Coluna | Pontoshort #7: Quem Matou Eloá?

Olá, você que acompanha a coluna quinzenal do Pontoshort. Nesse sétimo capítulo, vamos acompanhar um estilo diferente de curta-metragem, com abordagem documentária. O curta “Quem Matou Eloá? ”, ao longo de 24 minutos, se lança numa investida crua para debater o papel da mídia quando se trata da violência contra a mulher. Sem mais delongas…

 

 

Título: Quem Matou Eloá?

Dirigido por: Lívia Perez

Ano: 2015

Estrelas: 5/5

 

Quem Matou Eloá? (2015) – Um crime romantizado pela mídia

O curta venceu diversos prêmios, entre eles “Melhor Curta Paulista” na Semana Paulistana do Curta-metragem; “Melhor Curta-metragem” no Atlantidoc (Festival Internacional de Cinema Documentário do Uruguai) e “Melhor Documentário em Curta-metragem” no Genni Awards (Alliance for Women in Media Southern California). A obra lançada em 2015 se baseou no chocante caso de 2008, no qual Eloá Pimentel teve o apartamento invadido pelo ex-namorado Lindemberg Alves de 22 anos, que fez a jovem e sua amiga Nayara Rodriguez reféns, ambas de 15 anos, por 5 dias. Qual teria sido o desfecho do caso se a mídia não tivesse feito o “seu papel”? Vamos por partes.

Na época, o promotor Augusto Rossini até mesmo pontuou a questão da pressão da mídia em cima do caso e como toda repercussão influenciou na decisão de Lindemberg. Vejamos: a partir do momento em que ficou notória a situação que Eloá se encontrava, a mídia não descansou até conseguir pautas e ficar a par de todo seguimento apenas pelo “furo”. Em algumas imagens do documentário, numa ligação de um repórter para o réu, nota-se que a intenção não estava voltada em intervir para que Eloá saísse ilesa o quanto antes do apartamento, mas de conseguir conversar com Lindemberg; extrair suas palavras acerca do próprio crime.

assista ao documentário abaixo

Daí, parecia que a vida de Eloá não mais importava, o que logo Lindemberg percebeu, e isso alimentou o que ele estava fazendo por saber o quanto seu nome estava sendo difundido à medida que mantinha a jovem refém. O que intensificou o caso foi o fato de Eloá não estar mais sendo vista como alguém que corria risco, mas como vítima de especulações e da culpa por estar ali, sem poder sair das ameaças de um homem nervoso que não aceitou o fim do relacionamento, segundo a mídia.

Olhando atentamente para a forma como Lívia revisitou tudo o que os diversos telejornais passaram em 2009, é possível perceber o quanto a mídia foi equivocada e que faltou sensibilidade para tudo o que aconteceu. E o reflexo que o papel da notícia causou vai desde a quantidade imensa de pessoas no velório – e as câmeras em cima – de Eloá, como também entrevistar a amiga sobrevivente, Nayara, depois de ter sido orientada pela polícia a voltar ao apartamento um dia depois que foi liberada para saber detalhes do crime. Em 2018, a Justiça condenou o estado de São Paulo a indenizar a jovem pelos danos sofridos.

Como também é mencionado no documentário, é como se tudo o que Eloá passou fosse um capítulo dramático de uma novela sem final feliz, mas que precisava ter continuidade: filmar o enterro; o ponto de vista de Nayara, o peso da morte na família de Eloá etc. Sem esquecer que cada mudança acontecia, um tiro, um barulho, qualquer coisa, era narrada e manipulada pelas matérias.

eloá

Além desses pontos absurdos da mídia, o foco do documentário foi destrinchar a forma como a violência contra a mulher era retratada: “homem bêbado mata a mulher”; “homem por ciúme mata a mulher”; “homem por ciúme agride a mulher”; sem debater a forma como as agressões e homicídios aconteciam e a quem se referia, tanto que só em 2015 o feminicídio foi definido como crime no código penal brasileiro. A violência era contra a mulher, mas o criminoso era destacado e tido como um doente, perturbado, sem controle, sem antecedentes criminais, aquele que “sofria de amor” recebia o protagonismo na notícia.

Apesar de ter sido lançado há 3 anos, o curta-metragem é rico por retratar uma mídia que desempenha o mesmo papel. Não importa o quão devastador ou arriscado tenha sido o crime, ainda vale entrevistar uma vítima; não importa o luto, é necessário entrar no velório e registrar imagens até mesmo do caixão sendo carregado e colocado no buraco cavado – sem falar na influência das redes sociais. A filmagem sobre aquele corpo que cai, um corpo baleado, vítima da violência depois do assalto-, tudo isso para que o espectador, no conforto da sua casa, fique a par de tudo.

 


Gostou do texto? Gosta de escrever também? Seja um colaborador do PontoJão! Entre em contato conosco pelo Twitter, pelo grupo do Telegram ou mande um e-mail para contato@pontojao.com.br

The following two tabs change content below.

Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.