Referência: Mad Max – Sucesso Furiosamente Improvável

Foi em 1979 que a foi dada a largada para o início de mais uma franquia de sucesso da história do cinema: Mad Max! Gravado na austrália, o primeiro filme concebido e dirigido da carreira de George Miller surpreende por várias razões e por ser um inegável e improvável caso de sucesso. Talvez o primeiro motivo de surpresa para o fenômeno que Mad Max é hoje seja o orçamento de seu primeiro filme, algo em torno de 350 000 dólares americanos, levantados por Miller enquanto trabalhava como assistente de médicos em hospitais. Além disso, há muitas outras situações e curiosidades inusitadas sobre esse filme que falaremos mais a frente.

Mad Max (1979) 1

O INÍCIO DA CORRIDA – MAD MAX (1979)

A história do primeiro filme está totalmente centrada em Max Rockatansky (Mel Gibson), integrante de uma força policial que mais apanha do que bate. Entretanto, Max e seu melhor amigo Goose (Steve Bisley) se destacam por serem mais fortes dentro da equipe de policiais que integram e também melhores pilotos. A velocidade na estrada é extremamente valorizada ao longo de todo o longa, é possível ver isso através de duas características; 1) a maioria das cenas acontece “sobre rodas” e 2) a maioria das cenas acontece em estradas.

A problemática principal do primeiro filme, e que é o fio condutor para as histórias dos outros, é desencadeada por Toecutter (Hugh Keays-Byrne) e a gangue de motoqueiros violentos e inescrupulosos que ele lidera. O grupo de insanos sobre duas rodas sai pelas estradas saqueando lojas, estuprando mulheres, enfim, praticando algum tipo de atrocidade deliberadamente. É quando essa gangue cruza o caminho de Max que as coisas ficam realmente loucas (e Max mais louco que todos os loucos juntos).

As críticas a esse filme são discordantes. Enquanto uns acham que o filme seja indubitavelmente um clássico, acima do bem e do mal, outros dizem ser um filme excessivamente longo e sem ação suficiente. De fato, as cenas de ação não são superabundantes, mas, é importante lembrar que esse é um filme de ação lançado em 1979. Não havia para o gênero ação a mesma significação de hoje. Além disso, quando vemos o resultado final e pensamos no orçamento, temos de admitir, eles fizeram muito além do que poderiam. A produção teve de contratar motoqueiros de verdade (não dublês) porque era mais barato, além de pintarem e repintarem vários carros durante as filmagens, porque não havia carros suficientes (alguns carros chegaram a entrar em cena com a tinta fresca), alguns carros pertenciam à equipe do filme. Ou seja, sem saber, George Miller começou uma franquia que já está no quarto filme (com um quinto confirmado), venhamos e convenhamos que Mad Max é a operação de um milagre do cinema australiano.

A CAÇADA CONTINUA – MAD MAX (Mad Max – The Road Warrior – 1981)

O cenário pós-apocalíptico já é bem mais evidente aqui. As paisagens são completamente desertificadas, as roupas que os personagens usam são totalmente improvisadas e tem-se uma clara visão de que há extrema escassez de absolutamente tudo aquilo que é necessidade básica. O plot principal desse filme gira em torno de Max ajudar toda uma aldeia a fugir com seu bem mais precioso, o petróleo, das garras de uma gangue nômade violenta, que ameaçam a paz daquele agrupamento de pessoas.

O segundo filme da série Mad Max foi o mais aclamado dos três filmes antigos. Isso se deve a duas coisas: primeiramente à história. Mad Max – The Road Warrior é bem mais fluido. Num segundo aspecto para justificar sua aclamação, temos o orçamento que o filme recebeu, pois foi possibilitado que as cenas de ação fossem muito melhores, em comparação com o primeiro filme. Além disso, o personagem Max já está aqui completamente desenvolvido, não sendo necessário que sua história seja recontada, apenas relembrada rapidamente através de uma narração curta e interessante.

ALÉM DA CÚPULA DO TROVÃO – MAD MAX (Mad Max – Beyond the Thunderdome – 1985)

Infelizmente para a franquia e para George Miller, esse filme divide muito pouco as opiniões. A grande maioria das pessoas acha ele ruim mesmo. A realidade apresentada em A Cúpula  do trovão é de um mundo tão deteriorado quanto o de A Caçada Continua, entretanto, é importante ressaltar que há aqui alguma espécie de desenvolvimento. As pessoas se organizam de forma caótica numa espécie de cidade, não mais uma aldeia como no filme anterior. Além disso, eles já começam a criar meios de supri alguns elementos faltosos através do desenvolvimento de novas tecnologias, como a obtenção de energia elétrica através do gás metano retirado de fezes suínas.

A história aqui gira em torno da chegada de Max (já com status de guerreiro lendário desde o filme anterior) à cidade de Bartertown governada por Aunty Entity (Tina Turner). Ela pede a Max que a ajude a se consolidar como governante absoluta dali, lutando contra Blaster/Master, que nada mais é do que um gigante (Paul Larson) comando por um anão (Angelo Rossitto). Eles têm grande poder sobre Bartertown porque são eles quem gerenciam a produção de energia. Ao lutar contra eles, Max se recusa a dar o golpe final e é condenado ao “Gulag”, que não tem nada a ver com os campos de trabalho forçado da URSS Stalinista. A sentença do protagonista é vagar pelo deserto.

Max é encontrado por uma tribo de crianças perdidas que creem que ele é o Messias que os levará para um lugar melhor, e baseado nesse plot que acontece a marca registrada da franquia Mad Max: a fuga em linha reta que culmina no final dos filmes. A discrepância entre os primeiros dois filmes e esse último não está apenas na heterogeneidade do roteiro, mas também no fato de Thunderdome ser um filme muitíssimo menos violento que os outros, o que, além de não atender à expectativa que o nome Mad Max traz consigo, deixou a história meio “pastelônica”, por assim dizer.

CONSIDERAÇÕES FINAIS – O APOCALIPSE, A LENDA, A CRONOLOGIA, ESTRADA DA FÚRIA

Algumas coisas não têm mesmo explicação nessa vida, uma delas é “como Mad Max I, um filme com um orçamento tão baixo para filmes de ação, tornou-se o que é hoje?”. Mas é inegável que George Miller, conscientemente ou não, tem alguns trunfos com a história. O maior e mais abrangente desses trunfos é a indefinição existente no roteiro. A realidade é pós-apocalíptica, mas “quando foi esse apocalipse? E por que ele aconteceu?”. E aí há muito espaço para interpretar. Podemos pensar, por exemplo, que George Miller faz, de certar forma, uma crítica ao contexto em que o filme foi lançado em 1979, a guerra a fria e a corrida armamentista nuclear.

Além disso, depois do primeiro filme, fica evidente que Max deixa de ser um personagem comum, e passa a ser uma lenda naquele ambiente transtornado. Outro fato interessante é que existe uma falta de marcação temporal para a história, isso pode significar que a cronologia de lançamento dos filmes não seria correspondente à cronologia dos acontecimentos em si; o carro que Max usa em Estrada da Fúria (2015) foi destruído em A Caçada Continua (1981), por exemplo. Isso pode representar que os filmes não devam ser realmente correspondentes, o que dá margem para várias teorias interessantíssimas incluindo os easters eggs presentes nos filmes.

Chega aqui o fim do texto e se você quer mais material sobre Mad Max não deixe de ouvir o episódio especial Mad Max do nosso podcast e nem deixe de ler a resenha do Pedro Parker sobre Mad Max – Estrada da Fúria.   

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