Resenha | A Maldição da Residência Hill (2018) – a casa não é nova, mas a estadia é agradável

Sabe aquela trama bem comum em Hollywood, da família que muda de região para um novo lar com as melhores intenções mas termina esbarrando com uma casa do capiroto? Produções do tipo, com certeza, estamos cansados de assistir, já que não largam o osso e a história é igual as outras. Bem, a recente série da Netflix, “A Maldição da Residência Hill”, pega emprestado um pouco dessa trama comum, mirando em algo original, mas acertando num alvo semelhante aos outros. A casa aqui não é nova, mas dá para aproveitar.

Título: A Maldição da Residência Hill (“The Haunting of House Hill”)

Criação: Mike Flanagan

Ano: 2018

Estrelas: 3/5

Há pequenos spoilers, mas entre mesmo assim, a casa é sua.

Como outras adaptações literárias, “A Maldição da Residência Hill” não é primeira tentativa e veio depois dos filmes “Desafio do Além”, de 1963 e “A Casa Amaldiçoada”, de 1999, ambos baseados na obra “A Assombração da Casa da Colina”. Diferente de seguir o conteúdo do livro de Shirley Jackson, Mike Flanagan se inspirou na obra e criou uma nova estrutura para série. A trama é centrada no casal Hugh e Olivia Crain (Henry Thomas, “Psicose 4” e Carla Gugino, “O Espaço Entre Nós”), que se mudam provisoriamente com os seus cinco filhos para a grande mansão Hill a fim de reformarem e venderem. No entanto, como nem tudo são flores (como não poderia deixar de ser… ou não ser), a curta estadia na casa se tornou uma onda de estranhezas e experiências perturbadoras para a família.

Verdade seja dita, “A Maldição da Residência Hill” é uma série difícil de se encarar. Se considerar o piloto, é fácil o telespectador não sentir vontade em continuar assistindo, porque além no ritmo arrastado, o desenrolar do episódio é chato e incapaz de prender atenção ou gerar interesse pelo que está acontecendo, até o seu encerramento. O gancho final, sem dúvidas, é o que fisga o público para voltar para mais um capítulo.

Uma casa linda assim quem não iria quer morar?

O formato dos episódios conduzidos em dupla narrativa (o passado e o presente de cada personagem) é mais um aspecto da falta de novidade aqui, mas também é o que salva a série em diversos momentos, ponderando que o tempo presente é menos atraente que o passado, assim como os personagens e seus intérpretes adultos – como é o caso de Theo (Kate Siegal) e Steve (Michiel Huisman), a dupla de atuações pobres que não convencem. O que resta aqui é dar uma chance para o que o gênero da série tem a cumprir: o terror psicológico.

Resumindo, quando os episódios estão maçantes de assistir, “A Maldição da Residência Hill” tem seus méritos. A lógica por trás da dupla narrativa é entendermos o que levou os irmãos Nell (revelando o talento de Victoria Predetti), Theodora (a mencionada Kate Siegal, do excelente suspense “Hush – A Morte Ouve”), Steve (Michiel Huisman, “Game of Thrones”), Luke (Oliver Jackson-Cohen, “O Corvo”) e Shirley (Elizabeth Reaser, da Saga Crepúsculo) a se tornarem pessoas adultas e abaladas tentando sobreviver com os traumas.

Steve, é aquele que se nega a acreditar que os eventos sobrenaturais ocorridos na infância, quando moraram na residência Hill, foram reais; Shirley a todo tempo carrega uma ira consigo, e deixa tal sentimento consumi-la; Theo pega sua vivência e aplica ajudando outras pessoas; Luke por não conseguir lidar com o que passou, caiu no vício com as drogas; e Nell é aquela que decidiu não ignorar o passado e sim entender, mantendo na mente as suas experiências, por mais que isso a desestabilize. O que os une além da casa, é o evento trágico que marcou suas vidas para sempre.

 

É através dos personagens e suas problemáticas que o show começa a destacar a sua temática com louvor, acertando com eficiência combinando drama e terror. Cada episódio trabalha um membro da família Crain, alternando o tempo da narrativa. Dentro desse contexto, a série estabelece uma belíssima edição técnica e fotográfica: enquanto na infância (ressalva para o carismático elenco infantil) dos Crain o tom das cores é natural, na fase adulta as cores se voltam amarelo e azul, adotando uma atmosfera sombria.

Sendo o drama um dos pontos fortes da série, o terror conduzido com poucos jumpscares é mais uma característica que acrescenta muito à obra. Fazendo bem mais do que apelar para o horror (como os demais filmes de casas mal-assombradas fazem), Mike Flanagan optou por desenvolver o terror de maneira sutil, de forma que, quanto mais o espectador perceber, mais assustadora a coisa fica. Vale ressaltar que nem sempre o terror é garantido apenas por aparições demoníacas, mas também pela forma como cada história é conduzida e executada.

A Maldição da Residência Hill

“A Maldição da Residência Hill” não trabalha com uma história incomum, no mínimo a sacada da narrativa foi só uma ponte para equilibrar sua trama para que não se perdesse na mesmice. Apesar das falhas, a série é dona de um terror e drama proveitosos que, no geral, se revela como uma empreitada triste e aterradora sobre os traumas que nos moldam e nos acompanham. Como é o seu quarto vermelho?

 


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.