Primeiras Impressões: “True Detective” – 2ª Temporada (2015)

Existe um fardo que vem com a excelência. Quando algo ou alguém se mostra muito bom no que se propõe, especialmente logo de início, imediatamente é imposta uma obrigação de que aquela qualidade se mantenha ao longo do tempo. Quando falamos de “True Detective” – uma série da HBO que teve sua primeira temporada estrelada por ninguém menos que Matthew McCounaghey, vindo de um Oscar em “Clube de Compras Dallas”, e Woody Harrelson, vindo de… Bem, vários lugares. De qualque forma, a primeira temporada da série foi aclamada unanimimente por crítica e público, de forma que a história sobre dois falhos policiais do sul dos Estados Unidos investigando um culto que sacrifica pessoas ganhou um status de obra-prima quase instantaneamente.

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Ainda assim, a pergunta óbvia era: esses atores de primeira linha de Hollywood voltam para uma segunda temporada? O criador, Nic Pizzolato, disse que não, porque “True Detective” seria uma antologia (como “American Horror Story”), e cada temporada teria seus personagens próprios, bem como sua história fechada. Então quando anunciaram Colin Farrell, Rachel McAdams, Vince Vaughn e Taylor Kitsch como protagonistas da segunda temporada, muitos se perguntaram se a série não estaria trocando qualidade por quantidade.

Depois de meses de questionamento, a segunda temporada de “True Detective” estreou ontem na HBO, e pudemos começar a responder esta pergunta.


Nesse primeiro episódio, somos apresentados a Ray Velcoro (Colin Farrell), um detetive alcoólatra, traumatizado e violento que tem uma dívida com Frank Semyon (Vince Vaughn), um corrupto dono de cassino local que está empreendendo uma obra bilionária na Califórnia. Para que essa obra aconteça, Frank precisa da presença de um político desaparecido há dois dias – caso que acaba por cair na jurisdição de Ani Bezzerides (Rachel McAdams) e Paul Woodrugh (Taylor Kitsch). Quando o caso se complica, os caminhos se cruzam nessa história sobre a sujeira sob o tapete da indústria de transportes estadunidenses.

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Considerando que o primeiro grande ás da primeira temporada de “True Detective” foram seus atores e suas atuações, é lógico começarmos a olhar este primeiro episódio da segunda temporada também sob este prisma.
Desde o anúncio do elenco, uma dúvida passou a pairar sobre a produção. Depois de boatos de nomes como Brad Pitt, a escalação de dois atores com larga escala em comédias e comédias românticas (Vince Vaughn e Rachel McAdams), bem como outro com uma carreira instável em termos de qualidade (Colin Farrell), lançou uma sombra de dúvida sobre o resultado final. Afinal, se a segunda temporada tivesse qualquer semelhança com a primeira, haveria um grande peso da história nos ombros destes atores. E fico contente em dizer que parece que isso não será um problema.

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Neste “novo piloto”, Colin Farrell divide o papel de condutor da história com Rachel McAdams, e os dois têm ótimos momentos em cena – especialmente Farrell, que parece mergulhado nas trevas que envolvem seu personagem. McAdams convence como a policial dura e amarga sobre a qual foi posto o peso de ser a consciência de uma família despedaçada; a atuação de McAdams é crua, e não há maquiagem literal ou figurativa em sua Ani.

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Enquanto não vimos o suficiente de Taylor Kitsch para formar uma opinião, Vince Vaughn fica aquém do esperado. Seu personagem não é unidimensional, e tem uma dubiedade “Walter Whitiesca” em suas intenções, embora seus métodos sejam claramente transgressores. Pelo menos nesse episódio, Vaughn não conseguiu imprimir o peso que o personagem necessitava (um exemplo de sucesso recente com um personagem de perfil semelhante pode ser visto no Rei do Crime de Vincent D’Onofrio, em “Demolidor”).

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Em relação à ambientação, não conseguimos “sentir” a Califórnia da mesma forma que a Louisiana se fazia presente na primeira temporada. Enquanto nesta os pântanos, neblinas e paisagens desoladas eram um ator à parte, naquela a Califórnia poderia muito bem ser o Texas com cassinos. Ainda assim, a fotografia é ótima; cenas como a bebedeira de Ray no bar dão uma profundidade e dor ao homem sem que ele precise dizer uma palavra.

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De qualquer forma, ambas as considerações são sobre elementos que podem mudar (e esperamos que mudem) ao longo dos episódios a serem transmitidos. De qualquer forma, se “True Detective” piorar muito em relação a primeira temporada, ela ainda tem força para ser melhor que grande parte da televisão americana. É uma das poucas vantagens de se carregar um fardo: ele te dá músculos para suportar os começos mais complicados. Até lá, nós, fãs, esperamos a entrega prometida.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.