Coluna | Pontoshort #8: Indicados a Melhor de Curta Animação no Oscar 2019

O Pontoshort de hoje se dispões a falar dos cinco curtas metragens indicados ao Oscar 2019 de melhor animação. Vambora!

 

One Small Step (2018) e o que queremos ser (Indicado)

O curta da Taiko Studios, dirigido por Booby Pontillas e Andrew Chesworth, esbanja beleza e delicadeza, à medida em que é forte e triste.

Após testemunhar pela primeira vez um foguete ser lançado ao espaço na TV, a jovem Luna desejou, com todo o seu coração, se tornar uma astronauta. Ainda criança, graças ao apoio doce e do amor de seu pai Chu, além do pequeno negócio de consertos de sapatos, ela pôde manter a chama acesa. Agora, na universidade, Luna se vê enfrentando as dificuldades para realizar o seu sonho.

Verdade seja dita, a primeira vez que nos apaixonamos por algo a ponto de moldar tal encanto como uma meta para a vida, não esperamos que haverá espinhos até poder alcançá-la. Para Luna, o carinho de seu pai e sua força de vontade para conquistar era o que bastava, mas logo vieram as falhas, as decepções e frustrações, Mas nada que a fizesse ser astronauta mais depressa. Em meio às transições dos esforços, momentos de lamentação e dúvidas sobre a desistência, ela só não se deu conta de que esqueceu de viver o “agora”.

Pior do que não receber o sinal verde esperado, foi não perceber que a relação com pai se tornava frágil a cada dia que os turbilhões de sentimentos a afastavam e desfocavam o olhar para outros horizontes, até chegar o dia em que o perdeu de vez. Escalar para realizar os nossos sonhos não é uma tarefa fácil. E de um jeito amargo, Luna aprendeu que, por mais tortuoso que seja, precisamos lembrar de quem somos e atentarmos para o que há em volta.

 

Weekends (2018) – e as sombras da amargura (Indicado)

Escrito e dirigido por Trevor Jeminez (animador da Pixar), o curta “Weekends” era um pretendente com uma duração maior (15 minutos) que os anteriores. Com a mesma pegada sem diálogos, porém, com um contexto intenso e obscuro. Um detalhe: o longa retrata a complicada experiência do artista.

O enredo é bem simples. Ambientado em Toronto na década de 80, sem termos os nomes dos personagens expostos, acompanhamos a rotina do filho todos finais de semana se despedindo da mãe e seguindo para o carro do pai. Nisso, ficamos com três pontos a serem observados. O primeiro é convivência do garoto no lar materno. E apesar de compartilharem momentos alegres, a casa é carregada de uma tensão que faz o jovem começar a ter sonhos (expondo seu psicológico, o que entra o segundo ponto) da situação presente e tudo que levou a tal estado. É através desses sonhos que podemos criar empatia para compreendê-lo. O terceiro fator a ser considerado é como na presença e no lar do pai é possível compor atividades mais produtivas entre os dois, o que indica um alívio para o garoto.

É incrível a maneira que Trevor amarrou a narrativa, trazendo utensílios metafóricos para expor todo o caos que criança sofria em sua mente ao sentir saudades do pai, lidar com a separação do casal e depois com a ideia de que o novo namorado da mãe só fez aumentar os problemas, ferindo o estado psicológico e físico dela, além de criar um clima hostil.

Com uma arte de belos traços, Trevor conseguiu tratar sobre um assunto comum que poucos debatem a consequência de perto, e assim abordar a solidão, a mágoa, o relacionamento abusivo e sentimentos reprimidos.

 

Animal Behaviour (2018) – uma terapia com os bichos (Indicado)

Escrito e dirigido pela dupla Alison Snowden e David Fine, o curta, de uma maneira leve, cômica e afiada, em catorze minutos, se propôs a falar de saúde mental.

A premissa simples começa com uma sessão de terapia com seis animais presentes, até chegar Victor, um macaco, que não sabe como se expressar, o que gera situações inesperadas.

Assista ao curta (sem legendas)

“Animal Behaviour” é aproveitável desde o primeiro momento, sabendo inserir diálogos importantes e explorá-los na medida certa. Em poucos minutos, podemos ver crise de ansiedade, insegurança, medo, trauma, mágoa, ódio, impulsividade, sobrecarga e muitos outros comportamentos serem destrinchados até de animais.

Inteligente, leve, objetivo e importante. Assim é “Animal Behaviour”. Através dos bichos podemos refletir sobre as nossas personalidades e complexidades, afinal, não é fácil ser você mesmo.

 

Late Aftermoon (2017) – um passeio pelas memórias (Indicado)

O curta produzido pelo studio CartoonSaloon e digirido por Louise Bagnall trouxe  Emily, uma mulher na terceira idade, que sofre de perdas de Alzheimer.

Em pouco mais de oito minutos, o que animação pôde entregar foi um belo encontro entre cores e sutileza conforme nos apresentava Emily. Através de objetos e formas, a vimos viajar em meio aos lapsos de memórias que tinha e com isso recordar seus momentos de inocência, alegria, perda, decepção e novidade. A par de uma excelente composição com a trilha sonora e arte, fica impossível não se emocionar com os traços de uma vivência esquecida.

Confira o vídeo

Com um jeito único para unir todos esses elementos, em simplicidade e objetividade, “Late Aftermoon” foi capaz dialogar com a maternidade.

Bao (2018) – Sobre a síndrome do ninho vazio (Vencedor)

O vencedor do Oscar 2019 foi responsável por abrir as sessões de “Os Incríveis 2”. O curta-metragem de menos de dez minutos é digno de uma curiosidade primorosa: o primeiro curta da Pixar a ser comandado por uma mulher (Domee Shi). Por mais que tenha esbanjado fofura, o longa ausente de diálogos contado apenas com um fundo musical para compor o drama, retém uma belíssima mensagem.

Assista a uma versão com cortes da curta

A história segue uma mulher de meia idade que, em meio a um momento comum de refeição ao lado de seu marido, nota-se o clima de solidão e distanciamento do casal, vê o bolinho chinês, aqui chamado de Bao, ganhar vida. A partir disso, acompanhamos um relacionamento de mãe e filho florescer quando contemplamos Bao passar por mudanças até alcançar a fase adulta e sair do lar materno.

Até a revelação final, não esperávamos que toda a vivência da mãe e do bolinho se tratava da metáfora sobre ela ter que lidar com a ideia do filho amado ser um adulto que precisa seguir com seus desejos e também se trata de uma espécie de flashbacks expondo toda angústia que ela sentia. Nisso, podemos então atentar, na cena simples de um almoço, como a personagem já transparece uma solidão e que o marido não a compreendia tão bem a ponto de apoiá-la.

“Bao”, de um jeito tocante e envolvente, se dispôs a falar sobre uma terrível perda para os braços maternos, assim como o triste sentimento de sofrimento com a ausência do filho. Em suma, perante muitos estilos e méritos, o que os cinco curtas indicados tiveram em comum é a virtude de falar sobre família e saúde mental.


Gostou do texto? Gosta de escrever também? Seja um colaborador do PontoJão! Entre em contato conosco pelo Twitter, pelo grupo do Telegram ou mande um e-mail para contato@pontojao.com.br

The following two tabs change content below.

Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.