Resenha | como, então, viveremos? – Os Arrais (2018): simplicidade para fugir do lugar-comum

É uma crítica corrente, de pessoas religiosas e não religiosas, que a famigerada música “gospel” é bastante repetitiva, previsível e cansativa.  Particularmente prefiro o termo “música cristã”, por se tratar de um “tema” e não de um gênero, mas essa é uma outra discussão. Muito dessas características citadas vêm da falta de compreensão de que a maioria das composições cristãs é feita com o propósito de ser entoada em igrejas, no momento de louvor. Assim, convenhamos, músicas com partes rítmicas intrincadas, letras enormes e complexas de memorizar e de alcance vocal muito alto (entenda-se agudo), podem ser um problema. Daí os lugares-comuns se estendem também à abordagem do tema que, apesar de algumas variações, é compreensivelmente o mesmo.

Os Arrais
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Feita essa introdução, é preciso dizer que, de diversas maneiras, Os Arrais (os irmãos Tiago e André) estão indo na contramão do que aparece por aí de várias formas, podendo, inclusive, agradar aos ouvidos daqueles que normalmente não se arriscariam a uma audição de músicas com mensagens religiosas. No EP “como, então, viveremos?” somos presenteados com boas composições que variam entre arranjos enxutos e canções com detalhes complexos, letras que fogem aos lugares comuns e reforçam a qualidade vocal d’Os Arrais.

Vamos a um breve faixa-a-faixa desse disco?

dia: a canção narra o momento de acordar, apropriado para iniciar uma setlist. A instrumentação, guiada pelo violão, vai crescendo e ganhando detalhes, numa mistura balanceada entre country e folk. A letra aponta para uma breve reflexão existencial que culmina numa afirmação positiva da vida, juntamente com a parte instrumental que, na reta final, cresce e se complementa à mensagem.

mistério: essa faixa conta com a participação de Laura Souguellis, uma voz feminina doce e marcante. A letra da música, novamente, aponta para reflexões existenciais, chamando atenção para a dádiva que é estar vivo. Com uma levada mais animada, a instrumentação é incrivelmente coesa. As divisões vocais são formidáveis e combinam, ao final, as dicotomias da vida (“o barro e o vento”, “aparência e mistério”) com a dissonância entre as vozes.

 

Os Arrais
Laura Souguellis

guerra: tanto em termos de mensagem, quando em termos de instrumentação (única canção que dispensa os violões e pega em guitarras), desenvolvimento e potência, esta canção é o grande destaque de “como, então, viveremos?”. Novamente, o tema das dicotomias contraditórias da vida e do próprio ser humano retorna aqui. A música é conduzida por uma guitarra base levemente distorcida, com arranjos dissonantes ao fundo e uma bateria extremamente envolvente. Vale lembrar que essa faixa aborda o cristianismo por lugares surpreendentes (“dentro de mim/anarquia e império”, “poesia e silêncio”, “o sacro e o profano”).

semente: aqui, retornamos ao violão de aço dedilhado em frases dissonantes. A letra fala dos sacrifícios feitos em nome de relacionamentos, tal qual a semente, que morre na terra para se desenvolver e frutificar – uma ótima reflexão sobre alteridade e altruísmo. Em relação à instrumentação, temos aqui uma característica marcante dos Arrais: as melodias são coesas e temos a impressão de haver poucos instrumentos sendo tocados, mas tudo é tão dissonante e necessário para a canção que a sonoridade transmite uma ideia de completude muito forte. É difícil se pegar pensando em arranjos para músicas como essa.

instante: para encerrar o disco, temos uma música que, até o final, mantém a calmaria com violão, voz, e uma guitarra bastante levada no country. A letra questiona os absolutos que as pessoas adotam para viver e eis que surge a pergunta do título da gravação, “como, então, viveremos?”. E, assim, Os Arrais terminam o EP como uma excelente obra de arte, que deixa sua audiência com mais perguntas do que respostas e a certeza de que acabaram de ouvir cinco canções que foram compostas e executadas com muito carinho e destreza.

 


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Professor, redator, editor-chefe deste site. Sou um cosplay de baixo orçamento de mim mesmo. Parceiro do Erik no PontoCast e host do BancaCast. Não sei qual é o meu animal interior, mas não é uma chinchila.