PontoXP #4 – Festival Internacional de Quadrinhos 2015: As Entrevistas

Nem só de opinião vive o PontoJão, então no FIQ 2015 nós também fomos a luta para entrevistar uma galera legal para vocês. Entre palestras lotadas sobre feminismo nas HQs, Netflix dos quadrinhos e autores assumindo serem mulheres, nossas conversas ajudaram a compor o ambiente do Festival Internacional de Quadrinhos deste ano.

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Entrevistas com Gail Simone, Rogério Coelho e Vitor e Lu Caffagi da Graphic MSP, com Carlos Ruas, de “Um Sábado Qualquer” e com o pessoal da Cosmic. Deem uma olhada!

cosmic quadrinhos

Falamos com o Boro, um dos fundadores da Cosmic, para entender como funciona esse serviço. Para quem não conhece, o Cosmic funcionará como uma espécie de “Netflix dos quadrinhos”; você paga uma mensalidade de R$15,90 e tem acesso a todos os quadrinhos disponíveis no arquivo deles.

“Nosso diferencial é que a gente trabalha próximo aos autores e das editoras brasileiras independentes”, Boro comentou. “[Os independentes] são o foco, mas nada impede a nossa negociação com produtores de conteúdo lá de fora.” Para quem lê quadrinhos com muita frequência (como eu), esse serviço pode ser um divisor de águas, considerando que atualmente a mídia sofre com o custo de produção do volume físico, principalmente no Brasil.

Além do serviço de streaming, que entra no ar dia 25/novembro, a Cosmic lançou um leitor de quadrinhos gratuito, o Cosmic Reader, para desktop e Android. A partir da troca de experiências com os leitores no fórum da Cosmic, o serviço vem sido aprimorado. “Com ele, você pode acessar e ler a biblioteca de quadrinhos que você já tem no computador”, aponta Boro, “além da leitura online”.

E para o futuro? O foco da Cosmic é na “experiência do usuário, trabalhando para construir junto com os usuários um leitor confortável”, além de intensificar os laços entre a editora e os autores, “visto que a quantidade de produtores independentes no FIQ duplicou de 2013 para 2015”.

Para saber mais sobre esse excelente projeto, acesse o site da Cosmic.

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graphic MSP

No meu contato com parte do pessoal envolvido nas graphic novels da Graphic MSP, a primeira abordagem, por mais clichê que seja, é perguntar: qual é a sensação de trabalhar com um legado de 50 anos como o da Turma da Mônica?

“É um privilégio pra gente”, comentou Vitor Caffagi, co-autor das incríveis “Laços” e “Lições” com sua irmã Lu Caffagi. “De tanta gente que faz quadrinhos no Brasil, ser um dos poucos que fazem isso é especial”, completou, ao passo que sua irmã sorria timidamente ao seu lado enquanto desenhava um Floquinho em minha edição de “Laços” (a qual temos resenha no site). Isso se torna ainda mais evidente quando lembramos que o editor da Graphic MSP, Sidney Gusman, não analisa projetos enviados, mas convida individualmente cada criador envolvido nas graphics da linha.

Vitor e Lu Caffaggi.

Mas com Rogério Coelho foi diferente. Lançando “Louco – Fuga”  no FIQ, Rogério foi o primeiro – e único – que não foi convidado por Gusman. Já trabalhando com o editor, Rogério o abordou em uma viagem implorando para que Gusman avaliasse suas ideias para uma graphic novel do Louco. “O Sidney [Gusman] gostou bastante, mas ainda assim foram quase 3 anos até a história sair”, ele comenta. Quando perguntei como ele construiu o incrível mundo de Louco dessa graphic, Rogério deu de ombros. “Eu escolhi esse personagem pela falta de passado dele e a liberdade criativa que isso me dava”, respondeu. “Só as interações com o quarteto principal estavam estabelecidas”, acrescentou, referindo-se a como Mônica e seus amigos interagiam com Louco. “O resto, os robôs e a perseguição em si, eu construí a partir do conceito que eu tinha do personagem” – e que conceito. A graphic é visualmente arrebatadora com uma história nonsense digna do Louco; lançada no FIQ, o PontoJão põe a nossa resenha da obra ainda essa semana.

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Eu era o segundo da fila para a palestra com a Gail Simone, obviamente. Acompanho o trabalho dela, tanto como crítica quanto como roteirista de quadrinhos há alguns anos, e, para mim, ela foi um dos principais incentivadores para ir ao FIQ. Autora do site “Women in Refrigerators” – sobre o qual eu falei na minha coluna Transversal #2 – Mulheres Mortas na Geladeira (ou “Evidências”) -, Simone foi uma das primeiras roteiristas femininas de destaque da indústria dos quadrinhos, sendo por algum tempo a única mulher entre os escritores da DC Comics. Escrevendo desde “Os Simpsons” a “Red Sonja” e “Batgirl”, destacando-se recentemente mais uma vez com “Mulher-Maravilha”, o tema da representatividade era esperado na discussão – e Simone não decepcionou.

gail simone

Quando perguntada em relação a resistência encontrada no início de sua empreitada nos quadrinhos, Gail apontou que obviamente não foi fácil. “Havia coisas sutis e outras nem tanto”, lembrou. “Uma vez perguntei a um alto executivo de uma das duas grandes editoras [Marvel e DC] qual era a porcentagem de público feminino das revistas, ao que ele respondeu ‘não sabemos e não nos importamos'”. Apesar disso, ela vê a mudança do cenário: “Mas olha onde estamos 10 anos depois, como temos roteiristas mulheres, programas de TV, brinquedos… Ainda temos um caminho pela frente, mas já avançamos bastante de ‘não sabemos e não nos importamos’ para ‘nos importamos e queremos esse público'”.

Contando como era cabeleireira com seu próprio salão – e como continuou sendo mesmo após se tornar roteirista, até conseguir equiparar o salário -, Gail também apontou para a questão estética como um todo nos quadrinhos. “Toda vez que eu crio um personagem novo, eu falo bem especificamente sobre o formato do corpo e o comportamento dele. [A indústria] já mudou bastante (…), e quanto mais diversidade tivermos entre os criadores, mais personagens diversos nós teremos. Tive muitas conversas com coloristas e ilustradores sobre tom de pele, cor dos olhos, forma do corpo e etnia, porque parece que havia um modelo único o qual todos seguiam”, ela relatou. “Não sei se eles dizem isso no Brasil, mas eles costumavam dizer que a mudança precisava acontecer de forma orgânica – o que é uma mentira de merda”, acrescentou, fazendo a plateia aplaudir e aclamar apaixonadamente. “Essas decisões são tomadas, e se você não toma essa decisão, não há ‘mudança gradual’. Não há mágica.”

Aproveitei a oportunidade ao final da palestra para abordá-la e, como bom fã, elogiar o trabalho e propor uma questão: há, de fato, mais mulheres roteiristas, mas além de a proporção ainda ser muito díspar, essas mulheres normalmente são alocadas somente para escrever personagens femininos. Citando Kelly Sue DeConnick e Babs Tarr, perguntei por que isso acontece, quando homens escrevem personagens femininas. Seria essa uma barreira a ser rompida? “É fácil ser limitado por eles. Se você não quer ser limitado, precisa fazer outras coisas, mostrar que você é capaz e provar sua capacidade. É um processo, mas ao menos agora eles estão ouvindo.”

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Falar com o Carlos Ruas foi complicado. Tentei abordá-lo diversas vezes, mas sempre uma turba o acompanhava, pedindo autógrafos em seus livros, bichos de pelúcia e camisetas. Já havia desistido quando, ao final do último dia de evento, o vi transitando por fora dos estandes. Aproximei-me e pude perceber que ele estava tão exausto quanto eu. Ainda assim, o criador de “Um Sábado Qualquer” me recebeu com um sorriso quando pedi uma entrevista rápida.

Carlos Ruas.

Perguntando sobre o movimento de transição das redes sociais, onde as tirinhas têm mais de 2 milhões de leitores, para o meio impresso, Ruas disse estar confortável com a transição. “Tem pessoas que não acessam tanto o virtual; é impossível acompanhar tudo o que aparece no Facebook. É gratificante para o artista estar presente no meio virtual e no meio impresso”.

Assenti e apontei que isso proporciona novas formas de interação com o público, como no FIQ. “Essa interação é fundamental”, ele concordou. “[Antes da internet] o autor era muito misterioso. Com a revolução virtual, o autor tem vários canais de interação com seus leitores. Eu acho isso fundamental. Existe autores que estranham isso e preferem continuar no mistério; eu acho isso um retrocesso. A interação está aí e só pode fazer os dois lados ganharem.”

Questionei quanto às novidades que o autor tinha pros próximos meses. “O canal de animação que tinha parado volta no ano que vem. Posso dizer que terei um jogo de cartas para o ano que vem também”, contou. Eu insisti, pedi alguma notícia grande e bombástica exclusiva para o PontoJão. Ruas arqueou as sobrancelhas antes de revelar com ar solene: “eu sou uma mulher”.

O cansaço sempre revelando nossos maiores segredos.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.