Referência: Os cinco filmes de Premonição (2000 – 2011)

“Dizemos que a hora da morte não pode ser prevista. Mas, quando dizemos isso, imaginamos que essa hora fica em um obscuro e distante futuro. Nunca nos ocorre que possa ter alguma conexão com o dia que já começou. Ou que a morte possa chegar na mesma tarde, que parece tão segura e que tem cada hora determinada com antecedência.”

De fato, a morte não pode ser prevista; talvez seja breve, de maneira trágica, ou por alguma doença, mas nunca sabemos o momento em que ela pode acontecer. É comum ouvirmos falar sobre um acontecimento que levou uma pessoa à morte e, quando se trata de alguém muito próximo ou um ente querido, paramos para pensar como e o porquê ocorreu, ou até mesmo, pela forma que aconteceu.

A frase no início do texto é citada num discurso em um memorial por um dos personagens do primeiro filme e pertence ao escritor Marcel Proust, e o curioso é como a mesma se encaixa com a mitologia da franquia Premonição.

premonição

Imagine uma pessoa em um ônibus ou um avião dizer que previu um acidente acontecer e que várias pessoas morreriam, desde os seus amigos até os desconhecidos. No entanto, os que acreditarem em sua palavra e decidirem abandonar o veículo recebem algo como uma segunda chance, até saberem que fazem parte de um esquema da própria morte, e, que um a um, também morreriam, dada a ordem em que se encontravam ou morriam na premonição – e o pior, que não poderiam escapar dos seus destinos.

E se a mesma pessoa que previu esse terrível acontecimento, também tivesse o poder de saber quem seria a próxima vítima no esquema da morte e a possível maneira que morreria? Claro que qualquer pessoa que recebesse esse mesmo poder tentaria de todas as formas evitar e impedir que isso se concretizasse na vida de alguém. E nessa premissa, o filme Premonição deu início a uma das melhores franquias de terror.

Premonição (2000)

O que era para ser um episódio da série Arquivo X titulado “Flight 180” – número frequente nas sequências, em homenagem ao título -, se tornou roteiro para o longa. Há quem diga que nada supera o original – o que é verdade. Premonição é um dos melhores filmes da franquia, por conta do seu tom sombrio e como as informações são dadas para o telespectador.

Na trama, quarenta alunos e quatro professores, por conta de uma atividade escolar, embarcam em um voo para Paris. Porém, um dos passageiros e também aluno, Alex Browning (Devon Sawa), acaba chamando a atenção de todos ao afirmar que o avião em que estavam iria explodir. Por conta do tumulto causado, sete pessoas ficam de fora do voo, aguardando o próximo, para que assim seguissem com a viagem. Porém, em poucos minutos, o avião que havia decolado realmente explode.

premonição

O ponto alto do filme está em como a narrativa é conduzida: enquanto vemos cada sobrevivente tendo uma morte dolorosa, recebemos a explicação de como funciona todo o contexto em que fomos apresentados à medida em que próprio Alex vai também ligando os fatos. E isso aproxima o telespectador ao personagem, pela questão de acompanharmos o choque do jovem ter tido uma premonição, como também o fardo que carrega sem nem mesmo ter culpa.

O mais cruel e irônico é saber quem será a próxima vítima, mas não saber como vai acontecer. As pistas estão ali, mas também é um mistério para quem assiste, o que surpreende ainda mais na trama. O filme compensa por não perder tempo e abraça com eficiência a ideia de que, quem estava no voo, deveria morrer e não escapar. Mesmo que pareça previsível, as sequências das mortes se mostram importantes por não acontecerem como pensamos. E, nos pequenos detalhes, seja ao som da música “Rocky Mountain High”, de John Denver, ou em outros sinais, a tensão só aumenta.

No geral, o longa não perde o tom e o suspense que sustenta desde os primeiros minutos, e se firma com excelente desfecho para quem curte o gênero.

Premonição 2 (2003) é uma sequência interessante, mas que deixa a desejar

São muitas as sequências que não conseguem repetir o mesmo feito que o original; às vezes, ainda, um terceiro filme acaba melhor e maior que os anteriores… Ainda assim, normalmente, boa parte das franquias de terror nem deveriam ter sido começadas. No caso de Premonição 2, o filme se sustenta por boa parte ao longo dos seus 90 minutos de duração, mas que acaba sendo corrido até o seu ato final.

Dessa vez, um ano depois do desastre do avião, a premonição ocorre numa rodovia através de Kimberly Corman (A.J. Cook), acompanhada por seus três amigos no carro no qual seguiriam em uma viagem. Confiante que a sua visão era verdadeira e que um caminhão que carregava troncos causaria um acidente, a moça decide impedir que outros seis veículos prosseguissem.

Diferente do primeiro filme, Premonição 2 decide mudar o esquema da morte que conhecemos sobre como seria a sequência das vítimas, e sim, executar de forma contrária. O que veio para ser um ponto positivo, pois melhor do que fazer exatamente a mesma coisa, é superar, tentando métodos que funcionem. Outro aspecto que se destaca, é como a mudança traz informações que ampliam a sua mitologia.

premonição

Ainda que a trama se amarre tão bem aos eventos do primeiro filme sem soar incoerente, ele erra por repetir as premonições em outros momentos. Parecia inovador e interessante para própria sequência, onde a intenção seria ter uma sacada que garantisse reviravoltas, mas acabou se resultando numa fórmula desgastante e confusa.

Diante de alguns erros, ainda assim, Premonição 2 vale por suas cenas de mortes se manterem imprevisíveis e chocantes; mesmo que abruptas, são também certeiras. Talvez por isso o filme seja relevante: por fazer um bom uso das mudanças que foram introduzidas e entregar um desfecho tão inesperado e animador.

Premonição 3 (2006) consegue superar o seu antecessor e ser mais assustador

Parece que trazer James Wong mais uma vez à direção trouxe Premonição 3 de volta às origens e o torna tão bom e semelhante ao primeiro filme. O tom sombrio foi recuperado, como também as músicas – desta vez, “Love Rollercoaster”, de The Ohio Players – com letras que condizem ironicamente com a trama do filme.

Já tivemos um avião, uma rodovia, e, agora, um parque de diversão é o cenário da vez, trazendo Wendy Christensen (Mary Elizabeth Winstead), que se encontra com seu namorado e mais dois amigos num parque de diversão, a fim de comemorar a formatura do ensino médio que está por vir. Mas ocorre um colapso com a moça ao ter a convicção de que os trilhos que conduziriam as poltronas na montanha-russa estariam partidos e causariam um terrível acidente.

A escolha interpretada pela atriz Mary Elizabeth foi interessante para o longa, por trazer o protagonismo como o de Alex em Premonição, algo que foi pouco abordado no segundo filme. A trama aqui não se preocupa em conectar cada ocorrido com os seus antecessores, ainda que os mencione.

premonição

Aos poucos, desde o segundo filme, foi possível notar Premonição acrescentando algumas mortes mais bizarras, por serem um tanto que exageradas – a fim de abordar que a morte pode acontecer em qualquer lugar e de todas as formas -, porém aqui há a indicação em mostrar algo mais pé no chão. Isso foi positivo porque as cenas são realmente assustadoras e obscuras, o que provam o quanto a direção de James Wong sustenta um tom necessário.

No entanto, ainda que tenha mais acertos do que erros, o final do terceiro filme da franquia é indiferente e levanta a dúvida de que seria usado como gancho para uma continuação, ou se encerraria ali. Mas acredito que Premonição 3 soube fazer tudo, menos ter um desfecho satisfatório – a cena cortada seria uma opção melhor e evitaria teorias. No geral, o seu resultado se mostra melhor que o antecessor, e traz um fôlego que garante o potencial de outrora.

Premonição 4 (2009) não é tão bom quantos os outros

David R. Ellis volta a direção, assim como no segundo longa, mas fez de Premonição 4 o elo mais fraco visto como outros os demais foram bem mais trabalhados.

Nick (Bobby Campo), sua namorada, Lori (Shantel VanSanten), e o casal meia boca, Hunt (Nick Zano) e Janet (Haley Webb), acompanham uma corrida de carros, até que se cria uma confusão porque Nick afirma que um dos pilotos da corrida iria causar um acidente no autódromo e que muitos morreriam.

Desde o começo, tivemos histórias interessantes, ainda que pequenas, mas que funcionavam para os seus personagens. O que falta aqui não é carisma, mas um elenco mais envolvente – mesmo com a exceção nas atuações de Bobby, Shantel e George (Mykelti Williamson), que deixam a desejar.

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São poucas as cenas que se façam relevantes para o filme. O que era um problema em Premonição 2, ao repetir várias vezes vislumbres sobre a morte de algum sobrevivente através da protagonista, se faz presente mais uma vez aqui, o que não ajuda em nada a construir um suspense competente.

E sequências de mortes mirabolantes e extremamente exageradas – só por conta do 3D –  e abaixo da criatividade que era destaque nos três primeiros filmes, acaba sendo também um ponto negativo para o filme. Até mesmo a cena de abertura, com a premonição, é comprometida por essa proposta, sendo curta e com menos impacto do que deveria causar.

Premonição 4 perde muito da identidade da franquia e fica longe de alcançar o potencial que agradou ao público com seu conteúdo mais assustador.

Premonição 5 (2011): onde tudo começa

Há rumores de que um sexto filme possa acontecer e, se assim não for, é certo afirmar que Premonição 5 encerrou a franquia com maestria e de forma empolgante. Foi genial da parte dos roteiristas fazer com o que o mesmo funcionasse como um prelúdio do primeiro capítulo, acrescentando explicações que talvez resolva algumas dúvidas dos seus antecessores.

Alguns funcionários de uma fábrica seguem viagem em um ônibus para aproveitarem um retiro. No entanto, ocorre que Sam (Nicholas D’Agosto) tem a premonição de que a ponte que atravessariam estava prestes a ruir.

Ainda que o cargo de direção não tenha sido de James Wong, muitos aspectos remetem ao primeiro filme, principalmente por se passar semanas antes do desastre do avião. Voltamos para o clima do desconhecido, em que as mortes ocorrem sem nenhuma razão aparente e, felizmente, não tão mirabolantes quanto no quarto longa. Somente com a presença do misterioso William Bludworth (Tony Todd) – que veio para atiçar ainda mais a curiosidade, e torna difícil não criar expectativas -, que alguma maneira tem a compreensão sobre o que acontece.

premonição

Se em Premonição 4 não tivemos protagonistas ao menos interessantes, a falha aqui é corrigida e não acompanhamos apenas as já sequências de mortes conhecidas, mas personagens que são relevantes para a trama.

Olhando para o final do quinto filme, temos um desfecho para não colocar defeito, onde tudo se encaixa perfeitamente. O casal Sam e Molly por pouco sobreviveram – não irei entrar em detalhes -, mas logo as suas vidas têm o fim ao se encontrarem no mesmo avião em que aconteceu a visão de Alex, em Premonição.

É gratificante como Premonição 5 não vale a pena apenas por entregar um enredo voltado para o primeiro filme, mas também por ousar com alternativas que não foram exploradas, mas ressaltam uma ironia para a mitologia e, de certa forma, inova – além de recuperar o tom da franquia.

No geral, diante de cinco filmes, a franquia se sustenta entre mais acertos do que erros, e a experiência de assistir é ainda melhor para quem já conhece, porque quanto mais atentar aos detalhes, mais as teorias crescem.

*

Um pensamento

No final de Premonição 3 ocorre que, mais uma vez, a sobrevivente Wendy Christensen (Mary Elizabeth Winstead), acompanhada de dois amigos – que não têm os nomes citados – recebe a visão de outro acidente, diferente do parque de diversões, acontecendo em um trem. Coincidentemente, a sua irmã Julie Christensen (Amanda Crew) e seu amigo Kevin Fischer (Ryan Merriman) estavam presentes, sendo que também escaparam. Estava claro que a morte estaria ali terminando o seu serviço, tendo que eles não deveriam sobreviver.

E sempre sobrevivem duas ou três pessoas, mas não temos a certeza de que ficaram vivos mais tarde – como no caso de Premonição 2 e 3, por exemplo. Mas há rumores de que Kimberly e Thomas, do segundo filme, iriam morrer no final do terceiro filme, juntamente com o acidente no trem – porém, morreram de forma diferente, dadas as informações do DVD Interativo de Premonição 3.

premonição

Sei que na premonição de Wendy, ela só previu a própria morte, a de Julie e Kevin, mas não aborda se seria possível ela ver o mesmo para algum outro desconhecido que estivesse no trem, lembrando que tinha outras duas pessoas com ela, mas que não têm suas mortes especificadas.

A questão é: já que em Premonição 5 Sam e Molly de todo jeito morreram, e se conectaram com desastre do avião, nada impede de que o final de Premonição 3 sirva com o desfecho para outras vítimas sobreviventes de outro acidente, mas que acabaram morrendo no trem – como o que aconteceria com Kimberly e Thomas. Já que o segundo filme se passa um ano depois do primeiro, e o terceiro, seis anos depois, uma outra história seria inserida entre esse intervalo de tempo.

Pensando nisso, meio que já utilizaram a ideia colocando a trama Premonição 5 antes do primeiro filme. Outra coisa que chama atenção é quando William Bludworth (Tony Todd) diz – no último longa –  que já viu isso antes – uns felizardos sobreviverem a um acidente, e depois morrerem – acontecer antes. Um sexto filme seria focado numa história bem antes de tudo, mas voltada a explicar como isso começou – sendo que os eventos conectam os personagens, como a trama de Premonição 2 – ou até mesmo no passado de William?

Concordam ou discordam desse meu pensamento louco?

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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.