Coluna | Pontoshort #01: Curtas de terror que inspiraram filmes

Curta-metragem: vídeo ou filme curto que se estende até os trinta minutos de duração, no máximo. O curta se desenrola entre vários gêneros: terror, drama, animação, suspense e, a depender do seu estilo e abordagem, tem muito o que dizer e apresentar, assim como um filme de duração convencional que costumamos assistir.

 

Ainda que a Academia de Artes e Ciências Cinematográficas (Oscar) reconheça e indique cinco curtas para somente um deles ser premiado, os curtos filmes são ignorados ou passam despercebidos em sua maioria. No terror, assim como em outros gêneros – na animação, por exemplo –  muitos foram fonte de inspiração para diversos longas que hoje conhecemos. Talvez por se tratar de um curta-metragem, mais uma vez, você pode nem ter sabido das origens, amando ou odiando o filme inspirado.

Neste texto de estreia para a coluna quinzenal “Pontoshort”, começo trazendo um pouco de curiosidade sobre curtas metragens que inspiraram filmes de terror – que tendem ser tão bons quanto as adaptações, e abordam o trauma e a depressão em suas tramas.

 

Monster (2005)

“Se você aparecer aqui sem a minha permissão, eu te mato. Você entendeu?!”

Jennifer Kent se tornou um estouro e foi uma adição muito bem-vinda ao gênero do terror depois do seu belíssimo primeiro filme “O Babadook”. Talvez você não conheça o filme pela sua história, mas por repentinamente um demônio que representa a depressão, luto, a amargura, a fadiga na história de Kent ter se tornado um ícone para o público LGBT.

“Monster”, o curta-metragem de dez minutos, apresentou uma mãe aparentemente cansada, frustrada e cada mais irritada pelo comportamento do seu filho, que insiste que um boneco de pano é na verdade um monstro que afirmou que iria devorá-lo. A mãe incrédula só tentava compreender o filho e manter a paciência, até de fato, contemplar a presença maligna dentro do armário o qual ela tinha escondido o boneco de pano.

Assista ao curta “Monster”

Assustada e cautelosa, ela teme que o monstro volte a assombrar o seu filho. O que ela não sabia era que a entidade já habitava o quarto, escondido debaixo da cama pronto para devorar a criança. Surpreendente! O que vimos em seguida é a mãe enfrentar o demônio e dizer para ele deixar o seu filho em paz, do contrário, se o monstro voltasse a aparecer sem a sua permissão, ela o mataria. Em outras falas, ela disse: “deixe ele em paz”; “volte para o seu quarto”, expondo o medo por uma situação que ela achava ter controle.

Em seguida, ela prende o monstro no armário, alimentando-o com um copo de leite, enquanto na sua casa se instaura uma sensação de paz. A julgar pela resolução e os aspectos da casa mal cuidada, instável e relacionamentos conturbados, o monstro representava toda convivência entre mãe e filho aparentemente abalada por sentimentos que os consumiram.

Curtas de terror que inspiraram filmes
Amelie (Essie Davies) e Samuel (Noah Wiseman) no filme “O Babadook”

Novamente, escrito e dirigido por Kent, o longa “O Babadook”, de 2014, foi uma aposta certeira da cineasta, a qual soube explorar e ampliar muito bem os conceitos e ambientação vistos em “Monster”, dando ainda mais significado para o monstro. No filme, Amelia (Essie Davis) e seu filho Samuel (Noah Wiseman) vivem uma relação instável e conturbada: enquanto a mãe sofre com o luto, o filho insiste em dizer que existe um bicho-papão no seu quarto. As coisas pioram quando um demônio que surgiu de um livro infantil veio para chacoalhar a paz inexistente entre mãe filho.

“O Babadook” é o tipo de filme que passa a sensação de que você não assistiu algo tão bom há tempos, fazendo valer o gênero ao que se propôs, com um terror intenso, melancólico e de tirar o fôlego. Quanto mais se assiste, mais os detalhes tornam o filme ainda melhor. Assista o trailer abaixo e gostar, está disponível no catálogo da Netflix.

 

Mamá (2008)

“Mamãe voltou”

A criança (Victoria) dorme, até que sua irmã (Lili) a acorda, repentinamente assustada, e diz que precisam ir, porque mamãe voltou. Chegando à porta, esperavam o momento certo para escapar. Assustada, Victoria (Berta Ros) se intimida com a presença horripilante de uma mulher na cozinha, que se dirige ferozmente em sua direção. Elas sobem rapidamente as escadas para voltar ao quarto; Lili (Victoria Harris) desesperadamente fecha a porta atrás de si sem esperar a sua irmã, que indefesa e paralisada só espera pela aparição da entidade.

Victoria e Lili no curta “Mamá”

Assim termina o curta com menos de três minutos de duração. Não sabemos o que levou as duas irmãs a essa situação embaraçosa em que precisam lutar pela sobrevivência. Onde estariam os seus pais? Eram órfãs? Foram sequestradas e a casa onde estavam mantinha uma presença diabólica que as tornaram reféns? O mais estranho: por que a quem elas se referiam como “mama” era uma figura demoníaca? Vários contextos podem ser desenvolvidos, mas uma coisa é certa: o curta conseguiu ser assustador e intenso mesmo sem contar muito, somando aqui a caracterização bizarra e intimidante da suposta mamãe.

Atentando para o quesito assustador, foi o suficiente para conduzir o icônico Guillermo Del Toro (conhecido pelo filme “Hellboy”, na época) a investir na produção de um longa-metragem que explorasse mais o cenário curioso do curta “Mamá”. Em 2013, o desenvolvimento da ideia pôde ser visto no filme “Mama”.

Assista ao curta “Mamá”

Dirigido por Andy Muschietti (o mesmo que dirigiu o curta adaptado) trouxe uma mitologia obscura, previsível, e interessante para contar a histórias das irmãs: Victoria (Megan Charpentier) e Lily (Isabelle Nélisse). O pai, Jeffrey (Nikolaj Coster-Waldau), se envolveu num tenebroso crime: assassinou a própria esposa, em seguida tentou se suicidar e matar também as filhas causando um acidente de carro na estrada. Falhando, acaba caindo numa floresta e se abrigando na pequena cabana próxima dali, ao tentar mais vez matar a filha, é impedido por uma entidade. Cinco anos depois, as duas irmãs são encontradas. Abaladas, as meninas demonstram comportamentos estranhos. Aparentemente conversam e se alegram com uma entidade que chamam de “mama”, enquanto coisas estranhas acontecem na casa do casal Lucas (gêmeo de Jeffrey) e Annabel (Jessica Chastain).

Como dito, o filme é previsível, mas ainda é curioso por tentar criar situações tensas e não convencionais para instaurar o terror. Oscilando entre erros e acertos, o abuso do CGI é um dos aspectos que mais o desvaloriza. Mas ainda assim, “Mama” vale por ter feito uma boa adaptação e ser interessante ao explorar a importância e o papel da mãe na vida de um filho – lembrando muitíssimo alguns aspectos do filme “O Chamado”.

Assista ao trailer do filme abaixo.

 

Lights Out (2013)

“Medo de apagar as luzes e…”

A noite é chuvosa. Uma mulher percorre o corredor do seu apartamento e apaga a luz para enfim seguir em direção ao seu quarto. De repente, nota a silhueta de uma mulher no escuro. Volta a acender a luz, a presença some. Faz isso por três vezes seguidas, até que na quarta vez, a silhueta se revela como um corpo nu de uma mulher de costas.

Para se tranquilizar e saber que pelo menos conseguiria dormir, prende o interruptor da lâmpada do corredor com uma fita para que não se apague. Oscilante, tenta dormir, mas um ranger insistente do lado de fora do quarto a impede… Logo a luz do corredor volta a se apagar. A luz oscilante – graças a presença da entidade feminina – do abajur é a única opção que lhe resta. Por um momento, as coisas ao seu redor pareciam normais, até que a luz volta a se apagar…

Cena do curta “Lights Out”

O curta-metragem de 2013 foi escrito e dirigido pelo youtuber David F. Sandberg contando com a atuação da sua esposa (que também é atriz e produtora) Lotta Losten. Não é muito difícil encontrar os curtas do diretor no YouTube, basta pesquisar por um curta de terror que poderá esbarrar em algum vídeo dele. E “Lights Out” é um dos mais famosos dele.

O curta, com menos de três minutos de duração, o jump scare básico, filmagem simples e o talento cativante de Lotta Losten, sabe assustar na medida certa sem parecer forçado. Tamanho sucesso rendeu a David não só o prêmio de Melhor Diretor no Bloody Cuts Horror, em 2013, como também um longa-metragem inspirado no curta, tendo o roteiro escrito por Eric Heisserer e dirigido pelo próprio David.

Assista ao curta “Light Out”

Como não poderia deixar de ser, o filme foi um tremendo sucesso rendendo uma trama terror de qualidade. Com familiaridades com a temática e abordagem de “O Babadook” – filme e curta -, “Quando as Luzes se Apagam” trabalha em cima da metáfora sobre a depressão. No primeiro momento, o enredo pode parecer ser mais do mesmo, mas graças a execução de David e todos os truques para tornar a luz um símbolo para o filme e sua história, dialoga sobre os impactos da depressão para aquele que sofre, assim como para as pessoas ao seu redor.

Curtas que inspiraram filmes de terror
Cena do filme “Quando as Luzes se Apagam”

Na trama, Rebecca (Teresa Palmer) tenta a todo custo proteger o seu irmão Martin (Gabriel Mateman) que, como tudo indicava, parecia sofrer do mesmo problema que ela sofreu quando era criança: o medo do escuro por acreditar ser perseguida por uma mulher. A tensão se desenvolve até descobrir que o verdadeiro motivo que desencadeia esse acontecimento vem de alguém muito próximo: sua mãe, Sophie (Maria Bello).

Para quem procura por um bom filme de terror, “Quando as Luzes se Apagam” pode ser considerado uma boa opção, valendo muito a pena ao incorporar o terror e o drama familiar – cá entre nós, ficaria ainda melhor com a primeira versão do roteiro. Assista ao trailer do filme abaixo.


Sentiu falta de algum curta-metragem que inspirou outros filmes de terror? Notaram como os três trataram em sua temática e abordagem sobre o trauma e a depressão? Comente aí embaixo ou nos conte diretamente no nosso grupo do Facebook ou do Telegram.

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Felipe Oliveira

Gosto de tudo um pouco, mas me limito em não arriscar muito e talvez escrever seja o meu momento mais sincero no qual posso expor minhas ideias e pensamentos.