Comentário | Por que Copa do Mundo?

A Copa do Mundo FIFA é, sem dúvidas, o evento esportivo mais famoso do mundo. Com uma audiência que equivale ao dobro das olimpíadas de verão, o torneio mais importante do esporte mais popular do planeta mexe com os bolsos, a cabeça e o coração de um número monumental de pessoas. O futebol moderno tem precursores diversos ao longo da História. De um possível treinamento militar na China antiga, a um torneio de regional da cultura Maia. A habilidade contraintuitiva de conduzir a bola com os pés era um desafio 3 mil anos atrás e continua sendo até hoje, com regras e desmandos adequados aos atletas de suas épocas. Mas por que é reservada ao futebol essa atenção tão especial? Por que o vôlei, o handebol, o futebol americano ou basquete não são tão populares quanto o esporte da pelada de domingo?

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O futebol é um jogo simples. Consiste em jogar a bola com os pés até a baliza adversária. O futebol não precisa de redes, nem de raquetes ou de uma bola especial, logo, é de fácil acesso mesmo para quem possui poucos recursos.  E isso também define o handebol e o basquete. A diferença do futebol para essedois outros desportos é óbvia: é um esporte que não se joga com as mãos. Arremessar objetos com as mãos é natural, fazemos isso desde crianças; fazemos isso há anos, séculos, milênios; por isso os esportes de bola na mão são intuitivos, e o seus valores estão, de maneira superficial, no aperfeiçoamento dos lançamentos de precisão, força. e velocidade. Lançar a bola com os pés também exige precisão, força e velocidade, mas também a noção espacial de não ter o objeto de lançamento na altura dos olhos. Talvez os movimentos ludopédios não sejam antinaturais, mas com certeza são mais complexos.

Essa complexidade básica do futebol se reflete na própria relação que as pessoas têm com esse esporte. Existe uma regra social, da qual são adeptos todos os apreciadores fervorosos do futebol, que diz que “troca-se de casa, de cidade, de amores e de amigos, mas não de time”. Por quê? Por que é tão importante que exista um time do coração? As respostas são diversas e multiformes e vão desde a identificação com a sociedade ao redor, às idiossincrasias mais profundas. O time do coração reflete a personalidade e a passionalidade de quem torce.

Apesar de não ser o país entitulado como inventor do futebol, o Brasil é a nação símbolo desse esporte no mundo. Cinco vezes vencedor da Copa do Mundo e pátria-mãe de 5 dos 14 jogadores eleitos “Melhores do Mundo” (desde 1991), o Brasil tem nos futebolistas um eficiente meio de exportação de cultura. A cada novo talento promissor, a história do garoto de família humilde da periferia, que jogava bola com os amigos depois da escola, passou por dificuldades e venceu na vida através do esporte é repetida (salvo exceções). E esse conto do futebolista brasileiro reflete um pouco da realidade da massa populacional não só do Brasil, como de grande parte dos países pobres e subdesenvolvidos pelo mundo.

O passado glorioso e o presente auspicioso da seleção brasileira acostumaram o público com o favoritismo constante do time. Em época de Copa do Mundo, ruas são caracterizadas com o verde e o amarelo, bandeiras nacionais são hasteadas, famílias e amigos se reúnem a cada feriado nacional agendado pela FIFA. A confiança na conquista da taça também marca presença na economia. Camisas, bandeiras, flâmulas, buzinas e toda a sorte de penduricalhos temáticos ganham as lojas e driblam a carteiras dos consumidores.

As peculiaridades sociais e econômicas advindas da Copa do Mundo são importantes, mas o aspecto mais notável é o sentimento nacionalista sazonal. A cada quatro anos, a massa brasileira vive um mês no topo do mundo. O pensamento parte das sucessivas decepções políticas, do sistema educacional parvo, da violência urbana e da interminável lista de problemas do país, para a crença em um triunfo esportivo. Por apenas um mês, os cidadãos comuns deixam de lado as diferenças do dia a dia para vibrarem por um único objetivo; por apenas um mês, o mundo reconhece no nome “Brasil” um exemplo a ser respeitado; por apenas um mês, o brasileiro toma uma injeção anabolizante de esperança que logo se dissipa. Tudo isso para enfrentar mais quatro anos de desafios, até que, novamente derrotado, consiga, enfim, outra dose de torpor.

 


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Leandro Bezerra

Editor, redator e um serumaninho quase legal.