Análise | Por que Gotham é diferente das outras séries de heróis da DC?

Há algum tempo, tive a oportunidade de ler uma matéria que trazia o rumor de que “Gotham” não seria uma série do Batman, mas do Homem-Coruja. Essa leitura me fez passar a assistir a série de uma maneira diferente. Não como um seriado sobre as origens do Batman, mas como alguma coisa maior. Como se, finalmente, as séries de heróis da DC tivessem dado um passo além do costumeiro ritual procedural de 24 episódios com voltas e mais voltas que levam os personagens longe para retornar ao mesmo lugar.

No decorrer das temporadas percebi que eu estava parcialmente certo. “Gotham” era uma série procedural de 24 episódios, sim, mas não como as outras. Devido à decisão de desenvolver os arqui-inimigos do herói enquanto ele ainda era uma criança, o roteiro da série começava a destoar completamente das predefinições características das séries do Arrowverso. Como um jovem leitor de histórias em quadrinhos, entendo que é interessante uma adaptação fiel de personagens e arcos importantes, entretanto, as histórias mais marcantes dos heróis da DC são aquelas que levam os leitores a se perguntarem “e se?”. E se, num futuro não tão distante, existissem tantos heróis que a exceção seriam as pessoas normais? E se a nave que trazia o bebê Kal-El caísse na União Soviética ao invés do Estados Unidos? E se o Batman não visse mais sentido em manter a sua única regra? E se saíssemos da nossa zona de conforto e Gotham fosse vista sob o olhar dos vilões? E se?

Curiosamente, a reclamação mais frequente em relação à série é que se trata de uma história do Batman sem o Batman, pois Bruce Wayne ainda é uma criança/ adolescente. Mas “Gotham” não é uma história sobre o Batman, ela é exatamente aquilo o título enuncia: uma série sobre Gotham. A representação dos cidadãos e da arquitetura da cidade mais decadente do universo DC no seriado, é um dos melhores pontos da série. Bebendo da caricatura de Tim Burton no Batman de 1989 e aplicando estilos americanos da moda dos anos 40, ao passo que utiliza tecnologias dos anos 90 e 2000, a ambientação de”Gotham” parte de um amálgama de referências desconexas para criar uma identidade muito própria.

gotham

Mas nem só de ambientação se faz a identidade de uma série. O carro-chefe das boas histórias são os bons personagens. Mas, veja, “Gotham” é repleta de personagens ruins, rasos e mal trabalhados… até que não seja mais. Histórias abertas, como novelas e séries procedurais, têm a oportunidade de adaptar o desenvolvimento dos seus personagens ao interesse que o público demonstra pelos arcos de história de cada um deles. Se um personagem agrada, seu tempo de tela é acrescido; se desagrada, gradativamente é suprimido. No início, “Gotham” sofreu muito com esse tipo de prática, mas o constante risco de cancelamento deu aos roteiristas a liberdade para trabalhar os personagens que queriam da maneira que queriam, afinal, se o projeto pode ser cancelado a qualquer momento, qual o problema em fazer coisas diferentes?

Essa liberdade narrativa permite que os roteiristas brinquem com a personalidade de cada personagem e que eles tomem atitudes que desviam do modus operandi estabelecido nos quadrinhos. O jovem Bruce Wayne pode ser um assassino; James Gordon pode ser um policial corrupto; o Pinguim pode ter um interesse amoroso por outro homem; Barbara Kean pode se tornar uma vilã; o Coringa pode… não ser o Coringa, e mesmo assim as narrativas se encaixam na proposta do seriado.

Gotham é diferente das outras séries da DC por não se limitar a jogar no seguro, por não utilizar muletas de arcos famosos por saber que vai agradar os fãs fundamentalistas. Gotham é, por definição, uma zona de desconforto.

 


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Leandro Bezerra

Editor, redator e um serumaninho quase legal.