Papa-Capim – Noite Branca (2016)

É inegável que Mauricio de Sousa é um dos maiores cartunistas do Brasil, suas histórias leves e divertidas conseguiram cativar várias gerações de jovens leitores pelo país. E após o sucesso do MSP 50, projeto de 2009 onde outros artistas homenageavam o cinquentenário do autor, outro projeto foi iniciado: o Graphic MSP.

Nessa nova linha de publicações (ótima, por sinal), artistas variados fazem releituras dos consagrados personagens de Maurício. O primeiro lançamento, em 2012, foi “Astronauta – Magnetar”, seguido de “Turma da Mônica – Laços” e “Bidu – Caminhos”, todas apresentando histórias um pouco mais adultas em variados gêneros, mas sem perder a nostalgia e a essência das personagens criadas por Mauricio. E agora, após quatro anos de publicações, foi lançado Papa Capim – Noite Branca, a primeira história de terror do projeto.

Graphic MSP Papa-Capim

Tenho que admitir que apesar de ter crescido lendo as criações do Maurício, inclusive aprendi a ler com elas, as histórias do indiozinho nunca foram minhas preferidas. Nunca consegui me apegar aos personagens; a única memória realmente boa que tenho com elas é em uma história em que Papa-Capim salva uma onça. Apesar disso, gostei bastante de todas as Graphics, e achei que não iria gostar tanto por não ter esse sentimento pelo personagem… E talvez eu estivesse certo.

A história gira em torno de uma ameaça sobrenatural que pode acabar com todos os membros da aldeia de Papa-Capim, de forma que o jovem índio tem a missão de a deter, além de conseguir convencer o pajé de que, mesmo com a pouca idade, é a pessoa certa para essa tarefa. O início é muito bom; o roteiro é trabalho de Marcela Godoy, com a apresentação aos personagens feita bem rapidamente, e em poucas páginas já temos todo o panorama de como a história irá continuar – inclusive uma cena muito boa onde somos apresentados ao “ser” título do quadrinho.

Só que a partir daí tudo ganha um ritmo muito acelerado, e os eventos ocorrem tão rapidamente que a maioria das ações não é sentida. Não temos tempo para digerir nada e acaba que não acontece a identificação necessária com os personagens – ponto-chave de histórias desse gênero. Inclusive, todo o desfecho é fácil demais, e fica a sensação de que a ameaça principal nem é tão ameaçadora assim.

Papa-capim graphic MSP

Um ponto positivo é a inserção de vários elementos da mitologia indígena na história, que, apesar dos pesares, é bastante interessante, e cria uma curiosidade no leitor; certamente após terminar de ler você vai querer pesquisar e descobrir mais sobre o assunto. Afinal, toda a mitologia indígena é riquíssima e merece ser reconhecida.

Os desenhos ficam por conta de Renato Guedes, que com seus traços inicialmente estranhos, trazem um certo realismo aos personagens. As paisagens são simples, mas bastante bonitas e trazem bastante esse espírito da natureza. Mas a parte mais bonita são os animais, que misturam o realismo com uma aura meio fantástica que casa muito bem com a história no decorrer das páginas.

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Certamente a pior história do selo, mas que muito provavelmente deve valer para fãs do personagem ou pessoas interessadas pela mitologia indígena, Papa-Capim – Noite Branca mostra que nem sempre um bom conceito salva uma história (curiosamente, um problema recorrente no gênero terror). Ainda assim, vale pela adição variada ao grande legado da Maurício de Sousa Produções.

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Lucas Bulhões

Estudante de programação que odeia programar e que se arrisca a escrever nas horas vagas. Sonha em conhecer todo mundo sem ao menos conhecer a si mesmo. Libriano não praticante.