Coluna | Pontoshort #02: Curtas-metragens brasileiros

Olá, aqui estamos para o segundo capítulo da nossa coluna quinzenal sobre curtas-metragens. No texto de hoje, o assunto não é terror. Com curtas nem tão curtos assim, vamos conhecer duas produções brasileiras bastantes curiosas. Sem mais delongas…

 

Miopia (2015) – Se permita enxergar

“Há algum tempo eu desaprendi a diferenciar qual dia era mais cinzento que o outro. Percebi que o amanhã era só uma oportunidade do ontem se repetir novamente”.

Ganhador de cinco prêmios FECUCA (Festival de Curtas dos Calouros): Melhor Filme, Melhor Direção, Melhor Roteiro, Melhor Fotografia e Melhor Produção, “Miopia” foi um curta-metragem para uma disciplina OBVA (Oficina Básica de Audiovisual) da Universidade de Brasília.  Com sete minutos e trinta segundo de duração, tem uma bela mensagem a tratar em seu conceito.

O enredo é o seguinte: Nick (Xandre Martinelli) é um jovem que trabalha como auxiliar de escritório e vive numa sociedade na qual as pessoas deixaram de se tocar. No meio disso, ele mantém uma amizade de longa data com Alice, uma amiga que nunca conheceu pessoalmente.

No decorrer do curta, entendemos como a rotina de Nick é ociosa e entediante, embora ele goste do trabalho que tem. A trama estabelece que, anos a frente, as pessoas não olham mais nos olhos uma das outras e muito menos se tocam. Assim, acompanhando o personagem central dessa narrativa, compreendemos os seus pensamentos a julgar pela sua conversa com Alice, e o melhor, como funciona o relacionamento das pessoas sem interagir, apenas limitadas no mundo virtual.

Assista ao curta “Miopia”

Ironicamente, já é possível traçar a mensagem antes mesmo do desfecho, mas o que vale até lá é a atenção como a filmagem do curta foi feita. De forma isolada e interativa, acompanhamos as mensagens trocadas entre Nick e Alice – com a câmera filmando distante, cortando os olhos do personagem. Ora evitando o foco, ora evitando filmar de frente. Tudo isso enriquecendo o seu texto – sendo que, num primeiro momento, ele contou como identificava os colegas de trabalho baseado na cultura em que vive: pela cor da calça, pela cor da camisa ou pelo que um colega sempre fazia quando chegada em sua sala.

Tudo muda quando Nick propõe a Alice que ambos poderiam se conhecer. Frustrado por não conseguir falar mais com a única pessoa virtualmente com quem ele se importava, Nick é obrigado a enxergar e encarar o mundo pela realidade “real”, que até ele mesmo já estava atrelado mas não se permitia ver e reconhecer. Se as pessoas já não se olhavam e nem se tocavam mais, era porque estavam presas num casulo virtual, míopes, e não se conheciam muito mais além do que as mensagens promoviam. O que, de forma irônica, cutuca em como as pessoas se julgam antes de se avaliarem. E, se parar para pensar, essa realidade não deve estar tão distante assim.

Com isso, Nick entende que enxergar um mundo de cores além da rotina que insistimos em murmurar, é sair do comodismo, pois pode ser um primeiro passo para mudar. “Miopia” não é um curta-metragem perfeito. Apesar de belo em sua fotografia, diálogos e abordagem no formato da câmera, falha por abusar de uma trilhar sonora alta, capaz até mesmo de tornar os diálogos inaudíveis.

 

Alone (2016) – Perdida na solidão

“Faz tempo que tô sozinha, um tempo que não vejo ninguém”.

Está aí mais um curta-metragem belo em sua fotografia. Diferente do anterior, aqui foi possível se afastar da abordagem totalmente técnica e apreciar atuação. Além disso, também foi possível sentir a sua temática graças a investida musicais (sem corromper a voz da narrativa, hehe).

A trama trouxe a história de Carolina (Maria Eduarda Mundy), envolvida numa intensa solidão em que sente falta da interação com as pessoas – de ter as pessoas ao seu redor – e a mais importante é a sua mãe. Nisso, sente o peso de ter que encarar dia após dia numa rotina desgastante, na qual não vê nem mesmo uma razão para levantar da cama e fingir que não está sozinha. Essa é Carolina, que sente a faltar de estar com as pessoas.

Com direção de Luiza T. da Hora – e com grande suporte feminino na equipe -, “Alone” se entrega a um verdadeiro show de fotografia e intensidade para tratar sobre o estado em que Carolina se encontra. A sacada na narrativa aqui foi genial e certeira. Dividida em duas perspectivas, conduz o espectador de maneira cuidadosa e inteligente a fim de que a mensagem aqui seja entendida devidamente.

Assista ao curta “Alone”

Com quase dez minutos de duração, nos quatro primeiros minutos seguimos a primeira visão da narrativa a qual se estende com a descrição de Carolina sobre a sua solidão. Inicialmente, podemos compreender que o curta quis abordar a tristeza, solidão, com toda a exatidão através de uma metáfora. O que não esperávamos era que se sucederia na segunda parte e final.

Na segunda linha narrativa, somos levados a recapitular os passos de Carolina com uma perspectiva diferente. Se anteriormente a descrição se estendia pela sua forma de ver, agora era sobre como as pessoas (sim, as pessoas) a viam. Ao sentar e tomar café da manhã com a mãe e nem percebê-la, ao olhar para um retrato antigo sem se remeter a uma lembrança, ao passar ao lado das pessoas e esbarrar sem sentir.

alone

Para finalizar com maestria e tristeza, Luiza mostra que ainda há mais uma personagem, mais uma visão nessa história: a forma como as pessoas encaram a solidão de Carolina. Ao vê-la afundar, achando estranha, louca, a depressiva, a anormal, nem ao menos sabem como ajudá-la, nem por onde começar e mostrar que ela não estava sozinha.

Profundo, delicado e brilhante, assim é “Alone”. Com direção certeira e virtudes, somando com a atuação perfeita de Maria Eduarda Mundy, ao som de “Sombra” da cantora Pitty, Luiza soube findar um belíssimo conto sobre a solidão e os seus efeitos ao nosso redor.


Curtiu o texto? Conhecia “Alone” ou “Miopia”? Fala para a gente com um comentário aqui embaixo, ou nos nossos grupos do Facebook e do Telegram.

The following two tabs change content below.

Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.