Classicologia #02 – Cidadão Kane (1941) – O Melhor Filme da História

“Nenhuma palavra pode explicar a vida de um homem.”

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Cidadão Kane (1941) é o filme obrigatório para amantes de cinema. Essa afirmação pode parecer presunçosa e um pouco arrogante, mas é absolutamente verdadeira. Dirigido por Orson Welles, Cidadão Kane é considerado o melhor filme já feito devido às suas inovações técnicas e narrativas. É uma obra prima que até hoje é aclamada e sempre aparece no topo de listas que tratam sobre melhores filmes, sendo um dos que estão em conservação permanente pela Biblioteca do Congresso Nacional Americano.

Foi o primeiro longa metragem dirigido por Orson que, depois de Cidadão Kane, se tornou um ícone. Nesse filme, Orson desempenhou brilhantemente várias facetas, seja na atuação (ele fez o papel do personagem principal), direção e na polêmica, já que a obra foi baseada na vida do magnata americano William Randolph Hearst e, por isso, quase não foi lançada.

Cidadão Kane trata sobre…    large

a história de altos e baixos do grande magnata da imprensa americana, Charles Foster Kane (Orson Welles). O filme tem início com imagens e musica típicos de film noir (já falamos das características de um film noir em Crepúsculo dos Deuses), deixando o espectador ansioso em descobrir o que há por detrás do grande portão de metal com um “K”e da placa avisando “No trespassing”, ou seja, “proibida a entrada” (é importante acrescentar que apesar de algumas características, e de ser o percussor da estética noir, Cidadão Kane não é considerado um filme pertencente a esse estilo). Então a câmera se aproxima de uma grande mansão, lembrando um castelo, até uma janela que bruscamente tem a luz apagada. Vemos um homem deitado sobre uma cama segurando uma bola de vidro com uma casinha e neve dentro, dizendo sua última palavra, “Rosebud”. Após a cena de morte é introduzido um noticiário falando sobre Charles Kane, toda sua conquista e legado na cultura dos Estados Unidos.

Após essa sequência, o filme tem como gancho narrativo a tentativa de um jornalista, Mr. Thompson (William Alland), em descobrir o que era “Rosebud”. Ele começa a procurar pessoas que foram importantes na vida de Kane, como por exemplo, a sua segunda esposa, Susan Alexander (Dorothy Comingore). É a partir de diálogos com essas pessoas que a trajetória de Kane vai sendo mostrada em ordem não cronológica. No final do filme, quando o jornalista é perguntado se conseguiu descobrir o que era Rosebud, ele diz que Kane “conseguiu tudo o que queria, e depois perdeu. Talvez Rosebud fosse algo que não conseguiu, ou que perdeu. Mas não explicaria tudo”.

O vazio da grandiosidade            large

Apesar de Thompson não ter descoberto o que Rosebud significava para Kane e dizer que essa descoberta não explicaria tudo, o espectador fica ciente de que sim, essa palavra explica, de certa forma, a vida de Kane. Após a morte do magnata, seu palácio, chamado de Xanadu, é esvaziado e tem todas as suas peças valiosas vendidas, enquanto as sucatas são queimadas na grande lareira que lá existe. Um das sucatas jogadas ao fogo é um trenó, o mesmo que Charlie brincava no dia que seus pais o mandaram morar com um tutor, o Mr. Thatcher (George Colouris). Enquanto o fogo consumia o trenó, vemos a palavra “Rosebud”, que está inscrita nele, ser destruída, ser “mortalizada”, assim como seu dono.

O trenó era uma representação do vazio de Charles Kane, de como toda a riqueza, toda influência que ele tinha não o completava. Ele era um colecionador compulsivo de estátuas e outros objetos, de modo a tentar suprir o vazio que o dinheiro lhe dava com coisas caras e inúteis. Em algum momento do filme é dito que Charles nunca jogava nada fora, ele guardava tudo! E o fato do mistério do filme estar em uma coisa simples, uma lembrança de infância, mostra como é difícil se desapegar de coisas grandiosas quando já se está envolvido nisso. Ninguém jamais pensaria que a última palavra de uma grande nome da sociedade americana seria referência a um tempo tão longínquo e sutil.

Referências

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Xanadu, o palácio de Charles Kane

A primeira referência, senão a mais importante, em Cidadão Kane é a inspiração na vida de William Randolph Hearst, dono de 28 jornais e 18 revistas nos Estados Unidos, além de um castelo na Califórnia chamado Hearst Castle. William, assim como Kane, era conhecido pelas polêmicas causadas em seus jornais, sendo considerado o percussor da mídia sensacionalista. Da mesma forma que Hearst tinha seu castelo, Kane possuía o grandioso Xanadu, palácio inspirado no lendário “monumento de culto ao prazer” de mesmo nome fundado por um dos Grande Khan do Império Mongol, Kubla Khan. É interessante observar a semelhança entre o Xanadu de Kane e o Neverland de Michael Jackson que foi construído no final dos anos 80. O astro pop, assim como Charles Kane tinha um império particular parecido com o do personagem e que dentre tantas semelhanças, a mais interessante a ser observada é a posse de um zoológico privado!

Cidadão Kane deve ser assistido porque…

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É um marco no cinema! Cidadão Kane inovou na linha narrativa baseada em flashbacks, no jogo de luz, foi o primeiro filme a filmar o teto de um cenário (isso não acontecia nos filmes anteriores pois o teto era utilizado para a disposição das luzes e cabos necessários para as cenas), e a maquiagem, um dos grandes trunfos da obra. Como é um filme que mostra a vida dos personagens ao longo do tempo, o processo de envelhecimento dos atores seria inevitável e a transformação feita pela maquiagem é surpreendente, sendo que algumas vezes fica pairando a dúvida se são os mesmos atores para todas as épocas mostradas no filme, o que fica claro nos créditos finais cujos nomes dos atores são confirmados com cenas deles no filme.

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Exemplo de cena onde o teto aparece na gravação

Além disso, é importante ressaltar que Cidadão Kane foi o substituto, o plano B de Orson Welles. Antes de trabalhar na história do magnata, Orson estava planejando debutar no cinema com a adaptação de um livro chamado Heart of Darkness, publicado em 1902 e escrito por Joseph Conrad. Porém a adaptação foi abandonada em pré- produção pois o estúdio afirmou que teria muitos custos ao realizar o filme. Orson, então, realizou Cidadão Kane e Heart of Darkness foi utilizado anos depois como inspiração para Apocalypse Now de Francis Ford Copolla em 1979.

Enfim, falar sobre Cidadão Kane é “chover no molhado”. É uma obra essencial no cinema cujas inovações inspiram até hoje. Não é preciso muitos motivos para assisti-lo, basta lembrar que é Cidadão Kane!

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Classicologia é a coluna quinzenal de Nay Berger (me, myself and I!), e aqui tenho a intenção em tirar aquele “cheiro de poeira” dos grandes clássicos do Cinema mundial.

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