Resenha | Asas (1927) – o primeiro vencedor do Oscar

Em 1927, cinema não era mais uma novidade. De fato, 32 anos antes os irmãos Lumiére já haviam dado o pontapé inicial da sétima arte. Ainda assim, esse finalzinho da década de 20 marcou a estreia do que hoje é reconhecido como o prêmio mais importante da indústria cinematográfica, o Oscar. “Asas” foi o primeiro filme vencedor do Oscar na categoria “Melhor Produção”, que anos mais tarde foi considerada equivalente a “Melhor Filme”, e de “Melhor Efeitos de Engenharia (Efeitos Especiais). O curioso é que a primeira cermônia do evento se deu em 1929, dois anos após o lançamento de “Asas”. Era também o único filme mudo a ter ganhado o Oscar, até que em 2012 “O Artista” se juntou a esse grupo seleto.

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Título: Asas (“Wings“)

Diretores: William A. Wellman e Harry d’Abbadie d’Arrast

Ano: 1927

Pipocas: 9/10

Os efeito especiais de “Asas” são bem melhores que os de muitos filmes atuais de Hollywood. Não acredita? Pense nas soluções que os estúdios de cinema encontram hoje para criar efeitos de ação. Bonecos digitais, fundos verdes, animações em 3D etc., as opções são diversas e as digitais costumam ser mais baratas, portanto, mais utilizadas. O grande problema desse benefício tecnológico é que algumas vezes o resultado não é muito convincente. Agora faça o exercício imaginativo de voltar no tempo até o ano de 1927. Não existem efeitos digitais, nem desenhos ou esculturas em 3D. Todos os efeitos especiais são truques de película, de câmera, ou práticos, por isso eram chamdos de “Efeitos de Engenharia”. Imagine-se confortávelmente sentado na sala de cinema em uma sessão de “Asas” apreciando essa intrincada história amorosa quando, de repente:

Mas nem só de técnicas de engenharia sobrevive “Asas”. A indicação ao prêmio de “Melhor Produção”certamente envolve os diversos aspectos que compõem a arte cinematográfica, e todo bom filme possui um bom roteiro.

“Asas” é um longa mudo que conta a história de dois aviadores do exército estadunidense, Jack Powell  (Charles “Buddy” Rogers) e David Armstrong (Richard Arlen), que se alistam para o combate da Primeira Guerra Mundial. O confronto da história se dá (além da guerra) quando os dois se veem apaixonados pela mesma mulher, Sylvia Lewis. Por uma pequena confusão, Jack começa a acreditar que Sylvia o ama, enquanto a preferência dela é por David. Por outro lado, Jack é o amor platônico de sua vizinha Mary Preston (Clara Bow). Os dois aviadores partem para a guerra e deixam para trás famíliares, amigos e amores (correspondidos ou não).

A narrativa dos filmes mudos necessita de um olhar mais focado. Quando não se pode expressar a mensagem por palavras faladas, os gestos, as expressões faciais, o ambiente e todo o aparato visual da obra ganham um peso maior. Uma alternativa à ausência de diálogos falados, é o texto escrito em cartazes utilizados pontualmente, que tem a função tanto de narrar a cena quanto transcrever as falas dos personagens. Isso funciona muito bem em “Asas”. Tanto nas cenas dramáticas – em especial as que belíssima Clara Bow protagoniza e se destaca -, quanto nas cenas de ação que, apesar de fugazmente interrompidas de maneira que deixaria os Abravanel orgulhosos, conseguem passar toda a tensão da atmosfera de uma batalha aérea.

asas

 

Outra característica dos filmes mudos é uma leve aceleração na passagem dos quadros. Você já se perguntou por quê todos os filmes mudos antigos são assim? Acontece que os esses filmes eram gravados em 18 quadros por segundo, e o advento do cinema com som permitiu a filmagem em 24 quadros por segundo. Dessa maneira, os projetores mais modernos rodavam os filmes em uma velocidade maior que a que eles foram filmados e isso causava o efeito acelerado que vemos até hoje nas películas antigas.

Acelerado mas não apressado, “Asas” foi majestoso ao conquistar um espaço tão importante na história do cinema. As batalhas aeronáuticas tão bem retratadas, somadas à adequação dramática das atuações fazem justiça a esse feito. O primeiro vencedor do Oscar foi também o filme que me fez refletir sobre a evolução do cinema. O quão fantástica é a obra cinematográfica que consegue transmitir um sentimento quase palpável de realidade cerca de 90 anos após ser produzida? Será que daqui a 90 anos os filmes atuais serão assim?

 


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Leandro Bezerra

Editor, redator e um serumaninho quase legal.