Resenha: Animais Fantásticos e Onde Habitam (2016) – sem spoilers

“-Então você é o cara com a maleta cheia de monstros, não é?

-As notícias viajam rápido.”

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Título: Animais Fantásticos e Onde Habitam (“Fantastic Beasts and Where to Find Them“)

Diretor: David Yates

Ano: 2016

Pipocas: 9,5/10

Não há magia maior do que brincar com a expectativa e a percepção das pessoas – o que é exatamente o que um mágico moderno, no nosso mundo trouxa, faz, por exemplo. Mas não basta fazer o objeto desaparecer: você tem que fazer isso de forma inesperada e bela, e o povo precisa bater palma por você ter enganado a eles, no melhor sentido.

Sendo assim, “Animais Fantásticos e Onde Habitam” é um filme mágico de todas as formas. Com uma história muito interessante e uma roupagem divertida, JK Rowling expande o seu universo e nos deixa pedindo por mais quando os créditos sobem.

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Newt Scamander (Eddie Redmayne, de “A Garota Dinamarquesa” e “A Teoria de Tudo“) é um jovem bruxo que se dedica em tempo integral ao estudo de criaturas mágicas, depois de ser expulso de Hogwarts seguindo um acidente com uma destas feras. Em busca de levar um de seus animais de volta ao seu habitat natural nos Estados Unidos, Newt deixa escapar várias das suas criaturas, e logo se põe a tentar recapturá-las antes que elas causem ainda mais estrago. Nesta confusão, Newt acaba envolvendo o trouxa/não-maj Jacob Kowalski (Dan Fogler, de “Escola de Espiões), um homem de bom coração que quer abrir sua padaria. Não tarda para que o Congresso Mágico dos Estados Unidos (a MACUSA) esteja em seu encalço na figura da agente Porpentina “Tina” Goldstein (Katherine Waterstone, de “Vício Inerente”), uma bruxa que caiu em desgraça no Ministério e que vê em Scamander uma chance de se redimir, mas só se complica ainda mais ao trazer sua irmã Queenie (Alison Sudol) para dentro deste caldeirão.

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Da esquerda para a direita: Tina, Queenie, Newt e Jacob.

Como se tudo isso não fosse o bastante, forças obscuras estão operando em Nova Iorque, possivelmente relacionadas a Gerardo Grindelwald, um terrível bruxo das trevas que está criando caos e buscando fazer com que o mundo dos bruxos e não-bruxos entrem em confronto.

Como se pode perceber, a história tem diversos elementos correndo em paralelo, de forma que o filme ter um ótimo ritmo, com tramas interessantes e divertidas, é uma conquista louvável. O fato de JK Rowling, autora dos livros da série Harry Potter, ser a roteirista do filme, colabora claramente para o tom (e as mudanças dele) ao longo das mais de duas horas de exibição. Por um lado, a história é muito inocente e leve, com o ar infantil e eternamente curioso de Newt Scamander e o jeito carinhoso com que trata seus animais. É dessa dinâmica, inclusive, que saem algumas das melhores cenas do filme; é palpável o quanto Scamander ama e cuida de cada uma das suas criaturas, de forma que quando ele diz isso não é para nos convencer, é somente uma constatação.

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Por outro lado, a trama envereda em tons e caminhos sombrios com seus vilões. A sociedade dos Novos Salemianos – que buscam uma nova caça às bruxas que creem viver em seu meio – é liderada por uma mulher cruel e psicótica, que tem um exército de crianças de rua ao seu dispor, às quais dá comida em troca do trabalho delas. Entre seus filhos adotivos que usa para sua causa, destaca-se Credence (Ezra Miller, “As Vantagens de Ser Invisível” e “Precisamos Falar Sobre Kevin“), um jovem traumatizado e perturbado que busca desesperadamente ser mais do que é.

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Além desta dinâmica rica que Rowling estabelece em seu roteiro, tendo parceria bem próxima com o diretor David Yates (veterano da franquia Harry Potter), a autora também volta a usar seus poderes para fazer o que faz de melhor: criar um mundo. Embora tenhamos menções a Hogwarts, e parte de sua cultura venha aos EUA com Scamander, o mundo bruxo dos Estados Unidos é algo completamente novo. Neste novo mundo, destaca-se a estrutura muito mais burocrática do que na Inglaterra, aqui consolidada na MACUSA e na figura da presidente Picquery (Carmen Ejogo, de “Selma“) e de seu braço direito, Percival Graves (Colin Farrell, “Na Mira do Chefe“). A MACUSA em si, inclusive, é fantástica mesmo em elementos visuais: o relógio que mostra o quão perto os bruxos estão de serem revelados nos dá uma ideia do risco iminente enquanto faz uma referência ao Relógio do Juízo Final, o qual apontava as chances de uma hecatombe nuclear (como representado em “Watchmen”, por exemplo).

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A presidente Picquery.

Saindo da esfera política, as questões públicas são interessantes, e também acrescentam ao mito do mundo de Rowling. Newt comenta, por exemplo, que nos EUA os bruxos mantêm distância dos não-maj, chegando ao ponto de ser proibido o casamento entre bruxos e não-bruxos. Nas ruas, a Lei Seca dos anos 20 está vigorando, então vemos a proliferação de goblins gângsteres fazendo negociatas sujas em bares ilegais – e temos até jazz mágico!

Como se tudo isso não fosse mais do que o bastante, o filme faz jus ao seu nome trazendo maravilhosas e diversas criaturas; algumas invisíveis, outras que se expandem, e outras ainda muito inteligentes e com uma tara por objetos brilhantes: todos esses animais fantásticos enchem os olhos com o seu lindo visual, e nos apaixonam com sua docilidade – e é impossível não pensar em como Hagrid seria um excelente ajudante de Scamander.

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A trilha sonora é interessante, e não fica se valendo do clássico “Hedwig’s Theme“, música-tema de Harry Potter, para se estabelecer. Os atores estão confortáveis em seus papeis, embora a protagonista Tina fique com o papel de ser a chata do grupo; somando isso ao fato de que ela passa três quartos do filme chorando ou com cara de choro, fica complicado nos aproximarmos mais da personagem. Por outro lado, a dinâmica entre Queenie e Kowalski é fantástica, e traz uma dimensão pessoal e romântica importante, visto que, em termos de relacionamento afetivo, Newt Scamander é praticamente um cacto pacato, funcionando como um clássico “homem da ciência”.

O filme, como um todo, funciona de forma estupenda tanto para fãs quanto para os neófitos da franquia: a história principal é clara e explicativa o suficiente para trazer a bordo aqueles que não conhecem nada de Harry Potter, enquanto sua subtrama, que guiará os próximos filmes da franquia, pisca constantemente para os fãs ávidos por Dumbledor e Grindelwald e mais referências à Primeira Guerra Bruxa.

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Este já é um dos melhores filmes do ano, constando também entre um dos melhores (talvez o melhor?) filme do universo Harry Potter – beneficiando-se muito do fato de não ter um livro no qual se baseia, escapando, assim, de comparações. Com um elenco bem escalado e roteiro afiado, voltar a este mundo é fantástico, mesmo que não esbarremos com nenhum dos personagens dos filmes anteriores. “Animais Fantásticos e Onde Habitam” é uma aventura formidável, apropriada para toda a família, na qual você vai querer entrar e não mais sair.

Se este for realmente o caso, me avise; conheço um cara que tem uma maleta que pode te ajudar.


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