Resenha | A Vida Invisível (2019): o presente e a cumplicidade feminina

A arte imita a vida ou a vida imita a arte? Tal indagação que veio de uma frase do grego Aristóteles, surge quando pensamos o quanto nossas experiências podem ser refletidas na arte. Na visão do filósofo, na afirmação “a arte imita a natureza”, o também professor defendia a imitação não como algo plástico sendo reproduzido no meio artístico, mas na beleza que há no ser humano poder expressar na arte os espelhamentos do que vivencia na natureza, ou seja, o que experimenta na vida real. O cinema se classifica como a sétima colocada dentre as manifestações artísticas que criamos, e assim como qualquer outra, ele tem a sua forma de contar histórias transitando dentre muitos gêneros. “A Vida Invisível”, coprodução entre Brasil e Alemanha se qualifica como um poderoso melodrama sobre nosso passado, presente e a figura feminina.

Título: A Vida Invisível (“The Invisible Life”)
Direção: Karim Aïnouz
Ano: 2019
Pipocas: 9/10

Nesta adaptação livre do livro “A Vida Invisível de Eurídice Gusmão”, de Martha Batalha, o filme dirigido por Karim Aïnouz (Praia do Futuro) se passa no Rio de Janeiro, na década de 40 trazendo a história de duas irmãs, Eurídice (Carol Duarte) a mais nova , e Guida (Julia Stockler) envoltas num regime patriarcal enquanto tentam se manter unidas. Com personalidades diferentes, ao seguirem por caminhos opostos, ambas descobrem como sobreviver à dura realidade mesmo longe uma da outra.

Em qualquer abertura que poderia ter, “A Vida Invisível” começa apresentando sua estética tropical, pincelada com uma fotografia de cores saturadas ao tempo em que define a linha principal que a narrativa irá traçar: a separação de uma amizade, de um laço tão efetivo que duas irmãs compartilhavam. Acima da pressão social e do forte patriarcado em que precisavam conviver, Eurídice e Guida eram duas jovens mulheres sonhadoras. A caçula mantinha o desejo de se tornar uma musicista e Guida estava apaixonada e projetando as coisas novas que poderiam surgir estando com esse cara com que se encantava.

Se tem uma coisa que o filme de Karim consegue fazer como um melodrama eficiente é cativar o espectador com a história que está contando. Rapidamente acreditamos na amizade, na naturalidade que emana no momento em que as irmãs estão ali uma pela outra. Achar belo essa energia e cumplicidade dura pouco, pois, assim como é contagiante apreciar, é desolador ver algo tão magnífico se desfazer pelo que a sociedade machista e o meio patriarcal esperam de uma mulher: ser uma boa moça, que se preserva, depois se casa, se torna mãe, dona de casa, perfeita nesse ofício, boa esposa, feita para o lar.

Carol Duarte e Julia Stockler em cena do filme.

No entanto, nem Guida nem Eurídice queriam ser limitadas à realização já determinada e esperada que se concretize na vida de toda mulher. Em dada situação, Eurídice é questionada “o que mais você quer?”, com tom de oposição e freio para o que ainda deseja alcançar. Sendo mãe, casada, tendo uma moradia e tocando lindamente piano, do que mais precisaria? Ela queria explorar mais e ir além do conseguiu por tudo o que sonhou, embora o vazio e o distanciamento da irmã mantenham uma ferida aberta. O efeito não é o mesmo se aquilo que mais almejava não pode ser dito para quem tinha uma união imensurável.

A representação feita através de Eurídice é primordial: por mais que seja de classe média, e visto a época em que vivia, a sua vida não deixava de ser sofredora, sufocante e oprimida. Mesmo longe da casa dos pais, o aprisionamento ainda a perseguia pela figura do esposo Antenor (Gregório Duvivier) partindo do patriarcado para um agente machista, firmando um casamento fadado ao desamor.

Com Guida, jogar-se para o encanto da paixão não trouxe os resultados que esperava. Grávida, tinha a esperança de ser abraçada pela família, até receber o destino cruel decretado pelo pai que não aceitava que sua filha voltara com um bebê na barriga, e que em suas palavras, o decepcionara, ficando indigna de consideração. A partir daí a narrativa pôde representar outra classe e perspectiva ainda mais agravante para uma mulher que perdeu tudo, tendo que reerguer a vida de maneira totalmente inesperada e do zero, lidando com a dificuldade da mulher em ser aceita e respeitada na indústria trabalhista, ser desmerecida por preconceito de classe, sobreviver com baixa renda e ser desvalorizada pelo seu gênero, mas que apesar disso, recebeu graça na amizade com Filomena (Bárbara Santos) com quem ganhou apoio e construiu uma nova cumplicidade.

Guida e personagens em cena do filme.

Tanto o exemplo de Eurídice quanto de Guida são atuais. Até dizem “dê tempo ao tempo” ou que o amanhã só o tempo dirá, mas se olharmos bem, a começar de dentro de nossas famílias, será perceptível o tanto que a cultura do patriarcado e machismo ainda ditam muito na sociedade. São pensamentos já internalizados e, de certa forma, somos instruídos inconsequentemente a acreditar na importância de ser como Eurídice vivia. O filme apostou em dois pontos narrativos mostrando a consequência do que era ser mulher há algumas décadas atrás e o que lhe aconteceram por persistirem em ir contra, mas se parar para pensar, é a história que nossas tias e avós viveram, e não muito diferente, nossas mães, jovens aflorando para descobertas e do que abriram mão de experimentarem para lidarem com um embaraço.

Filhos criados, exemplares, com bons empregos, constituindo uma família, mas o que a mãe, avó, tia, ou alguém que os criou tiveram que passar? Estudos pela metade, sem faculdade, a dureza para manter uma casa própria com instabilidade financeira, fazendo papel de pai e mãe. Do que a mulher abriu mão? A situação de muitas foi assim, a medida que vivem à sombra da responsabilidade, do papel que tem que cumprir, do que têm de ser, do que não podem fazer, a vida invisível do que querem ser, realizar, expressar, serem respeitadas, valorizadas.

Eurídice em cena do filme.

Com o uso de cores saturadas nos azuis, vermelho e verde, “A Vida Invisível” é um melodrama eficiente que mesmo fisgando a emoção através do reencontro de duas irmãs, há um contexto cruel que marca sua narrativa. Se unindo a Carol Duarte, Julia Stockler e Bárbara Santos, o longa ainda trouxe a participação de Fernanda Montenegro para escancarar o incrível leque feminino. A atmosfera que se instaura se torna comovente ao extremo, e Fernanda trás uma atuação sensível e arrebatadora nos poucos minutos em que prestou para sua personagem.

Apontando para a brasilidade com os cenários e para a época em que se passa, “A Vida Invisível” é um filme delicado, conseguindo o efeito de unir o público e conduzi-lo aos prantos no tocante de sua história. E ser tão poderoso assim lhe rendeu a escolha de representar o Brasil no Oscar 2020 e tentar a vaga na categoria de melhor filme internacional.


Gostou do texto? Gosta de escrever também? Seja um colaborador do PontoJão! Entre em contato conosco pelo Twitter, pelo grupo do Telegram ou mande um e-mail para contato@pontojao.com.br

The following two tabs change content below.

Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.