Análise | Planeta dos Macacos (2011-2017) – a história que o clássico precisava

Este texto contém spoilers sobre a última trilogia, incluindo “Planeta dos Macacos: A Guerra”.

Era uma vez uma nave espacial. A missão dos tripulantes dessa nave era testar a teoria de dilatação do tempo, que diz, em termos leigos, que o tempo passa de maneira diferente para endereços espaciais diferentes. Eles concluem o experimento com sucesso e a nave cai em um planeta desconhecido, no qual a humanidade é primitiva e o mundo é dominado por macacos inteligentes.

E assim começa a saga “Planeta dos Macacos”, que, após altos e baixos, ganhou em 2011 uma trilogia para finalmente explicar a origem dessa sociedade macacal pelas mãos de Matt Reeves, até então conhecido pelo filme “Cloverfield: Monstro” e pela série “Felicity”.

O caminho até aqui

caesar

Em “Planeta dos Macacos: A Origem”, acompanhamos o início da história de Caesar (Andy Serkis), um jovem chimpanzé usado como cobaia para os experimentos científicos de Will Rodman (James Franco). Caesar desenvolve inteligência “humana” ao ser exposto a um gás experimental e lidera uma fuga em massa do cativeiro ao qual foi confinado depois de atacar um humano para defender outro humano.

No segundo filme da trilogia, “Planeta dos Macacos: O Confronto“, Caesar está mais experiente e lidera um grande vilarejo de macacos no meio da floresta, longe dos humanos. Porém, devido à “gripe símia”, uma doença que deixa os homens com características primitivas e os macacos mais evoluídos, um grupo de resistência humano entra em guerra com a pequena nação de Caesar.

Koba (Toby Kebbell) é o antagonista dessa trama, servindo como um general imediato de Caesar que o traiu. A diferença de pontos de vista entre Caesar e Koba é semelhante à existente entre Martin Luther King e Malcolm X, ou, dentro da cultura pop, Charles Xavier e Magneto. Enquanto um via a possibilidade de paz entre os povos, o outro acreditava que a guerra era inevitável e teria vantagem aquele que atacasse primeiro.

A guerra

planeta dos macacos

Por fim, o ultimo filme da franquia. Encontramos um Caesar mais velho, mais cansado. A presença de Koba, morto no flme anterior, é uma lembrança constante e ensina ao líder dos macacos que o sacrifício é intrínseco à guerra, e que a lei “macacos não matam macacos” representa um desafio maior quando o termo “traição” é o xis da questão.

Com a humanidade em decadência, o medo da extinção joga humanos contra macacos, que por sua vez lutam com outros humanos. No meio dessa confusão de inimigos, a população atônita se agarra à esperança de um futuro melhor.  Na trama do longa, essa esperança pode vir na forma da pesquisa de uma cura para a gripe símia, ou quem sabe se afastar de tudo e tentar sobreviver isolado… Talvez tentar eliminar os macacos, uma vez que são eles os vetores da doença que está tirando dos homens habilidades que antes os definiam como humanos.

mccullough

Esse é o pensamento do “vilão” dessa história. Como todo líder fascista, o coronel McCullough (Woody Harrelson) se aproveita desse momento derradeiro de crise para subir ao poder. É nesse tipo de situação que os discursos inflamados dão ao povo um uma direção a ser seguida, uma fraca luz no fim de um túnel cheio de conceitos deturpados. Ceasar, por outro lado, tem consigo o respeito do seu povo, não o medo. Aqui, todo o peso da construção do caráter da personagem, desde que era “apenas” um macaco doméstico inteligente no primeiro filme, recai na figura do “líder” Caesar.

É louvável que a direção de Matt Reeves consiga trabalhar as lideranças das facções praticamente sem diálogos (falados). Caesar sempre está no mesmo nível do resto dos macacos, enquanto o coronel McCullough se mostra alguém muito superior, quase intocável, um messias para quem se deve olhar de baixo.

A última visão

caesar

Às vezes me pego refletindo sobre o significado de cada parte da vida. O que torna “um momento” histórico? Por que algumas lembranças são tão marcantes? A minha resposta, hoje, é que isso depende do quanto eu estou realmente presente enquanto a vida acontece ao meu redor.

Para ilustrar, devo dizer que “Planeta dos Macacos: A Guerra” é um filme repleto do momento mais derradeiro da história de qualquer pessoa: a morte. Todos os macacos que fazem parte da jornada de Caesar morrem contemplando uma emoção, uma característica humana como ódio, afeto, medo, arrependimento, dentre outras.

Por exemplo, Luca, o gorila da trupe vingativa de Caesar, morre apreciando o afeto no rosto inocente de Nova, a criancinha que Maurice resgata. Red Donkey (um dos “Jumentos”, na tradução brasileira), o gorila que vigia Caesar no campo de concentração, morre ao se arrepender de sua traição. A Caesar, entretanto, é reservada uma última visão, diferente de todos os outros. Ele não viu ódio, não viu guerra, não viu medo e nem tristeza; ele viu o futuro da maneira mais “humana” possível.

planeta dos macacos

É assim que “Planeta dos Macacos” encerra sua trilogia prequel com a glória de ter feito uma história absurda ser levada a sério a partir de grandes construções de personagens que nem humanos eram. Com habilidade e personalidade, Caesar nos lembra que o que nos torna humanos transcende nossos genes, encontrando abrigo dentro das emoções que cultivamos dentro de nós.

The following two tabs change content below.