Primeiras Impressões: Clube da Luta 2 (2015-2016)

O pessoal aqui do PontoJão já deixou claro em diversos podcasts o quanto somos fã do “***** da Luta”, tanto o livro publicado em 1996 quanto filme que o adaptou às telas no melhor ano do cinema, 1999. Assim sendo, quando foi anunciado que o autor do livro, Chuck Palahniuk, daria seguimento à história em formato de quadrinhos, um misto de ansiedade e medo se instalou sobre a redação, e a clássica pergunta pairou no ar: será que vai ser bom?

A resposta foi um soco na nossa cara.

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A trama se passa 10 anos após o trabalho original. Aqui, Tyler Durden está no banco traseiro da mente de Sebastian (nome atual do cara que chamamos de “Jack” por 16 anos), o qual agora é casado com Marla há 9 anos e que tem um filho potencialmente sociopata. Sebastian se esforça para ser um cara legal, mas os numerosos ansiolíticos e antipsicóticos que ingere fazem com que ele se torne emocionalmente distante, inclusive de seu filho Junior. Enquanto isso, Marla vive agora uma vida normal, exceto pelos seus velhos hábitos que têm dificuldade de morrer. Nesse contexto, um gatilho é propositalmente disparado, e Tyler Durden ressurge.

FightClub2ReviewAbri a primeira edição de “***** Club 2”, esperando aquela página introdutória padrão, quando já dou de cara com um formulário para preencher e descobrir se eu sou um bom Macaco Espacial, e ver qual é o sentido da minha vida. A linguagem e a forma com que o texto é apresentado é Chuck Palahniuk fazendo o que sabe fazer melhor: expor nosso pior. Com uma série de perguntas, ele questiona toda a sociedade moderna; Palahniuk mostra também que, embora nossas tecnologias tenham sido atualizadas, os vazios que existiam em 1996 são bem parecidos com os que existem agora.

Inclusive, é impressionante a maneira como Palahniuk se adapta à linguagem dos quadrinhos. A narrativa seriada é muito diferente de uma narração direta de um livro, visto que é necessário acrescentar em sua escrita uma imagem precisa para o ilustrador, enquanto como escritor de livros pode-se deixar mais à imaginação do leitor. Palahniuk faz a transição de linguagem com a facilidade de quem nasceu para contar histórias (o que já sabíamos), independente da forma como ela é contada.

img_1893-2A primeira edição começa com o ímpeto da história original, e a narração – aqui feita por Durden – tem o mesmo cinismo cruel e niilista que vimos Brad Pitt cuspindo no filme. A ilustração de Cameron Stewart é consistente, e a expressão corporal dos personagens fala muito: o descaso de Marla está presente em cada movimento, e Sebastian (além de estar bem calvo) está sempre curvado e de olhos semi-cerrados, como quem acaba de acordar. As tintas de Dave Stewart conversam bem com a história, usando cores frias nas cenas com Sebastian e esquentando a paleta quando Tyler assume. Além disso, pétalas e pílulas espalhadas pelas páginas dão uma camada interessante à narrativa, visto que vários balões de fala são cobertos por elas, nos fazendo pensar o quão essencial realmente são aqueles diálogos, ou se são tão triviais quanto os móveis da Ikea na mente de Sebastian.

Capas alternativas da edição #1.
Capas alternativas da edição #1.

“***** da Luta 2”, na sua primeira edição, consegue manter o ritmo e a pegada de sua antecessora, embora não tenha o mesmo nível de imersão que o livro ou o filme; o fato de a história ser seriada impede uma leitura/filme envolvente em que você se perde naquele mundo, de forma que talvez seja melhor esperar sair o encadernado (maio de 2016) para ler de uma tacada só. Ainda assim, se sua vontade de explodir uma empresa de cartão de crédito é maior do que seu receio, leia agora. Mas mais importante: guarde só para você. Você não fala do “***** da Luta 2”.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.