Ponto dos Bananas: Cary Grant – O Homem que Ainda Sonhamos Ser

“Todo mundo quer ser Cary Grant. Até eu quero ser Cary Grant” disse uma vez o ator britânico Archibald Alexander Leach. A diferença entre nós e Archie é que, ao contrário de mim e de você, ele conseguiu. Sua fórmula: “Eu fingi ser a pessoa que eu queria ser até que finalmente me tornei essa pessoa. Ou ela se transformou em mim”. Durante a rodagem de seu melhor filme, Intriga Internacional, Grant um dia simplesmente saiu do elevador do Plaza de Nova York e, sem trocar uma palavra sequer com o diretor Alfred Hitchcock ou com a produção, completou sua cena – atravessar o salão, passar pelas pessoas e atender o telefone – e sem sair do campo de visão da câmera!

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Quando perguntaram a Hitchcock como ele sabia exatamente o que fazer, o diretor deu de ombros e respondeu: “Ele andou nesse salão a vida inteira. O que eu posso dizer que ele não saiba? ”

Na verdade, Archie começou sua vida bem longe de qualquer hotel de primeira categoria. Depois de ser expulso do colégio Fairfield Grammar School aos treze anos de idade – por espiar o banheiro das meninas através de um buraco na parede (ou por roubar os colegas, conforme a versão que se queira acreditar) o menino desmazelado e malvestido foi expulso e juntou-se à uma trupe de comediantes comandada por Bob Pender.

Sua mãe tinha morrido quando ele tinha 10 anos – ou pelo menos era isso que seu pai havia dito (Passariam 20 anos até que ele soubesse da verdade – que sua mãe estava viva e internada em um sanatório.) Foi com a trupe de Pender que ele chegou à América em 1920, para uma temporada inicialmente prevista de dois anos. No processo, o artista circense da classe operária de Bristol, com uma precária educação formal, que andava em pernas de pau com máscaras de papel maché, começou a se transformar na pessoa que ele queria – o galã sofisticado, que mesmo diante dos olhos experimentados de Hitchcock parecia ter passado a vida inteira desfilando pelos corredores do mais sofisticado hotel de Nova York. Quando ainda não havia se livrado totalmente do sotaque pesado que denunciava sua origem simples, Grant trabalhou como “scort” para diversas damas da sociedade – como aliás Marlon Brando e Clark Gable também fizeram – e especula-se se a atriz Mae West, que conduzia na mesma época um solicitado serviço de acompanhantes – não teria sido sua patroa.

De qualquer forma, foi a experiência com West, iniciada em 1933 com o filme Uma Loura Para Três (She Done Him Wrong) – o oitavo filme de Grant – que fez ele começar a moldar sua persona cinematográfica. Como conta Marc Eliot no livro Cary Grant, “seu distanciamento nas telas, um reflexo de nada menos do que sua incerteza de como interpretar uma cena ao lado da devoradora de homens West, foi tomada pelo público como se fosse exatamente o oposto: uma resistência máscula e moral aos apelos da personagem de Mae – e criou um novo tipo romântico e sofisticado de personagem, não apenas para Grant mas para as legiões de atores que viriam a imitá-lo. ”

“Eu copiei outros estilos que eu tinha visto e me tornei um amontoado de pessoas – e por fim eu mesmo’ – disse Grant em uma entrevista – “Quando eu era um jovem ator, colocava a mão no bolso tentando parecer relaxado. Ao invés disso, eu parecia congelado com minha mão ensopada de suor enterrada em minha calça. ” Se Brando bateu de frente com o sistema ao recusar o Oscar por “O Poderoso Chefão”, Grant fez pior: Na década de 30, quando os estúdios dominavam o negócio, Grant chocou a todos ao recusar as ofertas de todos os majors e decidir tornar-se independente, trabalhando apenas em filmes escolhidos, sem nenhum vínculo empregatício. Para reforçar sua atitude, cancelou sua filiação à Academia.

Se isso não fosse suficiente para chocar, Grant ainda por cima fazia pouco (ou nenhum) esforço para esconder seu caso de 11 anos com o ator Randolph Scott, a quem ele conheceu durante a filmagem de Sábado Alegre (Hot Saturday), em 1932, um romance que sobreviveu mesmo à aproximação de ambos com mulheres. Quando foram morar juntos, Grant e Scott iam às festas vestidos da mesma forma, geralmente como arlequins, mas pelo menos em uma ocasião compareceram usando vestidos iguais.

A vida sexual de ambos era morna – o casamento se baseava muito mais nos gostos que compartilhavam – bebidas, cigarros, roupas caras e um senso de humor agudo e maldoso – do que na cama. Mas, como dissemos, o romance com Scott não tornava Grant indiferente às mulheres. Grant casou-se com Virginia Cherrill, que interpretou a garota cega no filme de seu amante Charles Chaplin “Luzes da Cidade” A segunda mulher de Grant foi Barbara Hutton, a “pobre menina rica” uma das herdeiras da cadeia de lojas Wollworth, a milionária que a América amava odiar. A imprensa rapidamente batizou o casal de “Cash and Cary’s” – o equivalente em português poderia ser “Cary Grana”.

Barbara era significativamente menos atraente do que Grant e o FBI desconfiava que ela mandava dinheiro para os nazistas através de um de seus maridos anteriores (aliás, o chefão do FBI, John Hoover, chegou a pedir a Grant para espionar a noiva). Ela vinha de uma história complicada – sua mãe tinha se suicidado quando Barbara tinha apenas seis anos. A indiferença de seu pai – uma das possíveis causas do suicídio da mãe – a levou a passar de casa em casa. O casamento não deu certo – e Grant, que parecia genuinamente interessado por ela, nunca quis um tostão de sua enorme fortuna. Ao morrer em 1972 ela estava totalmente falida, tendo gasto todo seu dinheiro na compra de bebidas e da atenção de rapazes mais jovens – sua herança de 50 milhões de dólares estava reduzida a 3 mil dólares.

Com sua terceira esposa, a atriz Betsy Drake, veio como bônus seu primeiro conjunto de experimentos com LSD, que ele testou e aprovou publicamente. Com a quarta esposa, a atriz Dyan Cannon, 33 anos mais jovem que ele e mãe de sua única filha, Jennifer, veio o hábito de espancar a mulher quando esta o desobedecia. Para a mitologia do ator, é difícil saber o que é mais complicado de acreditar: Grant viajando com ácido lisérgico (Cary Grant hippie?!) ou batendo em mulher (seguramente nenhum diretor o escalaria para fazer isso em nenhum filme – o público não compraria a ideia).

Enfim, de vez em quando Leach esquecia que era Cary Grant.

O que não o impede de seguir como a síntese do cool e o homem que todos nós ainda sonhamos em ser. Leach morreu em 1986.
Grant segue vivo e – como dizem os argentinos – cada dia está mais elegante.

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Esse texto humorístico foi publicado originalmente na sessão Cool de “A” a “Z” do site República dos Bananas.

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