Resenha | A Tartaruga Vermelha (2017) – falando da vida sem falar

Esta resenha pode conter spoilers de A Tartaruga Vermelha, mas leia mesmo assim.

Lançado em 2016 em Cannes e chegando no Brasil em 2017, A Tartaruga Vermelha é uma daquelas animações que você não pode deixar rolando de fundo enquanto estiver fazendo outra coisa. É necessário estar completamente entregue à sua história, seja por causa da beleza de cada uma de suas cenas,  como a trilha sonora potencializa as emoções de cada momento e, principalmente, por essa ser uma história muda e, como tal, tem sua narrativa completamente sustentada pelas imagens.

A tartaruga vermelha

Título: A Tartaruga Vermelha (“La Tortue Rouge“)

Diretor: Michaël Dudok de Wit

Ano: 2016

Pipocas: 10/10

Tudo se incia quando um náufrago vai parar numa ilha deserta. Após averiguar o local, ele dá partida em um plano para montar uma jangada, tomar o oceano e tentar voltar para o lugar de onde veio — que é completamente desconhecido. Nesse processo, quando ele, depois de dias de trabalho, consegue  pôr finalmente sua embarcação improvisada na água, um animal gigantesco, a tartaruga vermelha, destrói a barcaça e o obriga a nadar de volta para a praia. Imbuído de raiva e notando que o bicho repousava na areia, ele mata a tartaruga cruelmente, mas, com o tempo, se arrepende. Surpreendentemente, o filme dá um salto da narrativa realista para a fantástica e a tartaruga vermelha se transforma numa mulher.

A Tartaruga Vermelha

O náufrago e sua nova companheira ilhada começam então um relacionamento e o restante do roteiro mostra a vida deles em sua totalidade até a velhice e morte do náufrago e a mulher voltar a sua forma original, retornando para o oceano.

A animação é um produto franco-belga-japonês. O argumento foi escrito por  Michaël Dudok de Wit e Pascale Ferran e produção ficou a cargo da parceira entre os estúdios Wild Bush, Why Not Productions e Studio Ghibli. Essa conjunto deixou a história muito interessante, porque é possível perceber características interessantes das vertentes franco-belgas e das japonesas. Saltam aos olhos ainda a beleza dos desenhos e a sensibilidade que o filme sem diálogos é capaz de produzir, misturando imagens maravilhosas com uma belíssima trilha sonora. É notável como o dia a dia aparentemente monótono de uma população ilhada pode ser tão marcante.

A Tartaruga Vermelha

Mas, para além disso, o filme funciona como uma grande alegoria em forma de fábula, pois existe, de certa forma, um ensinamento por trás do que acontece na história. É possível, é claro, aproveitar o filme somente pela narrativa visual fantástica. Entretanto, a nível simbólico, a significância de cada momento aumenta.

Assim, podemos entender a ilha de A Tartaruga Vermelha como a vida. O náufrago entra nela provavelmente sem saber exatamente como (ele chega desacordado à orla). Como não existe comunicação, não sabemos também de onde ele veio, permanecendo, assim, o mistério de sua origem. Após conhecer o local onde estava, o náufrago imagina que seu destino está fora da ilha. Assim, ele tenta se lançar em alto mar com destino incerto. Entretanto, ele é impedido de fazê-lo pela tartaruga gigante, que se transforma numa companheira, dando à vida ali um novo significado. Num recorte de tempo, vemos um náufrago totalmente adaptado e também pai de um pequeno menino.

A Tartaruga Vermelha

Num dado momento, pai e mãe são questionados pelo filho sobre suas origens. Cada um conta sua história com honestidade e, desde então, o filho parece atormentado por escolher ficar perto dos pais e ajudá-los em suas tarefas diárias, ou partir e dar à sua vida novos rumos e significados (o que ele acaba por fazer). Ao fim da história, já na velhice, o náufrago original morre e com sua morte, parece que todas as coisas retornam ao estado inicial. Ele vai para um lugar desconhecido de todos, a mulher volta a ser tartaruga e se arrasta par ao mar e o fruto desse relacionamento não está mais ali, como não estivera no princípio. E caso retorne um dia, encontrará a ilha tão deserta quanto sempre esteve. A ilha teve sua habitação, mas retorna ao estado original exatamente da mesma forma como começou. Tal qual a vida e o tempo que, apesar de idas e vindas, permanecem impassíveis.

A Tartaruga Vermelha

Em suma, A Tartaruga Vermelha é uma animação para ser vista por todas as pessoas e interpretada de tantas formas quanto forem possíveis, já que o silêncio e passar das história nos dá um norte imaginativo, mas viajando sem mapas ou instrumentos de navegação, podemos ir a qualquer lugar, alcançando paragens surpreendentes.


Curtiu o texto? Fale conosco pessoalmente com um comentário ou nos nossos grupos do Facebook e do Telegram.

The following two tabs change content below.
Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.