Resenha | Adoráveis Mulheres (2020): mulher não é só amor

Já estamos mais que cientes de que Hollywood não deixa uma obra cinematográfica datar: com menos de 10 anos, volta e meia podemos ver franquias ressurgindo, filmes que eram independentes ganhando sequências, e, como no caso de Jane Eyre, somando oito adaptações ao longo do tempo (seis filmes e duas minisséries). O famoso livro de Louisa May Alcott, Mulherzinhas ou Adoráveis Mulheres, conseguiu ter mais (antes deste, foram cinco filmes, duas minisséries, e até uma animação) desde que fora publicado em 1868. Mesmo com tantas outras versões, o sexto longa-metragem trouxe mais brilho e relevância para a história.

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Título: Adoráveis Mulheres (“Little Women”)
Direção: Greta Gerwig
Ano: 2020
Pipocas: 9,0/10

Felizmente, em sua maioria, as várias adaptações passaram pela execução feminina. Dessa vez, a prestigiada diretora de “Lady Bird: É Hora de Voar” traz o seu talento sobre a história de quatro irmãs, a mais velha Meg (Emma Watson, “A Bela e a Fera“), Jo (Saoirse Ronan, “Brooklyn”), Amy (Florence Pugh, “Midsommar: O Mal Não Espera a noite“) e Beth (Eliza Scanlen), enfrentando junto com a mãe (Laura Dern, “Veludo Azul”) o período difícil nos Estados Unidos enquanto o pai foi lutar na Guerra Civil.

“Mulheres foram feitas para sofrer neste mundo”, “mulheres não aguentam carregar peso”, “há alguma mulher misturando massa para construção ou vestida como gari nas ruas”?, “mulheres tão frescas…”, “a honra da mulher é se casar para se sentir completa”. Frases do tipo são comuns de se ouvir quando a intenção é limitar a mulher na sociedade. Além do descrédito para os inúmeros méritos, a incredulidade acerca da capacidade, tendo a figura feminina como um objeto frágil, é a ferrugem que se mantém na linguagem conservadora.

Através de quatro personagens de personalidades distintas, Greta começa a envolver o público em seu filme e dialogar com suas questões. O otimismo com o qual as irmãs se apoiam unido à amizade que construíram é magnífico. Isso tudo se dá graças ao equilíbrio da diretora em nos fazer sentir o humor e o drama de maneira pontual. Aplicando uma narrativa que passeia entre sete anos anteriores na adolescência, e depois na fase adulta das garotas, a transposição das cenas não perde o ritmo nem o que quer transmitir na atuação do elenco.

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Ora com planos fechados, para apreciarmos as interpretações comoventes do leque feminino, ora com planos abertos, para nos conectarmos ao ambiente, Greta não vacila para ser objetiva e deixar a audiência aquecida e reflexiva com as nuances e tons do roteiro que também assinou.

Mesmo Meg sendo a mais velha do quarteto, Jo é a personagem que se destaca com a sua persistência e militância à medida em que beira os conflitos por se tornar quem escolhe ser todos os dias. A mulher não é só beleza, ela tem instinto, tem talento, e não cabe só amor. Jo não quer ser resumida a tais características pré-estabelecidas, atender o que esperam do feminino, mas perseguir a autenticidade de se sentir completa por trilhar o caminho que acredita. O resultado disso é um exercício desgastante por ainda se abater por ver a cumplicidade com as irmãs se enfraquecer com o desejo de Meg em se casar, e perceber que ainda cobram da mulher um papel.

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Saoirse Roman e Timothée Chalamet em cena.

Já Amy almeja ser uma grande pintora reconhecida nos quatro cantos, enquanto critica a tal função econômica em que o casamento se resume e o quanto isso diz sobre duas pessoas que se comprometem. No caso de Beth, resta a paixão de se entregar no poder de tocar piano.

Na persistência de Jo em se realizar na habilidade que tem de escrever, mesmo encontrando desencorajamento ao enviar seus rascunhos, e acreditando que a história da sua vida pode não ser valorizada, ela aposta todas as fichas.

Em todas as suas personagens, em cada frase proferidas nos diálogos, “Adoráveis Mulheres” contesta com o telespectador, e reflete o quanto as mulheres da família March estão ali deixando suas marcas e dando voz enquanto outras cedem ao esperado de ter de vestir o vestido mais belo para o baile e encontrar o seu amado e, assim, suceder-se um casamento.

A mulher não é só amor e que fatia ainda há para elas se não for para serem resgatadas no final do dia? O.que resta se não ser surpreendida por uma proposta para uma vida nova? Resta uma mãe que luta pelo lar e suas filhas na ausência do marido, uma jovem que encoraja o feminismo, jovens que realizam sonhos e vivenciam o amor do melhor jeito. Mulheres que se apoiam, persistem, enfrentam as consequências do amadurecimento e sabem aonde pertencem. Sem dúvidas, “Adoráveis Mulheres” encanta com a leveza e força do ousado relato do cotidiano de meninas independentes.


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.