Ponto dos Bananas: Quando Joyce caiu no Samba

Em pleno Bloomsday, quando se comemora o dia em que se passa a ação de “Ulysses”, o espírito de James Joyce foi convidado ao nosso terreiro e resolveu radicalizar. Adaptando sua semiótica narrativa ao contexto brasileiro, aplicando ao seu stream of consciousness a ginga e malemolência tupiniquins, ele manda uma releitura de sua obra prima. Com vocês, “Ulysses” em ritmo de samba-enredo, e com tradução simultânea do dicionarista, carnavalesco e também falecido Antonio Houaiss. Nota dez em alegoria, enredo, fantasia e fluxo narrativo-metafórico.

Joyce

Puxador: Olha o Ulysses aí, geeeente! O G.R.E.S. Unidos da Mocidade Independente Joyceana saúda e pede passagem!

(Entra a bateria e começa o samba)

Foi num tempo glorioso
Que eu mesmo escrevi de próprio punho
Esse romance esplendoroso
Que se passa todo em 16 de junho
Com tanta ginga narrativa
E muita manha no monólogo interior
Construiu-se uma lenda viva
Que aqui eu canto, esquindô, esquindô!
Eis que então aparecem no cenário
Os dois personagens principais
Leopold Bloom, o herói do itinerário
Stephen Dedalus, de birras filosofais
De manhã se econtram na biblioteca
Passando então a debater teologia
E ainda sobra espaço (com a breca!)
Pra reinterpretarem Shakespeare!

(Estribilho)
Salve, salve a epopeia
Encenada em Dublin
No meio da verborréia
Entro com meu tamborim!

Abro a cortina da minha melodia
Pra colocar no samba outros personagens
Que aparecem no decorrer do dia
Num ritmado exercício de linguagem:
Molly Bloom, que vive chifrando o marido
Com Blazes Boylan, Ricardão bem irlandês
Buck Mulligan, poeta corrompido
Que pra Stephen é um pequeno-burguês
Gerty McDowell, a mocinha caliente
Pra quem Leopold bate cinco contra um
Martha Cardiff, a tal correspondente
Que namora por correio com o Bloom
E tantos outros, fazendo figuração
Que na minha intenção (e sou sincero)
Foram inseridos pra traçar comparação
Com a outra Odisseia, a do Homero!

(Estribilho)
Salve, salve a epopeia
Encenada em Dublin
No meio da verborréia
Entro com meu tamborim!

Antes que as lembranças me pifem
Os lugares da história vou cantar
A torre Martello, residência de Stephen
E a Cervejaria Guinness (grande bar!)
O Freeman’s Journal, onde Bloom bate o ponto
E o endereço do herói, na Eccles Street
O bordel de Bella Cohen, nem te conto,
Pra machaiada da cidade é um convite
Pois lá à noite Dedalus leva uma tunda
Por proferir à Monarquia um desaforo
De tanto apanhar o rapaz fica corcunda
Por falar tanto quase lhe arrancam o couro
Aí Leopold sai carregando o coitado
E assim termina o grande dia 16
E pra quem ficou boiando no babado
Não tem problema: eu conto outra vez!

(Estribilho)
Salve, salve a epopeia
Encenada em Dublin
No meio da verborreia
Entro com meu tamborim!

Salve, salve o calhamaço
Que de ler todos têm medo
Pois acerto o meu passo
E jogo num samba-enredo!

(Repique da bateria. O ritmo ferve na ala das baianas dublinenses. O puxador recomeça o samba)

Esse texto humorístico foi publicado originalmente na sessão Fazendo Médium do site República dos Bananas.

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