Primeiras Impressões: Fuller House (1ª Temporada)

Fui uma criança privilegiada: durante alguns anos, tive TV à cabo, e em uma vizinhança de poucas crianças, logo decorei toda a programação. Parte muito importante dela era o sábado pela manhã, no canal Warner: eu acordava cedo, por volta das 7 da manhã, para ver “Três é Demais” e “Step by Step” – principalmente a primeira. Fiz isso durante anos, de forma que quando acordei hoje cedo para ver o primeiro episódio de “Fuller House” (…”Três é Demais Mesmo”?), com o dia ainda clareando, só me faltava um Toddynho e biscoito de maisena para eu voltar a ter 7 anos de idade – embora eu admita que, na minha memória, a série era mais engraçada.

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A nostalgia pode ser uma venda muito poderosa ao tapar nossos olhos, e uma venda certa para um público consumidor que se alimenta dela. A Netflix já percebeu isso, iniciando seus resgates com a fantástica Arrested Development e outras diversas, culminando recentemente na renovação de Gilmore Girls para mais uma temporada. Ainda assim, talvez a maior conquista neste ramo até agora por parte da Santa Padroeira das Séries Perdidas é a existência de “Fuller House”. Trazer de volta uma série que foi ao ar de 1987-1995 para mais uma temporada com o elenco original não é para qualquer uma. Só faltava descobrir se a série sobreviveria além do seu próprio sabor saudosista.

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Elenco da série original, da esquerda para direita: Blake Tuomy-Wilhoit, John Stamos, Lori Laughlin, Dylan Tuomy-Wilhoit, Dave Coulier, Andrea Barber, Mary KateAshley Olsen, Jodie Sweetin, Bob Sagat, Candace Cameron Bure, Scott Weinger.

De qualquer forma, vemos que a produção abraçou seu legado sem ressalvas. Enquanto o primeiro episódio da série original era “Nosso Primeiríssimo Episódio”, este se chama “Nosso Primeiríssimo Episódio, De Novo”, e as referências não param aí. Tio Jesse (John Stamos, atualmente em “Grandfathered”) canta sua clássica “Forever”, Tio Joey (Dave Coulier) manda seu “corta essa”, e Danny Tanner começa a série exatamente como a sua série anterior começou.

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A trama, inclusive, é a mesma. 20 anos depois de nos despedirmos dessa família, DJ Tanner (Candace Cameron Bure), assim como seu pai tantos anos antes, está viúva e com três filhos pequenos. A casa de sua infância será vendida, então o (agora vovô) Danny Tanner (Bob Saget, a voz do Ted do futuro em How I Met Your Mother) junta todo mundo para uma despedida antes de se mudar para Los Angeles para apresentar seu novo programa matinal em rede nacional. Quando todos veem a situação que DJ está agora, eles se prontificam a ficar e ajudá-la, mas Stephanie (Jodie Sweetin) se interpõe e diz que é hora deles seguirem suas vidas, cabendo a ela e à amiga de infância de DJ, Kimmy Gibbler (Andrea Barber), ajudarem DJ nessa empreitada. Então é claro que Danny abre mão de vender a casa para que todos possam morar ali.

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Aí você tem todas essas ressalvas antes da série começar: será que minha memória tornou a série melhor do que ela era? Será que vão conseguir transpor a linguagem? Será que vai parecer datado? Será… Mas a abertura (original!) inicia e de repente você está cantarolando a música de abertura novamente e nada mais importa. Posteriormente vemos a nova abertura, que nesta mesma abordagem faz um paralelo de como os personagens eram há mais de 20 anos e como eles estão hoje – e como o próprio tio Jesse diz, eles continuam bonitões (exceto talvez Bob Saget, embora justiça seja feita: ele já tem 60 anos). Quanto à nova geração, composta pelos filhos de DJ e a filha da Kimmy, eles parecem Disney-zados demais em suas performances, mas ainda é o primeiro episódio, e eles são crianças; vale darmos essa temporada a eles.

Com a exceção de Mary-Kate e Ashley Olsen, que agora são magnatas da moda nos Estados Unidos (e a série não se furta de caçoar disso), o elenco estava todo ali, e todos pareciam muito felizes de fazê-lo. A última cena é um paralelo adorável com outra cena do primeiro episódio, passadas lado a lado, e representam muito bem o abraçar do legado e a passagem de bastão. Tio Joey, cheio de metalinguagem, pergunta se as meninas dariam conta de substitui-los com sucesso, e elas garantem que sim – e agem de acordo. Apesar disso, só o tempo dirá se o estilo leve e humor de família que tanto fizeram sucesso em 1980-1990 ainda se comunicarão com a audiência de 2016. Não sendo o caso, a série precisará sobreviver somente da nostalgia – que é um prato de alta culinária: delicioso, mas que raramente rende muita coisa.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.