Resenha: A Qualquer Custo (2017): a vingança necessária

“-Como diabos você conseguiu ficar um ano fora da prisão?

-Foi difícil.”

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Título: A Qualquer Custo (Hell or High Water)

Diretor: David Mackenzie

Ano: 2017

Pipocas: 8/10

Justiça e vingança são dois conceitos diversos que, embora muitas vezes confundidos, têm em sua principal diferença a motivação. A vingança tem como objetivo trazer recompensa emocional à vítima, enquanto a justiça estabelece e segue parâmetros que nem sempre satisfazem aqueles que foram prejudicados. “A Qualquer Custo”, no entanto, questiona: e quando o sistema falha em ser justo e as vítimas são obrigadas elas mesmas a equilibrarem a balança? Como resistir à tentação de ir longe demais?

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O filme trata sobre a linha tênue entre a justiça e vingança ao contar a história de Toby, um pai divorciado, e Tanner Howard, um ex-presidiário. Juntos, os irmãos iniciam uma série de assaltos contra o banco que faliu a família e afundou em dívidas. Com os assaltos, os irmãos juntarão o dinheiro necessário para pagar a dívida e recuperar o rancho que lhes pertence. No entanto, o plano bem elaborado por Toby nem sempre consegue se manter nos trilhos, graças à natureza impulsiva e violenta de Tanner.

E neste ponto, a justiça e a vingança são personificadas em cada irmão. Toby busca trabalhar por fora do sistema, seguindo um código de conduta próprio, e tem um objetivo claro: conseguir exatamente o dinheiro necessário para pagar a dívida da família. Mesmo durante a busca do alcance do seu propósito, Toby evita efeitos colaterais, mantendo seu motivo fixo em sua mente.

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Toby e Tanner.

Já Tanner, não. Tanner é uma força impulsiva e destrutiva, raramente pensando antes de agir, sendo motivado somente pela ação em si, sob a desculpa de ajudar Toby. Em um dado momento do filme, Toby pergunta ao irmão porque ele havia aceitado participar daqueles assaltos: “porque você pediu, irmãozinho”, responde Tanner. Ainda assim, o que ele faz não parece corroborar o que foi dito, visto que sua recusa em pensar antes de disparar sua arma por muitas vezes mais atrapalha Toby do que ajuda.

A ambientação corrobora muito para que a história funcione; a distante semelhança com “Onde os Fracos Não Têm Vez” é uma ressonância dos cactos e poeiras do território dos caubois. Acostumados a não terem polícia a zelar por eles em tempos passados, o povo texano ainda confia mais em seu rifle do que em um distintivo, e nada cria um ambiente mais propício para uma história de vingança do que a fantasia de se defender com suas próprias mãos.

Além da sequidão, outro elemento presente no deserto de “A Qualquer Custo”, do diretor David Mackenzie, é a falência; a estrada é pontuada de placas oferecendo empréstimos bancários, muitos descontos em empreendimento imobiliários e diversas lojas falidas. São muitas as vezes que a câmera foca nesses elementos, e logo percebemos que não há interesse em sutileza – o que dialoga com o resto da linguagem árida do filme. Isso realça o conflito inerente ao objetivo dos irmãos Howard: se o estado protege os bancos vilões e abandona o seu povo à miséria, seria injusto ir ao combate para recuperar o que lhes é devido?

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“3 incursões no Iraque, mas não há resgate financeiro [como dado aos bancos] para nós.”

Se o deserto prepara o terreno para o roteiro, as atuações de Chris Pine e Ben Foster o entregam de maneira muito satisfatória. Pine entrega um Toby sempre contido, surpreendentemente calculista, enquanto a violência esfuziante do Tanner de Foster parece estar sempre ali, pronta para entrar em erupção a qualquer momento. O roteiro é enxuto, com diálogos precisos e sem firulas – mais texano, impossível -, e a figura de Jeff Bridges acrescenta em peso ao filme; no papel do xerife-prestes-a-se-aposentar-em-uma-última-missão, Bridges consegue transformar um clichê ambulante em um papel interessante, e a simplicidade de seu personagem é convincente.

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Texas Rangers Hamilton (Jeff Bridges) e Parker (Gil Birmingham).

Com uma trama sem rodeios, “A Qualquer Custo” nos chama a atenção sobre a tênue linha entre justiça e vingança na terra dos caubois. Sem poupar sangue quando é necessário, e sem dramatização, o diretor David Mackenzie entrega um longa tão seco e cruel quanto à crise econômica que devastou os Estados Unidos, e tão simples quanto o impulso humano de fazer seus ideais valerem a qualquer preço.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.