Ponte dos Espiões (2015)

“-Precisamos nos preocupar com você?

-Não se me deixarem fazer o meu trabalho.”

e398714e-6e24-4cbc-bbab-ac8e80ee4356

Título: Ponte dos Espiões (“Bridge of Spies“)

Diretor: Steven Spielberg

Ano: 2015

Pipocas: 7/10

Não creio no mito da opinião imparcial. Por mais que você não tenha interesses diretos na questão discutida no momento, sua visão de mundo está imbuída de suas experiências prévias, seus sentimentos em relação ao conflito em si e, principalmente, a imagens que foram construídas sobre as partes envolvidas. Embora “Ponte dos Espiões” desconstrua o gênero de filmes de espionagem, ele falha em usar a mesma abordagem em relação aos Estados Unidos e a União Soviética, caindo nos velhos lugares-comuns e acrescentando pouco ao legado da lendária parceria Spielberg/Hanks.

O filme é baseado em fatos, e relata a história de James B. Donovan, um bem-sucedido advogado estadunidense o qual recebe a difícil missão de defender um espião soviético, Rudolf Abel (Mark Rylance, indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante), de suas acusações de espionagem. Após orquestrar uma reviravolta no caso, Donovan é convocado para representar os Estados Unidos de forma não-oficial na negociação e troca de Abel por um espião estadunidense que fora capturado em solo soviético. Assim, o advogado se vê subitamente fora de seu elemento, obrigado a agir com pouco suporte em um território totalmente hostil – a recém-dividida Berlim, no auge da Guerra Fria.

O filme cheira a Oscar de longe. Assim como Argo (2012), ganhador do Oscar de Melhor Filme em 2013, “Ponte dos Espiões” é um ode a como o americano (estadunidense) comum é capaz de vencer quaisquer adversidades e sacrificar a si mesmo e o que mais lhe pedirem em nome de sua nação. Embora sejam valores de fato louváveis, o longa acaba por esquecer que ambos os lados são dotados de tais pessoas em suas fileiras – principalmente no conflito ideológico da Guerra Fria.

os-bridge-of-spies-trailer-tom-hanks-20150616
Mark Rylance e Tom Hanks.

Ainda assim, é visível que o filme se esforça para dar à sua narrativa alguma imparcialidade. Desde a própria questão de um espião soviético receber o julgamento como um cidadão estadunidense receberia, até eximir o espião de culpa ao constatar que ele estava simplesmente fazendo o seu trabalho, “Ponte dos Espiões” não parece estar confortável com uma visão dualista de mundo – o que não significa que ele seja bem-sucedido em sua empreitada.

Talvez em uma das sequências mais absurdas do filme, vemos o espião dos EUA sendo torturado em uma base na União Soviética. Impedido de dormir e encharcado, ele é interrogado friamente por agentes soviéticos que buscam extrair informações dele. Esta cena imediatamente é contraposta com a imagem do espião soviético sendo agradavelmente acordado por um agente federal em sua prisão, para ser transportado para outro lugar. Embora tais acontecimentos possam ter decorrido assim neste caso em específico – o que é passível de dúvidas -, acaba por destruir os esforços do filme em mostrar como EUA e URSS são somente dois lados da mesma moeda, caindo na mesma dicotomia desinteressante de sempre.

Bridge-of-Spies-7

É verdade, contudo, que este maniqueísmo não se restringe somente aos soviéticos. Abordado por um agente do governo dos Estados Unidos que pedia informações sigilosas de seu cliente espião, Donovan é taxativo em sua resposta:

“Meu nome é Donovan. Irlandês, dos dois lados. Mãe e pai. Sou irlandês e você é alemão. Mas o que faz de nós dois americanos (sic)? Apenas uma coisa. Uma. Apenas uma. O livro de regras. Chamamos ele de Constituição, e concordamos com suas regras, e é isso que nos faz americanos. Isso é o que faz todos nós americanos. Então não me diga que não há livro de regras.”

Donovan expõe, assim, a linha que não está disposto a cruzar. Mesmo dentro deste conflito, entre dois americanos, o roteiro se dispõe a dividir o que seriam americanos de verdade e aqueles que não o são; os primeiros são aqueles que seguem as regras. Os que não o fazem simplesmente não são americanos – o que nos leva a pergunta de quantos americanos na história do país não o são verdadeiramente.

Em termos técnicos, o filme é muito bem executado – o que era de se esperar, vindo de um diretor do porte de Steven Spielberg. A direção não é inovadora, mas a trama se desenvolve de maneira bela e clara, que não deixa espaço para dúvidas em relação ao roteiro, com o uso de uma fotografia incrível. Vale a pena, inclusive, ressaltar que, apesar do nome, este não é um filme de espionagem: é um filme de drama histórico envolvendo espiões, sem o glamour com o qual estamos acostumados.

bride-spies-tom-hanks-trailer

Em adição a isso, o elenco está em ótima forma. Tom Hanks carrega Donovan com a facilidade que só a experiência traz, enquanto Mark Rylance entrega um dos espiõesmais simpáticos e doces do cinema. Por conseguir cumprir com sucesso a difícil missão de fazer um espião soviético agradável, Rylance foi indicado ao Oscar de Melhor Ator Coadjuvante. Amy Ryan, no papel de Mary Donovan, esposa de James, também se entrega com maestria, em sintonia com o tom do filme.

BRIDGE OF SPIES

No todo, “Ponte dos Espiões” é um filme interessante e competente, mas com pouco valor histórico ou humano. De qualquer forma, vale ser assistido no conforto de seu lar com sua família. Não vai demandar muito de você, e com certeza vai agradar seus pais e avós.

 

The following two tabs change content below.

erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.