Classicologia #03 – Ladrões de bicicleta (1948) e o Neorrealismo Italiano

“Não quero me aborrecer, o homem já tem muitos problemas.”

1355888837

Logo após o fim da Segunda Guerra Mundial a Itália passou por um movimento cultural conhecido como Neorrealismo, que durou, aproximadamente, de 1945 a 1950. O Neorrealismo se apresentou nas mais variadas formas artísticas, mas foi no cinema que encontrou meio de se propagar. Muitos críticos não o consideram o como um movimento ou uma escola dentro do cinema pois as obras realizadas nesse período possuem algumas divergências entre si, não havendo unidade entre elas.

Um filme que faz parte desse “movimento” é Ladrões de Bicicleta, dirigido por Vittorio de Sica e lançado em 1948, uma adaptação homônima da novela de Luigi Bartolini. Vencedor de um Oscar honorário em 1950, esse é considerado um dos filmes mais representativos do Neorrealismo italiano.

Ladrões de bicicleta é uma história sobre…

ladores-de-bicicleta-foto-1

Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani) consegue um emprego como colador de cartazes, mas a exigência principal é que ele tenha uma bicicleta. Ele diz que possui, mas na realidade a sua estava quebrada, como havia muita concorrência ele penhora suas roupas de cama para comprar uma nova bicicleta e poder trabalhar.

Após comprá-la, ele começa o trabalho e já no seu primeiro dia a bicicleta é roubada. Apesar da tentativa em alcançar o ladrão, Antonio não consegue chegar até ele. Junto com seu filho Bruno (Enzo Staiola), Antonio começa uma busca pela sua bicicleta perdida, mas não tem nenhum resultado. No final do filme, movido pelo desespero, agonia, Antonio rouba uma bicicleta e tenta fugir, não sendo feliz nesse ato. O dono da bicicleta consegue o pegar, mas quando resolve levar Antonio a polícia, vê Bruno chorando e se comove com a cena, permitindo que Antonio vá embora com o filho.

Crítica social

ladri-di-biciclette-cesta-o-non-cesta
Antonio Ricci (Lamberto Maggiorani) tentando conseguir um emprego.

A principal característica do Neorrealismo italiano, e uma das únicas, que segundo críticos, põe semelhança entre os filmes produzidos nessa época, é a exposição da realidade pós 2ª Guerra Mundial na Itália. Nesse período, o país estava sofrendo as consequências da administração de Mussolini, que durante seu regime fascista destituiu os direitos dos trabalhadores. As conseqüências disso eram empregos subumanos e escassos, como em Ladrões de bicicleta, onde um trabalho simples como colador de cartazes era altamente disputado.

Boicote

ladri1
Antonio colando um cartaz do filme Gilda.

No período entre 1948 e 1953 houve o ápice da invasão hollywoodiana na Itália. O governo italiano tentava censurar ao máximo as produções neorrealistas de seu país, muitos roteiros foram arquivados, filmes tiveram sequências cortadas, outros sequer saíram da Itália.

Vittorio de Sica foi um dos mais censurados, alguns de seus filmes tiveram cópias extraviadas, como por exemplo, Vítimas da Tormenta (1946); Os anos fáceis (1953) e Ladrão de bicicletas (1948) foram negados para exportação. Essa era uma forma que o governo centrista tinha para não ter a imagem de seu país e de seu governo malfadada pelo mundo.

Ladrões de bicicleta faz, sutilmente, uma crítica à esse boicote dos filmes italianos e a supervalorização do cinema hollywoodiano quando Antonio, no primeiro dia de trabalho, cola um cartaz do filme Gilda (1946), com a musa da época, Rita Hayworth. Gilda é um filme pertencente a categoria noir, muito popular nos anos 40 e que, como não tinham apelo social, eram mais fáceis de serem “digeridos” pelo grande publico. Foi com esse tipo de filme que o governo italiano tentou sufocar as obras neorrealistas.

Características neorrealistas

cenasii
Atores amadores e cenas cruas.

Apesar do Neorrealismo não ser considerado um movimento único, muitos filmes da época possuem algumas características em comum. Os filmes neorrealistas, em geral, tinham uma tendência a apropriação de técnicas utilizadas em documentários, visadas com a intenção de deixar as criticas sociais mais reais. Ladrão de bicicletas possui algumas dessas características, tais como a crueza na imagem, que não se aprofunda no cenário, ela apenas foca no necessário registrando as coisas mais importantes, colocando em pauta o necessário e o útil para aquela época; gravações em cenários reais, fazendo redescobertas na paisagem italiana, principalmente a urbana, como ruas e casas que deixam crítica social aparente; utilização de atores não-profissionais, por exemplo, Lamberto Maggiorani, que era um operário, e Enzo Staiola que tinha apenas 7 anos na época;  pouco ensaio para maior naturalidade nas cenas e  pouca inovação em efeitos.

Ladrão de bicicletas deve ser assistido porque…

ladroes-de-bicicleta-2

É um filme que apesar de mostrar a dura realidade italiana pós Segunda Guerra Mundial tem poesia e mexe profundamente com o sentimento de quem o assiste. O roteiro, mesmo sendo simples, leva o espectador a um profundo apego por Antonio, que numa interpretação maravilhosa de Lamberto Maggiorani, nos faz repensar nossa posição no mundo.

Além do sentimento transmitido, vale ressaltar, novamente, que os atores do filme eram amadores e que o diretor tentava conseguir o máximo de naturalidade possível. Na cena que Antonio bate no filho, para conseguir uma reação real do ator mirim, Vittorio de Sica mandou que colocassem cigarros no bolso do garoto e acusaram no de roubo, pressionado pela produção, o garoto chorou de verdade durante a cena.

Ladrões de bicicleta mostra que para ser bom um filme não é necessário ter super estrelas e grandes efeitos, dessa forma, personificando a expressão de que “menos é mais”!

Classicologia é a coluna quinzenal de Nay Berger (me, myself and I!), e aqui tenho a intenção em tirar aquele “cheiro de poeira” dos grandes clássicos do Cinema mundial.

The following two tabs change content below.