Referência: Polêmicas e Legado do Cavaleiro das Trevas

O Batman se aposentou. Passou 10 anos na escuridão e, graças a uma onda de criminalidade sem precedentes em Gotham, ele resolveu voltar, mais obscuro do que nunca. O Cavaleiro das Trevas, tradução econômica para o título original em inglês  Dark Knight Returns, foi escrito e ilustrado por Frank Miller em 1986 e ainda teve na sua equipe criativa Klaus Janson como arte-finalista e Lynn Varley (ex-esposa de Miller) nas cores. A premissa básica dessa incontestavelmente aclamada série do morcego é o que já foi dito acima, porém, o mais importante é notar os seus desdobramentos dentro da história e para o mundo das HQs em geral.

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Influência

Saindo no mesmo ano que Watchmen (Alan Moore), e na mesma década em que Maus (Art Spiegelman), V de Vingança (Alan Moore novamente), o revival de Homem-Animal ( Grant Morrisson) e, certamente, outras grandes histórias, O Cavaleiro das Trevas, assim como todos citados anteriormente, se destaca por trazer para os quadrinhos temas mais sóbrios (às vezes sombrios) e nebulosos, que estão muito longe de ser infantis. O Batman interpretado por Adam West (vulgo Feira da Fruta) não tem vez aqui. Bruce Wayne agora é pessimista, violento, atormentado, e, em momentos, até delirante e psicótico. Todas essas características tornaram-se quase que inerentes ao clássico personagem da DC, e até quem só o conhece os desenhos animados e filmes pode dizer o mesmo.

Dessa forma, entendeu-se que os quadrinhos eram um excelente meio para discutir questões como o vigilantismo e direitos humanos; “Até que ponto um batedor de carteira merece ser surrado por alguém com uma armadura e aparato de guerra?” ou “isso acontece em Gotham por que a polícia é ineficiente, negligente e corrupta?”; as tendências e tensões políticas que estão por traz das questões de segurança (nacional ou urbana), “uma onda de vigilantes poderia criar um sentimento anárquico de desconfiança no governo e nas instituições estatais?” e, por fim, o relacionamento intrínseco entre heróis e vilões, visto que o retorno do Batman faz com que praticamente todos os outros grandes maníacos voltem à ação, explicitando uma espécie de vínculo psicológico ou complementariedade entre eles.

E a cereja no bolo do poder da imagem do justiceiro das trevas é trazer, de um lar com pais liberais e negligentes, um novo Robin – na verdade nova. Carrie Kelley, uma menina de 13 anos de idade que se alia ao Batman para combater o crime usando uma fantasia que poderia muito bem se passar por um alvo saltitante. Aqui, o peso de termos uma criança lutando nas ruas ao lado de um senhor que a chama, quase que delirantemente, pelo nome do antigo parceiro e a admiração cega dela por ele é levado a níveis inimagináveis. Coisa que pode ser ainda mais problematizada se pesarmos no vínculo afetivo entre Batman e Robin que invadiu o imaginário popular. Como veremos a seguir, na continuação de O Cavaleiro das Trevas, Carrie, assume o manto da Mulher Gato (Selina Kyle), com quem Batman teve, assumidamente um romance. Numa leitura rápida dos fatos esse tipo de coisa pode passar batido, mas, de perto, não deixa de ser perturbador.

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Batman e Robin (Carrie Kelley)

O Cavaleiro das Trevas 2 – A História

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Novamente, num título demasiadamente econômico na tradução para o Brasil, Dark Knight Strikes Again, lançada em 2001, dá continuidade a história iniciada em 1986. E, nesse caso, temos outra unanimidade. Se, por um lado, O Cavaleiro das Trevas pode ser chamado de clássico, definitivo e extremamente influente para o personagem e para o mundo dos quadrinhos; O Cavaleiro das Trevas 2 é facilmente atrelado aos adjetivos “incompreensível”, “sofrível” e “esquecível”. O roteiro conta a história três anos depois do fim de Dark Knight Returns, Bruce e Carrie Kelley (agora Cat Girl) comandam um exército chamado Batboys. O mundo, que anteriormente já caminhava para a distopia, agora é completamente distópico, com um governo disfarçadamente ditatorial que aliou alguns super-heróis à guarda nacional dos EUA, enquanto aprisionou os outros. A história segue numa profusão de personagens, tramas e subtramas que, definitivamente, parecem não terem sido feitas feitas para caber apenas nas três edições lançadas.

Num resumo bastante rápido, Lex Luthor, juntamente com Brainiac, deram um jeito de suplantar o presidente dos EUA por um holograma, que, na verdade, era Luthor. Assim, o vilão tinha domínio da nação mais poderosa do mundo, do Super-Homem além de outros heróis. O plano de Bruce Wayne é, então, libertar os super-seres que estão em cativeiro, e acabar com a farsa de Luthor. Assim sendo, vemos uma reiteração dos temas abordados anteriormente, mas de maneira mais desengonçada.

Os maiores problemas de Cavaleiro das Trevas 2, e o que faz com que ele fique muito aquém da qualidade do primeiro, são, basicamente, as duas formas de narrativa que se juntam numa história em quadrinhos: a narrativa visual e a narrativa escrita.

As Ilustrações

Anatomias que não condizem com a realidade. Quadros. Muitos Quadros! E uma forma de narrar visualmente sem rodeios. Essas são características de Frank Miller enquanto desenhista. Quem já leu outros trabalhos dele, como Sin City, por exemplo, sabe que ele nunca foi um Alex Ross na hora de representar as figuras humanas. O problema é que, em DK2, Frank Miller deixou seu estilo de desenho caricato, e invadiu anatomias que não podem ter outra característica que não esdrúxulas. Isso abre a discussão eterna de “os desenhos têm realmente que imitar a realidade?” ou, no caso específico de Frank Miller, “será que ele quis fazer desse jeito ou não conseguiu fazer direito?” pois, é conhecido de todos que o desenhista/escritor tem, há tempos, uma doença misteriosa que havia se agravado mais nessa época.

Somado a isso, vemos que o arte-finalista, Klaus Janson, não fez parte dessa equipe e há rumores de que o casamento com Lynn já não andava muito bem das pernas, culminando na separação em 2005. Enfim, pode ser que tudo isso tenha contribuído para dar no que deu. Ou, o que pode ser realmente preocupante, Miller pode ter escrito e desenhado a história que quis – quem conhece o autor não descartaria essa hipótese.

Conclusão

Certamente, para quem quer se aprofundar de vez no mundo dos quadrinhos, e talvez até para aqueles que querem apenas conhecer melhor o morcego, O Cavaleiro das Trevas é leitura obrigatória. E apesar de o Cavaleiro das Trevas 2 ser bastante inferior em qualidade, seu plot não foi ignorado na excelente continuação Cavaleiro das Trevas III: A Raça Superior, que já teve seus primeiros exemplares lançados no Brasil e está sendo continuado nos EUA e, logo mais, vai figurar aqui no PontoJão.

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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.