PontoXP #4 – Festival Internacional de Quadrinhos 2015: O Evento

Eu estava na fila (considerável) para assinar minhas graphic novels da MSP e conversava com duas pessoas que lá conheci. Em um dado momento, falando sobre a estrutura do evento e a disposição dos presentes, me referi ao FIQ como “feira”, e fui prontamente corrigido. “Festival”, o rapaz disse, de forma agradável, mas firme. “Festival”, me corrigi, entendendo imediatamente a gafe que eu havia cometido. Embora possa parecer apenas um erro de nomenclatura, não é assim que a produção e os presentes no evento encaram a distinção. Em dois dias, em meu primeiro FIQ, eu também aprendi a fazer esta diferenciação.

fiq 2015

A vocês que não puderam comparecer, podem vir, a entrada é franca. Bem-vindos ao Festival Internacional de Quadrinhos de 2015.

O evento bienal, iniciado em 1999, tornou-se com espantosa rapidez o maior evento de quadrinhos nas Américas – maior mesmo que a aclamada San Diego Comic-Con. Em 2011, o FIQ alcançou 148 mil visitantes, contra os 130 mil da SDCC. Vale adicionar, ainda que o FIQ não possui estandes de cinema, nem TV, nem nenhuma outra mídia paralela; são somente quadrinhos, e eles bastam. De terror, infantis, de ação, de comédia, comics de super-herói, graphic novels contemplativas e mangás românticos. Se você gosta de qualquer – e digo “qualquer” mesmo – gênero de quadrinhos, você encontraria em uma das 140 mesas e estandes do FIQ deste ano.

Um número avassalador, diga-se de passagem. Usando novamente a SDCC como comparativo, enquanto o evento estadunidense alcançou em 2014 – 40 anos após seu início – mais de 130 mil visitantes, o FIQ, em sua nona edição e 16º aniversário, estima ter ultrapassado 150 mil visitantes, enquanto batia seu próprio número anterior de mesas e estandes presentes. É dessa escala que estamos falando.

Além de inúmeros autores, ilustradores e criadores de conteúdo em geral, de qualidade, o evento também contou com a presença de figuras de renome internacional, como o dez vezes ganhador do prêmio Eisner (o Oscar dos quadrinhos, só que sério) Jeff Smith; a roteirista Gail Simone, mundialmente famosa pelo seu site sobre representatividade feminina nos quadrinhos, o “Mulheres na Geladeira”; e a ilustradora Babs Tarr. Do Brasil, nomes como Will Conrad, os irmãos Vitor e Lu Caffagi (a qual pode ou não ser o novo grande amor da minha vida), e Carlos Ruas, de “Um Sábado Qualquer” marcaram presença, todos dispostos e contentes em conversar com os fãs e fazer autógrafos personalizados para a fila virtualmente infindável – digo “virtualmente” porque havia uma quantidade específica de senhas distribuídas, então em um momento o volume da turba estancou. Conseguimos entrevistas com algumas dessas personalidades, que você pode ver nesta outra parte da cobertura.

Fora do estande separado, com ar-condicionado, para os autógrafos mais… Caóticos, e o salão das palestras, o calor imperava. Pessoas abanavam-se com marcadores de texto, e ver cosplayers vestidos até de Homem-Aranha Noir dava um imenso desespero alheio. Ainda assim, a paixão, dos fantasiados de heróis e dos fantasiados de pessoas normais, era evidente. Cada quadrinho tocado, cada página virada e cada sorriso esboçado – independente se a revista tinha pôneis fofos ou vísceras expostas – era admirável.

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Eu, particularmente, tive uma experiência estranha neste meu primeiro FIQ. Com o lançamento de “O Rei Amarelo em Quadrinhos”, pela Draco, fui convidado para dar autógrafos. Estar do outro lado da caneta é extremamente mágico e desconfortável ao mesmo tempo; você sente orgulho do trabalho realizado (foi praticamente um ano de inúmeras revisões e acertos entre aprovação do projeto e a publicação), mas ao mesmo tempo se pergunta porque ele torna um rabisco seu importante. Posteriormente, enquanto eu pegava um autógrafo do meu querido Jeff Smith em meu “Shazam! & A Sociedade dos Monstros”, eu entendi. Em – óbvia – menor proporção, o autógrafo não é a assinatura de alguém famoso ou um rabisco que faz a obra valer mais no Ebay; é um registro de um momento na história no qual você teve um contato com alguém que criou algo digno de nota para você. Uma lembrança de que você foi, além da capa, ao autor.

E é por isso que não é uma “feira”. Embora negócios sejam feitos, acordos fechados e portfolios analisados, o FIQ vai muito além disso. Como Festival, ele cria uma ponte não só entre um público e as obras que tanto querem conhecer, mas abre uma porta entre criador e leitor, permitindo uma troca de experiências sobre a qual não se pode por preço – e talvez seja por isso que a entrada é gratuita. Com as mãos vazias ou cheias de sacolas, você certamente vai sair com sua mente e peito cheios, e suas mãos coçando para criar – para um dia, quem sabe, seja você a compartilhar sua criação com um mundo ávido por outros mundos.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.