Classicologia #01 – “Crepúsculo dos Deuses” (1950) – O Ocaso de Uma Estrela

Eles pegaram os ídolos e os destruíram, os Fairbanks, os Gilberts, os Valentinos! E quem eles têm agora? Alguns zés-ninguéns!

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Segundo o dicionário Houaiss, a palavra crepúsculo significa, de modo figurado, o declínio, a decadência.E é sobre a decadência que este clássico do cinema, lançado em 1950, dialoga, sendo representada em duas maneiras, a primeira pelo esquecimento que a indústria cinematográfica teve pela atriz de grande sucesso na era dos filmes mudos, Norma Desmond (Gloria Swason), e, depois, pelo fracassado aspirante a roteirista, Joe Gillis (William Holden), ambos decadentes em suas respectivas funções que, no caso de Joe, nem conseguiu chegar ao sucesso que Norma teve. O filme com roteiro original (ou seja, o roteiro não é algum tipo de adaptação, ele foi escrito especialmente para ser filmado) é dirigido por Billy Wilder, um dos maiores nomes da indústria cinematográfica nas décadas de 50 e 60, responsável por grandes sucessos como O pecado mora ao lado(1955), Quanto mais quente melhor (1959), Se meu apartamento falasse (1960), dentre outros.

Norma Desmond (Gloria Swanson) foi uma grande atriz da era do cinema mudo e que com as mudanças na sétima arte se vê obrigada a viver num mundo fantasioso, com medo de encarar a realidade de que seu tempo já havia passado. Ela vive com seu mordomo em uma mansão na rua Sunset Boulevard (nome do filme em inglês), e planeja seu retorno triunfal ao cinema com um filme chamado Salomé. Então outro personagem importante aparece, o fracassado Joe Gillis (William Holden), um roteirista que está cheio de dívidas e que não consegue vender seus roteiros para Hollywood. Depois de ser perseguido por seus cobradores, Joe vai parar na casa de Norma, que ao tomar conhecimento da profissão do rapaz pede para que ele a ajude no roteiro de Salomé (que por sinal, é péssimo!). A partir deste momento a história se desenrola até sabermos por que Joe foi morto. Sim, Joe morreu! Morreu com três tiros e estava boiando na piscina! Essa cena do crime é mostrada logo na primeira sequência do filme, que com uma musica instigante mostra a rua Sunset Blvd, e sim, mostra a rua mesmo, a câmera percorre o chão e só depois toma um plano mais amplo mostrando a chegada de policiais e jornalistas ao cenário criminoso.

Estilo cinematográfico

Crepúsculo dos Deuses é citado como um filme pertencente ao estilo film noir (lê-se nuár).O noir foi um estilo cinematográfico (há controvérsias se realmente foi ou não um estilo ou um gênero) popular nas décadas de 1940 e 1950, tendo como influencia a literatura policial e os filmes da época do Expressionismo Alemão, retirando destes o efeito de sombras e paranóias. O nome noir surgiu na França, que na época do Nazismo não recebia filmes dos EUA; quando a ocupação alemã terminou, os franceses receberam essa remessa de filmes que, para eles, eram todos iguais e lhes deram essa denominação que significa “filme preto”.

Os Film noir tinham como características principais um crime a ser desvendado, e dentro desse enredo criminal apareciam várias personagens que mesmo sendo alguém aparentemente inocente, no fim de tudo poderia ser considerada culpada – em um noir ninguém era vitima, nunca. Os filmes abusavam de flashbacks, de modo a tentar confundir o espectador; abuso no contraste de sombras, efeitos de fumaça, muitas janelas e espelhos nos cenários, cenas em ruas desertas, narração em off , aquela onde o narrador não se encontra na cena, ele está fisicamente fora do que está sendo apresentado.

Crepúsculo dos Deuses tem encaixe em praticamente todas as características de um noir, apesar de muitos críticos não concordarem com isso. O que acontece com esse filme é justamente uma confusão, pois de inicio parece ficar óbvio seu estilo: clima de suspense, narração em off, cena de um crime, só que por momentos o espectador acaba esquecendo que tem um crime a ser desvendado. A historia caótica de Norma Desmond e Joe Gillis pesa em nossa consciência de modo que ficamos comovidos com a velha atriz e com o pobre rapaz “descendo ladeira abaixo” na tentativa fracassada de sucesso. O sentimento de lembrança do crime cometido começa aparecer no meio do filme, e então o noir volta à ativa, e começamos a tentar encaixar o crime no contexto Norma-Joe.

Um pouco de cinema dentro do filme

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As referências ao mundo cinematográfico em Crepúsculo dos Deuses são recorrentes. Claro que essa afirmação pode parecer redundante de início, já que é um filme que fala sobre o cinema, mas tudo vai bem mais além. A atriz que interpreta Norma Desmond, Gloria Swanson, foi uma grande estrela do cinema mudo, assim como sua personagem. Gloria foi um dos nomes que mais rendeu dinheiro à Paramount Studios, que é também o estúdio responsável por Crepúsculo dos Deuses. Há, no filme, uma cena onde Norma olha para o porteiro dos estúdios, que depois de não deixá-la entrar e descobrir por meio de outra pessoa quem ela era, e diz:

“Sem mim ele não teria emprego, porque a Paramount não existiria!”

Outra referencia icônica do cinema é o diretor Cecil B. DeMille, que aparece no filme como ele mesmo. Assim como Gloria, Cecil foi um dos motivos lucrativos mais importantes para a Paramount continuar existindo. A arte imitando a vida continua a aparecer nas fotos espalhadas pela casa de Norma Desmond, que são fotos reais de Gloria, assim como o filme que é projetado numa sessão particular para Norma e Joe. O filme se chama Queen Kelly (1929), e foi o ultimo filme entre a parceria de Gloria Swanson e o diretor Erich Von Stroheim – um dos maiores diretores de filmes mudos e que faz o papel do mordomo Max.

Esse recurso de utilizar referencias reais da vida Gloria Swanson foi um acerto de Billy Wilder. A própria Gloria já não fazia filmes há dez anos, e sua participação foi importante para criar o clima irônico sobre o esquecimento de grandes estrelas, recurso, esse, utilizado recentemente no filme Birdman (2014), onde foram utilizados atores conhecidos por seus papéis em filmes de super heróis (marcado por esses papéis, assim como Gloria no cinema mudo), dando o tom trágico e ao mesmo tempo cômico da obra.

Memórias Póstumas

Crepúsculo dos Deuses é narrado por Joe Gilles, que apesar de morto, conta ao telespectador as suas aventuras. Esse recurso de narração póstuma é facilmente remetido ao grande clássico da literatura Memórias Póstumas de Brás Cubas de Machado de Assis e no cinema  é utilizado, também, no filme Beleza Americana dirigido por Sam Mendes em 1999.

A narração póstuma em Crepúsculo dos Deuses é um artifício que ajuda a aumentar o tom debochado da obra. Num enredo onde tema principal é o esquecimento, a decadência, o personagem que resolve contar sua historia depois de morto é uma alegoria de que as estrelas, mesmo depois de descartadas pela indústria cinematográfica, ainda tem historia para contar, o brilho de uma estrela morta, dura muitos anos!

É clássico e deve ser assistido porque…

Se alguém pretende conhecer o cinema clássico é imprescindível que Crepúsculo dos Deuses seja assistido. É um ótimo filme para a incursão nesse meio pois não tem aquela aura de filme clássico chato. É uma obra debochada, triste, bem construída e ótima para quem gosta de saber dos bastidores do cinema.

E, além disso, Crepúsculo dos Deuses tem um dos finais mais gloriosos de toda a história do cinema! A sequência final, onde Max, o mordomo de Norma, forja uma filmagem de Salomé para que a atriz se entregue a polícia, culpada pela morte de Joe, é uma das coisas mais tristes e lindas já feitas, ficando impossível ter raiva de Norma, uma ex atriz esquecida, jogada fora. O filme termina com uma das mais clássicas frases do cinema:

“DeMille, estou pronta para meu close final.”

Classicologia é a coluna quinzenal de Nay Berger (me, myself and I!), e aqui tenho a intenção em tirar aquele “cheiro de poeira” dos grandes clássicos do Cinema mundial.

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