Referência: “DC Rebirth”, o Renascimento da DC (2016)

A DC é completamente louca. Foi de suas geniais mentes insanas que saiu a revolucionária “Crise nas Infinitas Terras” – e as muitas crises seguintes -, bem como a revolução que foi o reboot dos Novos 52 e, recentemente, a iniciativa DCYou. Meses depois, algo novo está acontecendo na editora e, pasmem vocês, é algo velho: Rebirth (o “Renascimento”, em tradução livre), chegou às bancas dos EUA esta semana (e no meu Comixology) trazendo de volta amigos esquecidos e numerações abandonadas – e explodindo cabeças ao seu final do primeiro número.

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Na trama, dividida em quatro capítulos, somos lançados em meio ao caos deixado pelo (novo) desaparecimento do Superman (visto em Superman #52 e Liga da Justiça #50), e um velocista esquecido luta para voltar a existir. Mas antes de analisarmos cada um deles, temos que responder uma pergunta que vem às nossas mentes: por que diabos a DC resolveu reiniciar seu universo – de novo? Sendo assim, vamos dividir esse texto com um panorama do que levou ao Rebirth e o que esperar deste novo universo.

PRÉ-REBIRTH

Em um histórico rápido, a DC começou seu universo (o DCU) do zero com os Novos 52, em 2011. Além do chocante efeito de “apagar” toda a cronologia e legado dos últimos 70 anos de quadrinhos, a DC também passou a manter 52 revistas sempre em publicação; se um título ia mal, logo era substituído por outro. Parcos 5 anos depois, os eventos da Convergência e a linha chamada DCYou trouxeram o fim à linha Novos 52, deixando de lado a grandiloquência de ter uma cacetada de títulos em troca de focar em histórias mais ousadas e criativas (e, muitas vezes, bizarras). Não foi uma surpresa quando a DCYou logo foi esquecida também, e as cortinas azuis do Rebirth foram apresentadas. E cá, meus amigos, estamos nós.

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As principais diferenças do Rebirth para o que a DC tinha antes consistem em trazer de volta o legado de seus personagens, enquanto foca na qualidade e não na quantidade de HQs circulando pelo mercado. Vemos agora um número bem menor de títulos circulando, e quase todos eles relacionados à Trindade (Superman, Mulher-Maravilha e Batman), ou, ao menos, à Liga da Justiça. Comercialmente, isso diminui o risco e o esforço ao apostar em figuras carimbadas da editora, evitando ter que criar e cancelar novos títulos com novos artistas todo o tempo.

Olhando assim, o Rebirth parece excelente – e eu tendo a concordar. Em entrevista, os editores-chefe da DC – Jim Lee e Dan DiDio – disseram que o Rebirth é uma “volta às origens” e “quase um reinício”, e é nesse “quase” que mora o medo. Os Novos 52 já nasceram tortos por darem um reboot em todo o Universo DC, menos no Batman e no Lanterna Verde, o que fez com que o novo universo já começasse com incongruências cronológicas.

Enquanto isso, o termo “volta às origens” é uma resposta a muitas escolhas duvidosas que a DC fez, virando chacota no meio de seus leitores com anomalias como o Batcoelhinho, o Superman Sanguinário e a Mulher-Maravilha-Wolverine – e isso “só” nos três personagens mais importantes da casa. Quando Jim Lee diz na entrevista acima que quer desconstruir seus personagens até o núcleo e construir histórias que partam deste DNA, ele está simplesmente dizendo, em outras palavras, “deu ruim, volta”. Isso, por si só, não é um problema, mas quando agregado aos outros fatos da última década, vemos um quadro de uma DC Comics que não tem ideia de para onde ir, com planejamentos editoriais estranhos que são ignorados e largados de mão dentro de meses – dificultando o agregar de novos leitores e alienando os pobres loucos que tentam acompanhar as revistas mensais.

E é deste caos que nasce o Rebirth.

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PÓS-REBIRTH

O Rebirth, em si, é um evento que perpassará todas as linhas do Universo DC, trazendo personagens esquecidos de volta e, a nível editorial, retomará a contagem original de quadrinhos como Action Comics e Detective Comics, que já quase alcançavam o número #1000 à época do reboot dos Novos 52.

O especial DC Universe Rebirth, que introduz o evento, tem 80 páginas e é dividido em quatro capítulos que, profeticamente, tocam nos quatro pontos que a DC mais precisava se acertar. Vamos traçando paralelos e visitando esse novo universo pós-Rebirth. Spoilers leves à frente (nada que você já não tenha visto na internet).

Capítulo 1: Perdido

A história começa com o Wally West pré-Novos 52 caído na Força de Aceleração, que nos faz uma retrospectiva dos últimos anos da DC: a era pré-Flashpoint, o evento em si, e como chegamos aos Novos 52.

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Bem, o título deste capítulo é autoexplicativo, não é? Quem estava perdido não era somente um querido velocista ignorado pelos Novos 52, mas a própria DC, no meio de suas idas e vindas desnorteadas. O primeiro capítulo reconhece isso discretamente, e nos dá a nova direção para a editora.

Capítulo 2: Legado

A viagem continua com West através do espaço e do tempo, vendo todos os mantos que foram e serão passados adiante. Além disso, vemos diversos herois percebendo que há algo errado nas linhas temporais, e começam a investigar o que pode estar acontecendo.

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Neste caso, o principal ponto – realçado por Geoff Johns em entrevistas – é que, ao reiniciar seu universo nos Novos 52, a DC abriu mão de todo o seu legado – todos os Batmen que tiveram que carregar o fardo desse título, todos aqueles que já foram Besouros Azuis, Supermen ou Flashes… Tudo isto foi jogado no esquecimento, e os herois voltaram a ser personificados – eram agora Bruce Wayne, Ted Kord, Clark Kent -, reduzindo a força que existia nos símbolos que transcendiam os personagens em si.

Capítulo 3: Amor

À la “Interestelar”, descobrimos que o amor é a única força capaz de atravessar a barreira temporal (e fazer o mundo andar), e é através dela que o nosso velocista perdido tenta retornar e alertar a todos de que o reinício do Universo – nos Novos 52 – foi piorado porque uma entidade se aproveitou deste momento para lhes roubar dez anos.

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Estes “dez anos” são a soma dos cinco anos que os Novos 52 duraram (2011-2016) com o fato de que eles começaram aquela nova linha dizendo que os herois já estavam na ativa também há cinco anos. Em suma, Wally West diz que os Novos 52 foram, literalmente, uma gigantesca perda de tempo – o que é algo bem cruel de se atestar. Eu fui um que, depois de anos tentando entrar no mundo dos quadrinhos mensais, em seus números #930 e #600 e muitos, vi nos Novos 52 uma chance de participar. O problema não foi a inovação e o projeto em si, mas a falta de amor com que ele foi levado à cabo.

Capítulo 4: Vida

Enquanto Wally West parece encontrar uma maneira de salvar a si mesmo, estamos muito mais chocados com o fato de a HQ terminar com uma referência direta a Watchmen – na verdade, temos Dr. Manhattan conversando com Ozymandias, em um diálogo muito semelhante a outro que já tiveram na história antológica de Alan Moore. Tudo aponta que o homenzarrão azul teve algum envolvimento com a criação do universo dos Novos 52.

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O diálogo original de Watchmen, achado pelo Jão.

Além do impacto que isso traz para o Universo DC – conforme discutimos no último PontoCast -, esta virada aponta a direção para qual a DC parece querer ir desta vez: uniformidade. Ao trazer uma graphic novel à parte para dentro de sua cronologia – e, cá entre nós, de forma muito genial, que quase parece realmente planejada há décadas -, a editora tenta enxertar nova vida aos seus quadrinhos, enquanto resgata o que há de mais referencial e sólido em sua história.

À bem da verdade, a DC não estava morta, mas moribunda; com a constante exceção de alguns títulos excelentes que mais comprovavam a regra, as histórias que circulavam nas revistas pareciam se esforçar para parecerem novas, quando na verdade era apenas cópias pálidas do que já havíamos visto. Ao abraçar que possui um legado que não precisa – nem deve – ser esquecido, a DC retoma seu fôlego, agora sob o total controle criativo de Geoff Johns. Torçamos para que não seja só mais um suspiro de um doente, mas um renascimento real da editora responsável por moldar os quadrinhos como os conhecemos hoje.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.