Justiça em Hollywood – os boicotes valem a pena?

A internet possibilitou que fãs de todos os lugares do mundo interagissem com as obras que adoram de uma maneira única e isso, naturalmente, trouxe consequências positivas e negativas. Existe todo tipo de louco no mundo e, enquanto algumas pessoas se contentam em fazer cosplays bem trabalhados, postar mensagens positivas ou críticas construtivas aos filmes, séries, livros, etc, favoritos; outras, indignadas, armam boicotes pelas mais diversas razões. Assim foi com Os Últimos Jedi, quando uma série de pessoas achou que aquele filme não era o Star Wars que todos queriam, ou ainda o abaixo assinado para liberarem o corte de Zack Snyder da Liga da Justiça ou ainda, e aqui algo bem preocupante, uma quantidade de pessoas querendo boicotar o filme do Pantera Negra numa ação visivelmente racista.

boicotes

A questão é que, obviamente, impossibilitados de falar com as grandes figuras do cinema mundial, resta, ao pequeno fã, os boicotes. Felizmente, na maioria das vezes, as ações não passam de piadas de mau gosto (muito mau gosto), afinal de contas, são tão mal pensadas e carregam consigo um discurso retrógrado e bobo, de gente que quer fazer a manutenção do status quo porque não consegue perceber que o tempo passa e as coisas mudam.

Na pós-modernidade, autoria é um conceito em baixa e, talvez por isso, o espectador é levado a crer piamente que aquela obra de arte existe apenas por e para ele. Não bastasse isso, a lógica do mercado afirma que se ele pagou para consumir bem-estar, a obra que ele está ingerindo deve proporcionar isso e é seu direito e dever se revoltar quando o retorno não corresponde exatamente a todas as suas expectativas.

E quando os boicotes são realmente bem intencionados e focados em quem “merece” alguma punição?

Boicotes

Depois do Weinsteingate e da série de escândalos sexuais e de diversos tipos de abusos que começaram a ser expostos em Hollywood, ficou evidente que esse tipo de atrocidade sempre aconteceu e que a indústria foi, durante muito tempo, leniente com os perpetradores desses atos hediondos. Contudo, um levante principalmente das trabalhadoras do cinema/TV e uma adesão grande do público tem ensaiado uma mudança, fazendo cada vez mais comum o discurso de que as pessoas não vão/devem assistir esse ou aquele filme por causa desse o daquele ator. Isso é também, evidentemente, uma espécie de boicote!

Entretanto, como a Boo Mesquita bem lembrou no nosso PontoCast sobre o assunto, a indústria do cinema é feita por muitas pessoas e a maioria delas são, inclusive, anônimas. Assim sendo, talvez não fosse tão justo deixar de fomentar a indústria que sustenta tantas pessoas que nada têm a ver com quem bate na esposa ou coage funcionárias a fazer sexo.

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Por outro lado, não existe nada que garanta que os funcionários anônimos da indústria do entretenimento sejam anjos imaculados de candura. Assim, quando nenhum dos nomes conhecidos, que está a frente das câmeras, fez algo errado de fato, podemos ainda estar ajudando o trabalho de alguém cujos atos são reprováveis e, o pior, é provável que jamais saibamos do caso do maquiador estuprador ou assistente de câmera pedófilo.

Pensando nisso, vale nos perguntarmos se a notoriedade de quem pratica algum crime aumenta a nossa comoção e senso de justiça?

Além disso, outro ponto para se levar em consideração é que cada caso é um caso. Por exemplo, Michael Douglas possui um acordo pré-nupcial muito polêmico graças à sua ninfomania. Recentemente, depois de ser acusado de abuso, Louis C. K. assumiu estar errado e precisar de “um tempo para ouvir” em vez de falar. Algum tempo atrás, Winona Ryder teve a carreira interrompida quando foi pega roubando em virtude de sua cleptomania. É claro, que a indústria foi muito mais severa com este último caso, envolvendo uma protagonista feminina, do que tem sido com todos os homens, contudo, talvez exista, pela primeira vez, alguma chance de que isso mude e homens e mulheres sejam penalizados igualitariamente.

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Mas essa pena deveria realmente existir?

É preciso notar que não existe o que discutir enquanto estivermos falando de um crime. As autoridades precisam punir e a sociedade precisa reprovar, uma vez que estamos falando de um comportamento nocivo para o ser humano. Mas, ainda assim, será que os boicotes valem de alguma coisa, vistos todos os problemas que existem nessa questão?

Em suma, é impossível mensurar o quão efetivos são esses boicotes para punir ou fazer com que os transgressores se sintam punidos. Talvez seja até complicado dizer que eles podem nos trazer algum tipo de desencargo de consciência, mas o fato é que é necessário enxergamos os grandes nomes do entretenimento como pessoas que, apesar de talento, carisma e potencial criativo, também estão sujeitas a cometer erros nefastos e, como consequência disso, perder prestígio e oportunidades.

 


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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.