Os vários filósofos da nostalgia: a crítica, o muro e o cinismo

Vivemos um momento de retomada de grandes sucessos do passado. O retorno de franquias, a adaptação de livros famosos antigamente e a criação de conteúdos baseados em referências são evidências de que as indústrias encontram um mercado deveras expressivo na nostalgia.

Nostalgia é uma palavra de origem grega (nostos + algia) que representava o sentimento dos viajantes que lembravam da família ou da terra natal de maneira melancólica. A importância da Grécia Antiga para esse assunto vai além da etimologia da palavra, podemos dizer que dois momentos gregos históricos se destacam pela relevância cultural ainda nos dias de hoje, são eles o Clássico e o Helenístico.

nostalgia

O período Clássico se destaca pelo desenvolvimento político, militar e pelas atuais adaptações cinematográficas em slow motion. O Helenístico, pela diversidade e expressividade cultural e o desenvolvimento da filosofia. E é aqui que a cultura grega nos ajuda a falar sobre a nostalgia.

A filosofia helenística se divide basicamente entre oito escolas filosóficas e a nossa indústria cultural atual parece inspirar um comportamento nostálgico que representa muito bem quatro dessas divisões: Cética, Estoica, Epicurista e Cínica.

O drama

Em um belo dia ensolarado de outono, internautas estão serena e alegremente reclamando da vida. É nesse momento que um grande estúdio anuncia o remake ou continuação daquele filme clássico dos anos 80/90!

Façamos agora uma análise sincrônica dos discursos:

“NÃO MEXAM NO MEU (adicione aqui uma obra)!”

O barulho mais forte sempre vem do lado mais insatisfeito. A caixa alta e os urros dos fãs ferrenhos da obra original, podem ser traduzidos como a satisfação plena com aquilo que já foi apresentado. Não haveria, portanto, a necessidade de adicionar novos conceitos ou de se fazer uma releitura com linguagem mais atual.

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A esse comportamento daremos o nome de “nostalgia epicurista”. Uma das características da filosofia epicurista é a ataraxia, isto é, o comportamento apático, perene e sem perturbação nos sentidos.

 

“Não vou julgar. Só dá para falar quando sair. Também reclamaram quando o Heath Ledger foi escolhido para Coringa… Olha aí.”

O famoso “em cima do muro”. O grupo que não quer crucificar a ideia sem que ela sequer tenha tomado forma. É o pensamento nostálgico cético.

Para os céticos, tudo o que que não seja evidente naquele momento não pode ser julgado ou definido por algum juízo de valor. Enquanto para os nostálgicos epicuristas a ataraxia é “não poder mudar nada”, para os céticos é a permanência da dúvida.

“Acho que vai ser bom para a franquia, já ficou datada.”

São os extremos opostos aos nostálgicos epicuristas. Se relacionam diretamente com o Estoicismo, a escola filosófica que defende a imprevisibilidade e as constantes transformações que o universo sofre.

Um remake que precisava ser feito?

Uma característica do Estoicismo foi a longevidade, sendo a corrente filosófica de maior resistência no período helenístico. Pensando bem, há chance de que as produtoras em geral compartilhem do pensamento estoico.

 

“Se realmente for acrescentar ao universo, acho legal. Só não podem fazer simplesmente para ganhar dinheiro.”

Por fim, temos os paladinos da cultura pop. Aqueles puros, sem maldade no coração, que acreditam que as produtoras podem sim dar sequência ou refazer uma obra pelo simples fato de que ela é realmente muito boa.

Assim como os nossos inocentes amigos, os cínicos acreditavam na virtude em detrimento da culpa. O que hoje são os “pecados capitais”, os “defeitos” do homem, já eram conceitos malvistos pelos cínicos antes do surgimento da filosofia cristã.

E você? É um cínico, estoico, cético, epicurista ou prefere não ser rotulado por esse tipo de pensamento?

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