Resenha | Pulp (1994) – a literatura marginal de Bukowski

“Passei a pensar em soluções na vida. As pessoas que resolvias as coisas em geral tinham muita persistência e um pouco de sorte. Se a gente persistisse o bastante, a sorte em geral chegava. Mas a maioria das pessoas não podia esperar a sorte, por isso desistia. Não Belane. Ele não fazia cu doce, Alto bordo. Jogador. Meio preguiçoso, talvez. Mas jeitoso.” – Pulp

Nick Belane nunca achou que conversaria diretamente com Dona Morte até o telefone tocar. Para um detetive, era comum receber trabalhos inusitados, mas buscar por alguém que já deveria estar morto não lhe pareceu um trabalho como outro que já fizera. Porém, com as contas vencendo e a ordem de despejo encaminhada, Belane abraçou o caso e buscar o escritor Louis-Ferndinand Celine para Dona Morte.

Não sendo o bastante, o telefone, que por muito tempo não havia tocado, trouxe para Belane diversos casos naquela semana, como uma investigação sobre traição no casamento, um dono de funerária perseguido por uma mulher linda (e fatal) e a busca pelo até então desconhecido Pardal Vermelho.

Com trocados no bolso e muito trabalho pela frente, Belane prova que não é um detetive qualquer, estando disposto a cumprir com suas demandas independentemente do quão custoso seja. Suas aventuras por Los Angeles apontam que para ser um bom investigador, é necessário ser, primeiramente, jeitoso.

Acompanhar os processos investigativos e os problemas que surgem para Belane nos mostra uma realidade diferente do detetive romantizado de Hollywood. Belane é sujo, mau-caráter e trapaceiro. Um galã aventureiro, sem a beleza e com um vocabulário sujo, vivendo puramente a marginalidade em que está inserido. Nick Belane é o mais puro retrato da Los Angeles que muitos fingiram não existir no século XX.

 “Levantar-se da cama pela manhã era o mesmo que encarar as paredes lisas do universo”

O livro “Pulp” foi o último escrito por Charles Bukowski, escrito em 1994, poucos meses antes da morte do autor. Durante o processo de criação desse romance, Bukowski estava lidando com tratamentos para leucemia, doença essa que foi responsável por sua morte aos 73 anos de idade.

Mesmo se tratando de uma literatura crua e marginal, dura em sua essência e diretamente estruturada nas antigas revistas de estilo pulp, é notável que o romance do velho safado brinca com um pessimismo filosófico que envolve a finitude da vida e o papel da Dona Morte no dia a dia. Entre as inúmeras citações da morte nos textos de Bukowski, “Pulp” é a leitura mais leve, e talvez mais sincera, daquilo que a morte sempre representou para o autor: uma mulher sedutora, intensa, desafiadora, instigante e, consequentemente, inevitável.

“Pulp” é, portanto, não apenas uma dedicação à subliteratura, como Bukowski trata na primeira página, mas sim um reflexo autocrítico da inevitabilidade da morte. Nesse processo, o autor também denuncia muitas de suas inseguranças, provando não apenas sua vulnerabilidade, como também seu viés humano.

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Marília Molinari é graduanda em Letras e viciada em comprar livros. Leitora apaixonada de Ayn Rand e Bukowski, tem preguiça de séries de TV muito longas e não entende muito de tecnologia. Você pode segui-la no Twitter e no Instagram.


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