Resenha | A identidade e a ganância em “A Viagem de Chihiro”

Quando eu assisti “A Viagem de Chihiro” pela primeira vez, eu sai completamente extasiado da sessão. Eu não sabia dizer o porquê daquele filme ter me alegrado tanto. Eu sequer havia entendido parte das mensagens passadas, mas eu me sentia bem. Como se a magia dentro de mim e no mundo tivesse sido restaurada através daquela obra. Esse foi o meu primeiro contato com o Studio Ghibli e o início de uma grande paixão.

Hoje, quinze anos depois, o filme ainda consegue me tocar no mesmo nível todas as vezes que o assisto, mas com um pouco mais de maturidade e experiência eu percebo mensagens e nuances que meu eu jovem jamais perceberia, consequentemente minha admiração pela obra só aumenta. Se você nunca assistiu “A Viagem de Chihiro”, corrija este erro e volte aqui depois, do contrário permita-me guiá-lo por uma das inúmeras interpretações que a obra nos proporciona.

Chihiro e Haku

Em  “A Viagem de Chihiro”, a jovem Chihiro, enquanto numa viagem de mudança com seus pais, acaba acidentalmente em um plano espiritual onde há uma casa de banho para deuses repleta de espíritos e criaturas místicas. Lá, ela precisa arrumar um emprego para se manter a salvo e descobrir como restaurar a forma humana de seus pais, que viraram porcos após devorarem uma tonelada de alimentos, enquanto embarca numa experiência ímpar que nos questionará sobre identidade, consumismo e a deturpação da natureza.

A fim de conseguir o emprego na Casa de Banhos, Chihiro é obrigada a assinar um contrato com Yubaba, a feiticeira e manda-chuva do local. Neste momento descobrimos que esta senhora rouba os nomes de seus funcionários para que eles esqueçam quem são e assim controlá-los, o que é exatamente o que ela faz com a protagonista ao arrancar alguns kanjis de sua assinatura. O nome de Chihiro é escrito com os ideogramas “千” e “尋” , pronunciados “chi” e “hiro” respectivamente,  porém o kanji “千” isolado tem sua leitura alterada para “sen”, o novo nome de Chihiro, mas não são só ideogramas que estão sendo roubados. “Sen” literalmente significa “1000”, ou seja, Chihiro é roubada de sua identidade para se tornar só mais um número sob a asa da feiticeira. Entretanto ao ser lembrada de seu nome real por Haku, Chihiro se torna diferente de todos os servos ali, se afastando assim da ganância e consumismo que acometem a quase todos os seres que lá estão.

Sem Face

A ganância junto ao consumismo aqui estão intrinsecamente atrelados a falta de identidade e individualidade. Os pais de Chihiro se transformam em porcos após o consumo desenfreado de comida, os indistinguíveis funcionários são todos enlouquecidos por ouro e os clientes de maior destaque, Sem Face e o Deus Fedorento, são mais complexos e consequentemente mais interessantes.

O “Sem Face”, talvez a criatura mais famosa de “A Viagem de Chihiro”, é uma criatura bondosa e generosa que só quer agradar a protagonista de início, mas ao adentrar na Casa de Banho, ele é completamente corrompido pelo ambiente e consome tudo que vê pela frente, incluindo funcionários do local para usar suas vozes. Quanto mais ele consome, mais monstruoso ele se torna, mais vozes de outros ele usa e menos de si ele se torna, perdendo sua identidade. Sem Face só retorna ao seu status original após sair daquele ambiente e colocar para fora todos os que devorou e voltar a se comunicar com sua própria voz.

a viagem de chihiro
Chihiro, Yubaba e Lin

O Deus Fedorento é outra entidade acometida pelo mesmo mal, mas desta vez as circunstâncias da sua deturpação fogem de seu controle. A criatura na verdade é um Deus do Rio, que após ter suas águas poluídas pelo lixo humano, deixa de ser o límpido Deus que era. Basicamente um rio cristalino que foi inutilizado pelo excesso gerado pelo consumo e falta de tato dos humanos, uma realidade que infelizmente não é tão distante de nenhum de nós. Chihiro, no entanto, percebe que há algo de errado e, não sozinha, o liberta de todas as impurezas. A única garota que lembra quem realmente é e não está cega pelo ouro prometido pelos clientes é a responsável por todas as mudanças de corações no filme.

Ao final da animação, quando a jovem precisa descobrir quais dos porcos a sua frente são seus pais, ela responde “meus pais não estão aqui”. Os porcos que seus pais se tornaram realmente não estavam naquele chiqueiro, mas mesmo que estivessem a resposta dela estaria certa, não só por eles não serem mais humanos, mas porque os dois sequer lembravam de que um dia já foram. Aqueles porcos não são mais seus pais, fisica e mentalmente. Eles não possuem mais suas identidades. São só mais dois porcos no chiqueiro.

Ao salvar seus pais, Chihiro parte daquele local com lições aprendidas, ensinadas e agora mais madura do que quando se perdeu. Obviamente esta é uma das inúmeras interpretações possíveis pro filme, como a influência ocidental pós-guerra, conflito de gerações, o papel da mulher na sociedade, etc. Não há uma absoluta. Pessoas diferentes encontram mensagens diferentes e pode ser que daqui cinco anos eu ache novas abordagens. Esta é parte da magia de “A Viagem de Chihiro”. Um filme abrangente que fala com todos. Aberto a inúmeros pontos de vista, todos corretos para cada um de nós.

 


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