Os Portões (2015)

PORTOESLivro: Os Portões

Autor: John Connolly

Ano: 2015

Editora: Bertrand Brasil

São poucos os autores que se aventuram a andar sobre a navalha que é escrever livros para todas as idades. O sucesso, mesmo quando focados em nicho, é algo complexo; quando se alarga o público-alvo, seus elementos têm de estar muito bem equilibrados para alcançar um resultado satisfatório. John Connolly me mostrou em seu primeiro livro lançado pela Bertrand Brasil, “O Livro das Coisas Perdidas”, que é um desses poucos capazes, andando na companhia de nomes como Neil Gaiman e CS Lewis. Apesar disso, “Os Portões” é um livro abaixo do que o autor mostrou em sua obra anterior, embora ainda esteja acima da média do oferecido no mercado infanto-juvenil.

“Os Portões” conta a história de Samuel Johnson, um jovem e peculiar garoto, com uma inteligência e perspicácia acima da média. Na companhia de seu igualmente esperto cachorro Boswell, Samuel descobre, por acidente, que demônios mataram e estão se passando por seus vizinhos, e que eles têm como objetivo imediato abrir um portão para o inferno para a vinda da entidade suprema do mal, o Grande Malevolente – e, de brinde, matar o garoto e todos relacionados a ele.

thegates.jpg crop=0px%2C1176px%2C1538px%2C1030px&resize=446%2C299Um dos grandes diferenciais de John Connolly ao escrever é seu senso de humor, muitas vezes negro, que é mesclado à história de forma natural. Aqui em “Os Portões”, Connolly o faz através de (por vezes longas) notas de rodapé que comentam ou explicam algum ponto do texto – e muitas vezes vão bem além do que era inicialmente pretendido ou necessário, tornando-se um apêndice divertido por parte do autor.

A abordagem mais adulta do livro se dá pelo elemento científico. Aqui, é o acelerador de partículas do CERN que, em um mau funcionamento, é tomado por entidades malignas e usado para abrir o portal do título. Explicações lúdicas sobre o que é e como funcionam buracos negros, buracos de minhoca e física quântica diversa, também nas notas de rodapé, contêm brincadeiras e trocadilhos que os menores certamente não vão pegar.

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O autor, John Connolly.

Outro ponto trabalhado por Connolly nesse livro é a questão da relativização do bem e do mal. Tomando um demônio revoltado, Nurd (o Flagelo de Cinco Deidades), como conduíte dessa análise, e o terrível bispo Bernard, o Mau como contraponto, ele trabalha o conceito de que todas as criaturas têm bondade e maldade em potencial dentro de si, sendo sua natureza mais uma indicação de caminho do que uma predestinação. Embora esta forte relativização possa ser um fardo o qual crianças não têm base para lidar, cabe aos responsáveis ajudar o jovem a filtrar o que mais lhe vale no livro.

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“A maior parte das pessoas não são más. Elas fazem coisas ruins às vezes, e todos nós temos um pouco de maldade em nós, mas poucas pessoas são inacreditavelmente más, e grande parte das coisas más que elas fazem parecem perfeitamente razoáveis para elas à época. Às vezes elas estão entediadas, ou são egoístas, mas normalmente elas não querem magoar ninguém quando são más. Elas só querem fazer as próprias vidas um pouco mais fáceis.”

Quanto ao livro físico em si, o trabalho da Bertrand Brasil foi excelente. Seguindo a linha dos livros anteriores do autor lá fora (e, agora, aqui no Brasil), a capa é de qualidade e de alto relevo, e a boa diagramação com letras grandes facilitam a leitura de suas 304 páginas.

Entre demônios bêbados em festas de Halloween, jogadores de críquete enfrentando caveiras voadoras e criaturas nefandas pilotando Porsches, “Os Portões” trabalha conceitos que serão absorvidos dependendo da faixa etária, mas que diverte no processo. Os arcos secundários pouco relevantes, que servem mais à moral da história do que ao enredo em si, entretêm mesmo sendo desnecessários. No geral, um bom livro, mas que não precisa ser o primeiro da sua fila – principalmente se você ainda não leu o irretocável “O Livro das Coisas Perdidas”.

Obs.: vale a pena lembrar que esse é o primeiro de uma trilogia envolvendo Samuel. O segundo volume, “Sinos do Inferno”, foi lançado esse ano também pela Bertrand Brasil.

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Ficou interessado? Ficou curioso? Seu dedo está coçando para ver esse livro? Então clique na capa abaixo e seja feliz.

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erikavilez

Erik (sem C) é escritor, roteirista e dançarino de hula profissional lá fora. Aqui dentro, Erik é redator-chefe e comercial do site, além de criador, host e editor do PontoCast, o podcast carro-chefe da casa.