Primeiras Impressões – Feud: Bette & Joan (2017) traz o rancor por trás do glamour

Não é de hoje que as fofocas hollywoodianas recebem atenção; muitos famosos mais o são pelos bastidores do que por seu trabalho corrente. Não é o caso, claro, de Bette Davis e Joan Crawford, duas lendas do cinema que habitam no imaginário de Hollywood até hoje. Tão famosas quanto elas é a rixa que tinham entre si, que perdurou décadas, envolveu passagem de maridos e culminou nos bastidores das filmagens do clássico do terror “O Que Aconteceu com Baby Jane?“, de 1968. E é exatamente sobre isso de que se trata a primeira temporada de Feud.

feud 1

A nova série antológica de Ryan Murphy – criador de Scream QueensAmerican Horror Story American Crime Story – para o FX falará sobre uma contenda do mundo real por temporada. Enquanto a próxima temporada, já confirmada, falará sobre Príncipe Charles e a Princesa Diana, o primeiro ano da série nos mostrará todo o ódio entre Davis e Crawford enquanto as duas reascendiam ao estrelato em um clássico do cinema.

O piloto da série tem uma hora de duração e distribui bem esse tempo enquanto nos dá um panorama do que esperar do programa; vemos, desde o início, que a série é sobre pessoas. Embora óbvio, isso é importante de ser ressaltado para controle de expectativa: dificilmente teremos cenas terríveis, como em AHS, ou algum suspense intenso como em ACS. Ao versar sobre a relação entre Davis e Crawford, Murphy faz com que sua série seja profunda ao tratar duas grandes estrelas como pessoas mortais, falhas e… Mundanas, como eu e você.

feud 2

É verdade, também, que nessa busca por algo humano, que transcenda as duas personagens principais, o roteiro algumas vezes soa piegas e forçado. Ao resgate saem duas grandes estrelas do nosso tempo: Susan Sarandon vive Bette Davis, de alma e olhos saltados, enquanto Jessica Lange dá uma imensa gama de nuances para Joan Crawford – uma personagem complexa, que varia entre a insegurança e demonstrações de poder com facilidade. As intérpretes vivem suas atrizes com o conforto de quem sabe o que está fazendo. Sarandon e Lange demonstram conhecer o peso do que dizem, e reconhecer as situações que suas personagens vivem.

feud 3
Bette Davis, Susan Sarandon, Jessica Lange e Joan Crawford.

O elenco fantástico ainda inclui Stanley Tucci, que vive Jack Warner (sim, dos famosos Bros), e Alfred Molina, que vive Robert Aldritch, diretor de “…Baby Jane”. A direção da série em si, enquanto isso, privilegia o texto e seus atores, como bem deveria fazer; a fotografia da série e sua trilha sonora são holofotes eficientes que realçam esses elementos. Somos transportados para a Hollywood dos anos 60, e é impossível não pensar em quanta pesquisa foi demandada para reconstruir aquele mundo. Para os cinéfilos, esta temporada de Feud será um prazer imenso: nomes como Audrey e Katherine Hepburn são usados com frequência, e as participações especiais de atrizes famosas da nossa geração enriquecem a série.

Como se o elenco não fosse motivo suficiente para seguir a série, o modo como ela analisa o crepúsculo das deusas também é bem interessante. Por um lado, Feud mostra como a indústria mastiga e cospe suas estrelas, lançando-as ao ostracismo quando elas começam a envelhecer – isso inclusive é dito com todas as letras quando Crawford despreza a nova queridinha de Hollywood, Marilyn Monroe. Por outro lado, o programa também mostra como ambas as atrizes, principalmente Crawford, precisa da relevância da Calçada da Fama para sentir que cumpre sua vocação como atriz, enquanto Davis se sente insatisfeita com o teatro, buscando retornar para as telas. Enquanto o tempo passa, Crawford e Davis se sentem cada vez mais distante da glória que alcançaram nos anos 30, sofrendo progressivamente com as barreiras impostas pela indústria cinematográfica, que não permite que as mulheres envelheçam.

feud 5

Tratando dos extremos, o show dança entre a inveja e a admiração; entre a fama e o ostracismo; entre a conquista por esforço e aquela pelo talento com uma facilidade digna de quem sabe bem o que está fazendo. Com uma trama simples, a série nos leva tão fundo em suas personagens que conseguimos sentir a tensão em seus diálogos, e sentimos que, só talvez, elas realmente sejam capazes de fazer algo uma contra a outra – embora a História nos diga que não. Com um elenco de peso e roteiro eficaz, Feud parece vir para nos mostrar que muitas vezes o preço da fama e do glamour é pago em ódio.

 

The following two tabs change content below.

erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.