Resenha | 13 Reasons Why – 3ª Temporada (2019): se esforça, mas se mantém controversa (com spoilers)

Em plena terceira temporada, “13 Reasons Why” carrega um fato: nasceu para ser polêmica. No primeiro ano, a série ganhou uma repercussão negativa por trazer uma cena gráfica de suicídio – editada recentemente. A história poderia terminar muito bem ali, mas os realizadores decidiram ir além do conteúdo literário e seguir com mais treze episódios. Não muito diferente disso, a mais nova fase do programa chegou com mais controvérsias que provam o quanto o show ainda deixa a desejar.

Título: Os 13 Porquês (“13 Reasons Why”) 
Ano: 2017-
Criação: Bryan Yorkey
Estrelas: 1,5/5

“Narrativa” ou “fórmula”, qual é a pior?

Mesmo se despedindo do arco sobre Hannah Baker, a segunda temporada encerrou de maneira agonizante. Só o gancho acerca de Tyler (Devin Druid) poderia ser o suficiente para engrenar a trama aqui, contudo os roteiristas escolheram redirecionar o foco para a morte de Bryce Walker (Justin Prentice). Para ser mais específico, a Netflix fez questão de destacar na divulgação a pergunta de quem seria o autor do crime.

Disposta a não cometer os erros das temporadas anteriores, a equipe criativa inseriu mais uma linha de tempo para os episódios, ou seja, em vez de duas (passado e presente), havia uma terceira narrada por Ani (Graci Saif) a qual a retratava em cenas futuras. A edição fazendo a interposição das cenas foi um adendo interessante, mas a nova personagem além de ser guia para o telespectador no desenrolar da história (tarefa chata, por sinal) foi escrita com uma porrada de traços genéricos de enredos adolescentes.

Depois de acompanhar a leva dos episódios, fica notório o quanto Ani foi desnecessária e que foi uma pena Sheri (Ajiona Alexus) não poder fazer parte desta temporada. E a justificativa é que sua aparição é fundamental para o grande mistério da vez: “quem matou Bryce Walker”? Não bastando ter esse acréscimo de chatice, “13 Reasons Why” se vestiu como qualquer outra série teen com suspense envolvendo segredos. “Scream” muito brincou sobre a identidade de Ghostface, “Riverdale” com o assassino de Jason Blossom (Trevor Stines) e “Pretty Little Liars” com a verdadeira face de “A”. Agora, foi a vez de juntar Clay (Dylan Minnette) e Ani apontando o dedo entre um e outro em cada capítulo tentando adivinhar a autoria da morte de Bryce. Até quando essa mesmice?

Ani, o que viestes fazer aqui?

Mesmo trabalhando com Clay, Ani se tornou uma figura complicada visto suas intenções com os demais personagens que conhecemos e também por saber de detalhes impressionantes para alguém novo na história. Essa questão foi tão embaraçosa que os “fãs” se acharam no direito de assediar a atriz nas redes sociais pelo papel fictício que interpretou, o que a fez excluir seu perfis.

E o que o público teve para continuar assistindo foi o que os personagens fizeram na noite de beisebol na escola, a qual ficou marcada por alvoroço e pela morte de Bryce. O que cada um fizera naquele dia? Quem está mentindo? Qual blá, blá, blá? Ter essa estrutura calculada e genérico parece não ter sido pouco pois a extensa duração de quase uma hora por episódio se repetiu, característica essa que torna a série enfadonha.

O mistério

Para cada temporada uma questão volta a aparecer: os diretores e roteiristas estão prestando mesmo atenção? Após todo sofrimento que Hannah expôs através de 13 fitas, a segunda temporada tratou de revelar “um lado não conhecido” da sua história, o que gerou controvérsias por invalidar a importância e veracidade da personagem. 

Se queriam tirar o rótulo de vilão que sai impune de Bryce e tratá-lo de um jeito diferente, não era preciso matá-lo, e mais problemático que isso foi refazer o que aconteceu com Hannah: trazer o outro lado da moeda. Ao menos a moça trouxe relatos muito sinceros em suas gravações, e infelizmente foi posta em dúvida, porém Bryce nunca nem sequer teve um momento de redenção apresentado: tido como o opositor da história em 26 episódios da série, era cada vez mais assustador ver as suas tendências cruéis.

Novamente, o programa depende das impressões que irá levantar com a sua abordagem. Só por que morreu agora querem humanizá-lo? Apesar da fácil escolha para tentar empurrar essa perspectiva na penúltima temporada, o que quiseram passar é que Bryce morreu como uma pessoa buscando mudança. Ora o vimos sendo a sua versão repulsiva, ora a que queria melhorar, e a que se mantinha desejando o caos. Nem fazendo mistério a série foi capaz de se desviar, com mais inconsistências e controvérsias.

Nem tudo estava perdido

Para quem nem estava mais com paciência para a série, a morte de Bryce deve ter sido um motivo de retorno com a temporada, enquanto para outros, o motivo principal era saber o que se sucederia após Clay impedir que Tyler executasse um massacre no baile da escola.

Exceto pelos clichês e conveniências, ver o apoio emocional que Clay deu para Tyler foi de grande valia e uma das melhores coisas da trama vigente. Após ser vítima de violência sexual, o jovem fotógrafo se viu totalmente desamparado e a única alternativa que viu foi retaliar contra o maior número de alunos que conseguisse na escola. Diferente do plot envolvendo Hannah, os roteiristas conseguiram desenvolver uma solução satisfatória e não problemática para o trauma que o jovem estava enfrentando.

Sem romantização, podemos ver Tyler se recuperar gradualmente até finalmente poder falar sobre tudo o que passou. E o maior ensejo disso foi a atuação de Devin Druid expondo os traços de alguém abalado e que ao mesmo tempo tentava se reerguer; bastando apenas alguns olhares era possível perceber a dor e o medo que o personagem carregava. Realmente, foi um trabalho valioso acompanhar a sua regeneração a ponto de voltar a ter um sorriso no rosto e poder dizer o quanto acha maravilhoso ter amigos.

Seguindo essa mesma vibe, a amizade e união entre Clay e Justin (Bradon Flynn) foi também emocionante. Ainda que Clay estivesse dividido na teia de investigação, o que ambos faziam um pelo outro com total sinceridade mostrou que de fato o programa estava levando a sério a questão de apoio mútuo. E para fechar o terceiro acerto, felizmente, conseguiram colocar Jessica (Alisha Boe) a dar voz para a luta contra comportamentos abusivos, assédio e cultura do estupro. Na temporada anterior a personagem passou por maus bocados para ser ouvida e ter justiça acerca do estupro que sofreu cometido por Bryce, e ele saindo ileso.

Já que o intuito da série segue em apontar o ambiente escolar como cenário de ações como bullying, violência, assédio, pela primeira vez foi mostrado o lado bom da instituição ao darem espaço para o grupo de ativistas liderado por Jessica, ao qual visava expor o comportamento tóxicos dos atletas – que como bem sabemos, foram autores de terríveis crimes. No meio disso, puderam promover suporte e discurso com menos ódio em prol das vítimas retratadas.

O final : estragando a tentativa de melhorar com a trama

Depois de doze episódios, chegou a hora da revelação de quem matou Bryce e, avaliando o último capítulo, chega a ser assustador e frustrante como escolheram terminar a temporada da pior maneira possível. Um total deslize perante o que foi trabalhado anteriormente. 

De tantos tópicos, um dos mais evidentes é que “13 Reasons Why” quer passar ao telespectador  a certeza de poder se identificar com o show e de que está sendo ouvido, além de demonstrar bons exemplos de apoio entre amizades e o efeito benéfico através de pessoas compreensivas e que se doam. Primeiro Hannah e Jessica, vítimas de violência sexual, no segundo ano da série o Tyler também se tornou uma, e depois de dar seguimento com personagens em busca de superação e evolução, o quão hipócrita foi descerem o nível e decidirem acobertar o autor de um homicídio e colocarem a culpa em outra pessoa?

A mensagem é “que se ferre a quem culpamos contanto que fiquemos bem e nossa aliança permaneça”? Até um tempinho atrás não queriam um senso de justiça eficaz para as impunidades vividas pelo sistema? Nesse meio, a decisão mais triste foi aparentemente terem encerrado a participação de Monty na série, logo agora que poderiam dar mais abrangência à revelação de sua sexualidade assim como o que aconteceria após ser detido pelo crime cometido contra Tyler.

Além disso, parece que a produção não abre mão de romantizar em algum momento pois até o Bryce teve direito a gravar uma fita com os seus dizeres de arrependimento. A diferença é que ele não pensava em morrer, mas na conclusão fica claro o desenho elaborado para entregar as últimas palavras do personagem. 

Até aqui, é inegável como a trama atual foi elaborada de forma desleixada e terminada de um jeito problemático. Mesmo trazendo a atenção para o os estupros em banheiros masculinos nas escolas americanas, como também o conflito sobre massacres escolares e portes de armas, a série consegue se desmerecer facilmente. O que é perigoso por tratar de assuntos delicados, principalmente para jovens, mas ao mesmo tempo dividir o argumento com abordagens de mistério como entretenimento. 

Se os realizadores e a própria Netflix quer realmente que a mensagem de “Os 13 Porquês” consiga ter impactos alarmantes e positivos com o público, será necessário reaver o motivo com o qual viu inspiração e importância para ter iniciado o programa. O ideal é conversar sobre o suicídio, bullying, crimes nas escolas ou deixar dúvidas por conta da romantização?

Com a quarta e última temporada confirmada para o ano que vem, “13 Reason Why” encerrou seu terceiro ano da maneira mais duvidosa, colocando a credibilidade dos personagens em risco. O que nos resta é o adeus, com a probabilidade de termos mais longos treze episódios com duas ou três narrativas, numa trama fatigante e trivialidades adolescentes. 

Se os realizadores e a própria Netflix querem realmente que a mensagem de “Os 13 Porquês” consiga gerar alguma reflexão com o público, será necessário reaver a forma com que tal propósito havia sido trabalhado. O ideal é conversar sobre o suicídio, bullying, crimes nas escolas ou deixar dúvidas por conta da romantização?

Com a quarta e última temporada confirmada para o ano que vem, “13 Reason Why” encerrou seu terceiro ano da maneira mais duvidosa, colocando a credibilidade dos personagens em risco. O que nos resta é o adeus, com a probabilidade de termos mais treze longos episódios com duas ou três narrativas, numa trama fatigante e trivialidades adolescentes. 

The following two tabs change content below.

Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.