Por que a gente é assim?

Há não muito tempo, discorri sobre a minha visão de “o que é a internet”. Sobre como as pessoas se expressam, sobre o seu comportamento, sobre como sobrevivem na visão periférica das atenções comum nessa rede tropical abençoada por Deus e bonita por natureza. Agora, no entanto, volto para refletir não os “comos”, mas os “porquês”, e não sobre a internet per se, mas os motivos que a rodeiam. O palco em que a arma da liberdade de expressão parece funcionar bem quando o falante tem o opositor sob a mira da censura.

Ao fazer a pesquisa para outro texto, cujo tema inicial era bem diferente, me deparei com questões que se repetem todos os anos e separei duas como exemplo.

Em momento de genialidade, Jorge Ben Jor observou que “em fevereiro, tem Carnaval”. Indiscutivelmente a maior festa popular do Brasil. Quer você goste, quer não, beira o impossível não ser afetado de alguma forma pela festança. Com os foliões, uma legião cósmica e invisível acompanha a procissão: os críticos do Carnaval.

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E, veja, não me refiro aos jurados das escolas de samba, que realizam papel importante na tradição, mas aos seres carregados de elétrons cujo impulso à menção dessa oxítona é propagar ao mundo pensamentos de o quanto a festa é nociva pelo simples fato de não a apreciarem.

Quatro meses depois, fogueiras são acesas, bandeirinhas são penduradas e o milho é vendido como água no deserto. É dia de São João. Quando as tradições católicas portuguesas se fundem aos costumes de cada região brasileira e o Nordeste é aclamado pela voz marcante de Luiz Gonzaga, a massa mais uma vez se encontra para um evento popular. E uma vez mais a marola de repúdio se faz presente.

Devo esclarecer que essa não direciono esse discurso a quem não gosta desse tipo de evento, mas àqueles que não conseguem aceitar que outros possam gostar.

Voltemos às indagações.

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Imagine um corredor de uma exposição de quadros cujas pinturas mostram grandes linhas retas sem muitos detalhes e sem cor. No fim do corredor, uma única pintura multicolorida com curvas bem delineadas.

A pintura não segue o padrão do resto da exposição. Nessa situação, a estranheza é causada pelo deslocamento de uma peça que não pertence ao padrão ou pela sua expectativa de que ela seja padronizada? É certo gostar da peça única ou do padrão majoritário?

Este tipo de dicotomia tola se impregnou como um parasita nos antes costumeiros grupos de conversa e esse comportamento não dá sinais de evolução. Em algum momento enevoado pela história, uma brincadeira argumentativa foi elevada ao status de desonestidade intelectual. Desde então, as pessoas perderam a cabeça e o caos reina supremo.

Em uma dissertação vestibular, este seria o momento para propor uma solução, de pensar em ideias que se assemelham a utopias quando confrontadas com a realidade. Mas a névoa da história pregressa se transformou em uma parede sólida para o futuro, e continuamos sem entender nosso comportamento. A pergunta inicial perdura: por que a gente é assim?

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