Resenha: 3% – 1ª Temporada

“Você é o criador de seu próprio mérito”

Essa pequena frase, dita por um dos principais personagens da série, consegue resumir perfeitamente toda a trajetória de 3%. Alguns anos após seus apenas 3 episódios fazerem sucesso na internet, a Netflix anunciou que continuaria com o projeto, tornando 3% a primeira série original Brasileira do catálogo da empresa. E a partir daí a ela já tinha várias barreiras a ultrapassar, como ser a primeira produção de um país bastante consumidor de produtos de outros países, conseguir manter a qualidade dos episódios da internet e além disso ser a primeira série distópica brasileira… E após o fim dos episódios a sensação que resta é que o objetivo talvez tenha sido atingido. Talvez.

3%

Com uma premissa nada original, bastante parecida com Jogos Vorazes e Divergente,  de mostrar um processo de seleção de pessoas do “Lado de cá” (Parte pobre do local) para o Maralto, um lugar onde há a promessa de uma vida melhor, 3% entrega em sua primeira temporada de 8 episódios uma boa história, mas que poderia ter sido melhor executada. Não há grandes erros, mas também não há nenhum grande acerto, tudo transita entre o bom e o mediano, o que acaba sendo o principal vilão da produção.

Os personagens são bem escritos, todos tem suas nuances e um background bem construído durante os episódios, mas alguns atores não conseguem trabalhar bem isso. Apesar de em nenhum momento a atuação de alguém chegar a incomodar, é nítido que em algumas cenas alguns deles não conseguem entregar tudo que o personagem precisa, talvez pela grande maioria do elenco ser composto de atores jovens – muitos em seu primeiro grande trabalho. E muito disso também pode ser devido ao texto, cheio de falas “rígidas”, pouco reais e que acabavam engessando os atores menos experientes.

Todo o Processo é bem construído, as provas são bastante interessantes e talvez sejam um dos trunfos da série. O roteiro, assinado por Pedro Aguilera (também roteirista do projeto original), consegue trabalhar bem as individualidades de cada personagem enquanto faz toda a trama andar. As mais interessantes são a de Joana (Vaneza Oliveira), uma das candidatas do processo, e de Ezekiel (João Miguel), atual chefe do processo. Que, aliás, tem um episódio focado em seu passado que é um dos melhores da série, e que apresenta Julia (Mel Fronckowiak), uma das personagens mais interessantes e uma das melhores atuações de toda a série – mesmo aparecendo em apenas um episódio.

A ambientação desse Brasil pós apocalíptico é bem feita, e lembra bastante algumas partes mais pobres do país atualmente. O mais perto que somos apresentados ao Maralto é o lugar onde os participantes ficam durante o Processo, a produção consegue se aproveitar bem de espelhos, telas e projeções para representar a tecnologia do local.
3%

A crítica social é muito bem construída, o Processo leva o público a pensar em até que ponto a meritocracia é realmente justa. Vale mesmo a pena “peneirar” as pessoas ditas mais preparadas e subjugar todo o resto? Indagações desse tipo estão presentes a todo o momento, e o desenvolvimento da Causa, um grupo de pessoas que são contra o processo, ajuda ainda mais nisso.

Já renovada para sua segunda temporada, 3% apresenta uma série de erros mas, ainda assim, consegue segurar a audiência e deixa a boa sensação de que pode evoluir muito mais. Resta para nós apoiar o projeto, o Brasil precisa de mais produções desse tipo, e ser a primeira produção brasileira de um serviço como esse já é algo espetacular, um mérito que com certeza deve ser levado em consideração.

The following two tabs change content below.

Lucas Bulhões

Estudante de programação que odeia programar e que se arrisca a escrever nas horas vagas. Sonha em conhecer todo mundo sem ao menos conhecer a si mesmo. Libriano não praticante.