game of Thrones), em “Bird Box” se perde muito da tensão que a falta de imagens poderia proporcionar.

É claro que niguém pode exigir que o filme seja feito sem imagens, porque isso obviamente não faz sentido. Mas talvez seja necessária uma direção ou uma produção mais criativa para emular a sensação que a trama de de “Bird Box” pede.

Ao fim do filme, talvez fique a sensação de que falta alguma coisa, de que a história não acabou realmente, ou que não existe um final. E talvez haja uma sequência, quem sabe? Mas essa sensação vem à tona principalmente pelo velho costume de descobrir quem é o Ruivo Hering debaixo da fantasia de monstro abissal. Só que essa revelação não existe em “Bird Box” porque o objetivo da história é contar a aventura de Malorie, pura e simplesmente.

No mais, é um suspense que vale a pena por explorar um conceito diferente de monstro. As atuações, em geral, são muito boas, e as cenas de tensão são muito bem construídas pelos diálogos falados e pela expressividade dos personagens. A sensação é de que ninguém viu esse filme chegando, mas todo mundo acabou ouvindo falar dele.

 


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