Coluna | Pontoshort #03: Redes Sociais

Olá, estamos aqui para mais um capítulo da nossa coluna quinzenal sobre curtas-metragens. Já vimos um pouco de terror, críticas sociais e agora vamos ver um misto de ambos os gêneros ao falarmos sobre redes sociais. Os exemplos são vastos, mas o que as redes têm a dizer sobre o nosso comportamento e personalidade online? Sem demora, podemos nos conectar…

 

What’s On Your Mind? (2014) – A vida legal que não tenho

 

“Minha vida é uma droga”

Título: What’s On Your Mind

Ano: 2014

Escrito e dirigido por: Shaun Higton

Estrelas: 4/5

Lançado dez anos depois do lançamento do Facebook, o curta “What’s On Your Mind” foi um sucesso. Lembro-me de quando não era nem tão habilitado na rede social, mas como em menos de três minutos de duração, a produção sem diálogos, me chamou a atenção. O retrato do curta é tão real quanto assustador.

“No você está pensando? ” Essa é a pergunta que aparece no perfil do usuário do Facebook. Pergunta simples, que instiga a interação. Mas não é qualquer coisa que você esteja pensando que deverá ser postada. Talvez um “bom dia” fosse um primeiro passo certeiro para quem não sabia muito bem o que digitar, mas outros vinham com frases de efeito e reflexões tão belas que levavam os demais a fazerem o mesmo. Uma porrada de frases elegantes diárias, de coisas que nem experimentamos, não eram o suficiente. Hoje, amanhã, depois de amanhã, frases, essas, são o “você está pensando”.

Essa é a dúvida que transita o personagem, Scott Thomsom (Espen Alknes) , no curta-metragem. Sentado no sofá da sala com o notebook online no Facebook, a vida alheia parece ser bem mais interessante que a sua; no lado esquerdo, sua quentinha, aparentemente nada saborosa, repousa, enquanto ele vê uma foto de um prato suculento na rede social; do lado direito, sua namorada (Benedicte Westbye) come pipoca assistindo TV e ele vê a foto de um casal feliz na praia. Tentado pelas comparações, decide, então, fazer uma postagem: “Sushi com minha namorada hoje à noite”.

Assista ao curta-metragem.

A vida profissional parece não ter o retorno esperado. Onde deveria ser um ambiente agradável no qual sentisse fluir bem a sua vocação, é o lugar em que percebe os colegas entediados com suas palavras e esforços. Logo, uma postagem parece ser a solução: “A apresentação foi ótima”. Mais curtidas surgem da vida de mentirinha que Scott publica nas redes sociais, o levando a postar mais e mais status e fotos para obter esse feito.

O que Scott se deu conta é que se ele não tem a vida legal e perfeita que os amigos da rede social postam, o que ele vive não é bom o suficiente a ponto de valer um post digno no final do dia, o jeito é fazer com que se assemelhe a isso ou pareça tão bacana, tentador e divertido quanto para com os outros. Seria mais fácil se pudesse postar a realidade e soar “massa”, assim como postou “Corrida de 20 km. FEITO!”, quando na verdade só saiu do seu Corsa vermelho, aproveitou a passagem e o clima, depois tirou uma bela foto que casou com uma frase certeira.

Se o relacionamento não vai bem e o emprego também não, uma postagem que diz o inverso do que Scott realmente vive é a solução, até cair em si e perceber que depois da mentira o vazio permanece. Além do fato de que perdeu tudo que mais lhe importava. As postagens não funcionavam, sendo que fora da realidade virtual o seu sofrimento era evidente, até chegar ao ponto de dizer “A minha vida é uma droga” e ocultar toda a boa vida que postava no Facebook.

“What’s On Your Mind” é um curta-metragem objetivo, que expôs com maestria uma realidade atual somando um relato intenso, frustrante e cruel, assim como foi para Scott Thomsom.

A Social Life (2016) – Curtidas e mais curtidas

“Você está vivendo a vida que posta? ”

 

Título: A Social Life

Ano: 2016

Escrito e dirigido por: Kerith Lemon

Estrelas: 5/5

Melhor do que simplesmente divulgar ou compartilhar algo da sua vida pessoal nas redes sociais, é ter umas curtidas, não é mesmo? Basta postar tendências que logo as curtidas vêm. Assim pensa Meredith (Rosalind Ross). Ao acordar, se preparar para a corrida matinal, tirar uma foto do tênis esportivo azul e postar com a seguinte legenda “É hora de pegar a estrada”. Depois de chegar do trabalho, separar alguns legumes na tábua da cozinha, tirar uma foto dizendo “Ficando picante”, sugerindo que vai fazer um molho, quando na verdade, não resistiu, e acabou comendo o macarrão instantâneo que estava na geladeira.

Cada vez mais as postagens envolvendo coisas mínimas de sua rotina se tornaram mais comuns, deixando Meredith com mais expectativas para as curtidas nas redes sociais. Não demora muito para que um dia inteiro que passe sem sair de casa se resuma a responder comentários, tirar mais fotos e postar com legendas legais. O tédio toma conta, intensificando a necessidade de a todo tempo verificar o celular, tirando a concentração para outras atividades.

À noite, ainda mais entediada, ela se levanta do sofá em que passou o dia mudando as posições, enquanto ficava focada no aparelho celular. Se produz pondo uma roupa elegante e maquiagem e tira uma foto sugerindo que está indo para um encontro. Na realidade, não existe encontro. E mais uma vez ela espera pelos retornos positivos de várias curtidas, enquanto o seu semblante não condiz nada com a felicidade e vida produtiva de que diz ter no Instagram.

Assista ao curta-metragem.

Refém das próprias postagens, Meredith se vê presa na necessidade de verificar continuamente o celular na esperança de que tenha uma notificação nova indicando que tem uma nova curtida para última foto que postou. Sem respostas, decide tirar uma nova foto, até se dar conta que precisa fazer algo a respeito e sair do ciclo em que vive.

“A Social Life” trabalhou com uma abordagem diferente e interativa junto com o estilo que as redes sociais propõem. Nisso, explorou com excelência o estado em que Meredith vivia, expondo uma realidade que vai além de fotos e curtidas. Talvez, quando não temos mais novas mensagens no WhatsApp e Telegram, nos sentimos tentados a verificar constantemente as notificações e abrir para ter 100% de certeza de que não há mensagem lá, como se o celular apenas tivesse falhado em entregar essa informação.

redes sociais

É, de fato, terrível e assustador quando percebemos o quão estamos presos no que se tratava apenas atividades virtuais comuns nas quais nos permitimos nos afundar. Você está vivendo a vida que posta nas redes sociais? É feliz do jeito que parece? As curtidas preenchem um espaço vazio?

 


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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.